O primeiro-ministro britânico fez um pedido de desculpas público às vítimas do traficante de menores Jeffrey Epstein por ter nomeado Peter Mandelson embaixador do Reino Unido em Washington, um dia depois de as suas respostas na Câmara dos Comuns não terem satisfeito os seus próprios pares. A oposição diz-se insatisfeita com as justificações, enquanto no Partido Trabalhista se contam espingardas para a hipótese de alguém disputar a liderança com o seu líder. O desgaste do capital político de Keir Starmer deixa os próprios comentadores britânicos atónitos. Foi eleito em 2024, 14 anos após o último trabalhista (Gordon Brown) ter deixado Downing Street. A sua popularidade desceu a pique ao confrontar-se com escolhas impopulares para enfrentar as dificuldades económicas em cascata (saída da UE e pandemia). Mas o que poderá ditar o seu fim político é ter deixado que a relação tóxica de Peter Mandelson, figura influente do Partido Trabalhista, com Jeffrey Epstein, se tenha espalhado até à figura do primeiro-ministro. Ontem, Starmer pediu desculpa às vítimas do norte-americano que morreu na prisão em 2019. “As vítimas de Epstein viveram um trauma que a maioria de nós mal consegue compreender. A elas, quero dizer o seguinte: lamento. Lamento pelo que vos foi feito. Lamento que tantas pessoas vos tenham falhado.” Apesar do pedido de desculpas, o primeiro-ministro britânico atirou as responsabilidades da nomeação, há um ano, de Mandelson como embaixador em Washington para os serviços de segurança. “Devo acrescentar que, na altura, foi realizada uma verificação de segurança de forma independente pelos serviços de segurança, um processo intensivo que lhe garantiu a autorização para o cargo e pelo qual se tem de passar antes de assumir a posição”, disse..Starmer desculpou-se sucessivamente com as mentiras de Mandelson, com um erro de julgamento, e com a avaliação dos serviços de segurança..Mas estas declarações, assim como as do dia anterior, em que disse ter sido enganado pelo antigo ministro e comissário europeu e feito um erro de julgamento não convencem ninguém, da oposição aos membros do seu próprio partido. A líder dos conservadores, que na véspera encostou Starmer à parede durante a sessão parlamentar, voltou à carga: “Estão a tentar pôr as culpas todas em Peter Mandelson. Mas não é assim. A responsabilidade também recai sobre Downing Street, e penso que, se não for Keir Starmer, então deve ser Morgan McSweeney. Ambos têm muito a explicar e ambos estão a esconder-se”, disse Kemi Badenoch. McSweeney é o chefe de gabinete de Starmer, próximo de Mandelson.“O primeiro-ministro está a tentar fingir durante todo o tempo que não conhecia realmente Peter Mandelson, não compreendia verdadeiramente qual era a relação”, disse Nigel Farage, o líder do Reform UK. “É um pedido de desculpas muito fraco e tardio, pouco credível e que não ajuda em nada à sua posição.”Vários deputados trabalhistas mostram-se revoltados. Neil Duncan-Jordan diz que há uma “quebra na confiança” do governo e aponta o dedo para o chefe de gabinete. Já Graham Stringer responde “Sim” à pergunta da GB News se Starmer está acabado. Segundo o Telegraph, os deputados estão a desafiar a ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner e o ministro da Saúde Wes Streeting a lançarem um desafio à liderança contra Starmer. Harriet Harman, ex-vice do partido, disse à Sky News que ou Starmer age, ou o caso acabará “por derrubá-lo”. Critica-o por culpar Mandelson porque “na realidade, ele nunca o deveria ter considerado [para o cargo de embaixador] desde o início”..Epstein e Mandelson, os "melhores amigos"2002 Um artigo na New York Magazine conta que Peter Mandelson participou numa festa na residência de Epstein em Manhattan juntamente com Donald Trump. É deste ano que surgem os primeiros emails entre Epstein e Mandelson, com este a dizer que encorajou Tony Blair a encontrar Epstein.2003 Mandelson escreveu uma mensagem a Epstein descrevendo-o como o seu melhor amigo. Extratos bancários mostram que Epstein pagou mais de 54 mil libras em contas, das quais Mandelson terá sido beneficiário.2006 Depois de as autoridades da Florida concluírem que Epstein deveria ser acusado de quatro crimes sexuais com menor, Mandelson enviou mensagem de apoio: “Estou aqui sempre que precisares.”2008 Mandelson encoraja Epstein a “lutar pela libertação antecipada” ao saber da sua condenação a 18 meses de prisão. Epstein obtém um acordo secreto que lhe permite sair da prisão durante o dia.2009 Mandelson passa pelo apartamento de Epstein em Manhattan enquanto aquele está na prisão. Mandelson terá divulgado a Epstein um documento confidencial do governo britânico, no qual se propunha a venda de ativos no valor de 20 mil milhões de libras. Também revelou os planos do Partido Trabalhista para a política fiscal.2016 Documentos mostram que Mandelson manteve contacto com Epstein até pelo menos este ano.2025 Em fevereiro, Keir Starmer nomeia Mandelson como embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos. Despede-o em setembro, na sequência da revelação de que Mandelson chamou Epstein de “melhor amigo” no livro dos 50 anos feito por Ghislaine Maxwell a então companheira de Epstein. .Caso Epstein faz baixas no Reino Unido, mas nos EUA não há planos para acusações.Os Clinton recuam e aceitam depor sobre caso Epstein no Congresso