Madrid recebe esta sexta-feira e sábado uma reunião da direção do novo partido europeu Patriots.eu e um encontro com líderes dos respetivos partidos nacionais, encabeçado por Santiago Abascal (Vox, Espanha), e com a participação de Viktor Orbán (Fidesz, Hungria), Marine Le Pen (União Nacional, França), Matteo Salvini (Liga, Itália), Geert Wilders (Partido da Liberdade, Países Baixos) ou André Ventura (Chega, Portugal). O momento é de euforia nas hostes da extrema-direita, com o regresso de Donald Trump ao poder no outro lado do Atlântico, sondagens animadoras e a possibilidade de o primeiro-ministro húngaro passar a ter companhia no Conselho Europeu, caso o austríaco Herbert Kickl consiga formar uma coligação. Em resultado das eleições europeias de junho, o Parlamento Europeu ficou reconfigurado com maior peso à direita e extrema-direita. À direita do europeísta grupo do Partido Popular Europeu (PPE) mantém-se o grupo dos Conservadores e Reformistas Europeus (80 eurodeputados), cuja maior delegação é dos Irmãos de Itália de Giorgia Meloni. Mais à direita há o novo grupo Europa das Nações Soberanas, liderado pelo partido alemão AfD (25 eleitos). E pelo meio, das cinzas do grupo Identidade e Democracia, nasceu o grupo Patriotas pela Europa, que se tornou no terceiro maior do hemiciclo. Com deputados de 13 países, Portugal incluído -- Tânger Corrêa e Moreira de Sá do Chega --, a maior fatia dos 84 representantes é oriunda do partido de Le Pen (30). Sem surpresa, o presidente da União Nacional, Jordan Bardella, é também o chefe do grupo. Em paralelo, constituiu-se em novembro o partido europeu Patriots.eu, liderado por Abascal. No seu manifesto de duas páginas, na qual os autodenominados patriotas repetem a palavra “nação” ou “nações” uma dúzia de vezes e nem uma vez “país”, diz-se que a Europa está ameaçada pela União Europeia, “ao lado de poderosas forças globalistas, burocratas não eleitos, lobbies e grupos de interesses”. E o que projetam estas pessoas, segundo o documento fundador? “Estão a planear substituir as nações (...) por um estado central europeu.” A reunião na capital espanhola, sob o chapéu MEGA (Make Europe Great Again), uma adaptação da frase de ordem de Trump estreada pela Presidência húngara do Conselho da UE, tem como objetivo “delinear a estratégia a seguir para consolidar a alternativa ao consenso de populares e socialistas que governam em Bruxelas há uma década”, disse o porta-voz do Vox, José Antonio Fúster. Em especial, os eurodeputados vão afinar estratégias para combater a “política de portas abertas à imigração”, ou seja, o pacto europeu para a migração e asilo, e o “fanatismo climático”, isto é, o pacto ecológico europeu que tem como meta atingir a neutralidade carbónica em 2050. Há dias, Bardella desafiou o PPE a juntar-se à sua iniciativa de suspender as medidas de transição climática, tendo em conta “as medidas incrivelmente atrativas que Donald Trump está a colocar em prática para a economia e empresas”. Os conservadores rejeitaram a proposta, mas é mais um exemplo de como este grupo está a seguir a cartilha emanada da Casa Branca.Uma delegação dos Patriots.eu esteve em Washington durante a tomada de posse do sucessor de Joe Biden e diz-se entusiasmada para clonar o seu programa na realidade europeia. Afinal, como disse o espanhol Fúster, os Patriotas pela Europa representam milhões de europeus que desejam o regresso do senso comum às instituições europeias, as quais deveriam servir os europeus e trabalhar para uma Europa forte, próspera e segura que preserve a sua identidade”. Como Trump, o partido europeu apela ao senso comum -- o que é diferente de bom senso --, mas entre cada partido há noções diversas de nacionalismo ou de posição à Rússia de Putin.EspanhaO Vox voltou a subir nas sondagens. Na mais recente, da 40db. para o jornal El País, o partido formado há 11 anos atinge 14,2% das intenções de voto (obteve 12,4% nas eleições de 2023). Isto apesar de o seu líder estar mais ausente da política nacional e de o partido continuar a perder membros que ganhem mais notoriedade. Aconteceu há dias, com a saída do primeiro dirigente, Juan García-Gallardo, a levar o partido para o governo de uma região (Castela e Leão) em acordo com o PP. Ao bater com a porta, acusou a liderança de “oligarquia”, e juntou-se a Iván Espinosa de los Monteros, Rocío Mo- nasterio e Macarena Olona. Pouco importa: o Vox retirou-se dos seis governos regionais de que fazia parte e capitaliza com a maior preocupação dos espanhóis, a imigração (quase um em cada três cidadãos).Além disso, entre uma parte considerável dos eleitores mais novos, os valores democráticos não são um mandamento. Numa sondagem de setembro passado da 40db., 25,9% dos homens entre 18 e 26 anos consideram o autoritarismo preferível à democracia. Com uma maioria à direita nas sondagens, o Vox espera pela sua vez.FrançaA União Nacional tem terreno fértil para continuar a consolidar a sua popularidade depois de um ano caótico com quatro primeiros-ministros e com a maioria dos franceses a pedir a demissão do presidente Macron. A austeridade imposta pelo Orçamento do Estado para corrigir o défice irá aumentar o descontentamento do executivo chefiado por François Bayrou, e do qual ninguém crê que chegue ao fim da legislatura.Mas o partido está ao mesmo tempo mergulhado na incerteza: Marine Le Pen, a líder de facto do partido, que já anunciou a candidatura às Presidenciais de 2027, pode ficar inabilitada (e cumprir pena de até cinco anos de prisão) caso seja condenada no caso de desvio de fundos europeus. A sentença é conhecida no fim de março.ItáliaJá Matteo Salvini viu, em dezembro, o tribunal de Palermo ilibá-lo dos crimes de sequestro e abuso de poder por não ter dado autorização, em 2019, ao desembarque de um navio de uma ONG com migrantes. Então como hoje vice-primeiro-ministro, Salvini viu a sua popularidade e a da Liga sofrerem com a ascensão de Meloni.Apelidado de “Capitão”, no Parlamento Europeu poderá estar o homem que poderá fazer frente: Roberto Vannacci que, enquanto general, publicou um livro considerado racista e homofóbico. Áustria O Partido da Liberdade da Áustria (FPÖ), o mais votado nas últimas eleições, está em negociações complicadas com os conservadores (ÖVP) para que a extrema-direita ascenda ao poder pela primeira vez desde o fim da II Guerra. O seu líder, Herbert Kickl - também alvo de investigação judicial por alegado falso testemunho -, já disse que forçará novas eleições caso não se chegue a entendimento. O Trump dinamarquês, a ex-tenista grega e o antigo piloto com inclinações nazisEntre 84 eurodeputados há algumas personagens controversas e coloridas. Entre 720 deputados há sempre figuras mais coloridas do que outras - e partidos fora do establishment, casos do Partido Pirata ou o satírico alemão PARTEI. Da República Checa o grupo Patriotas pela Europa acolhe três formações, e nove eurodeputados num total de 21. O principal partido é o ANO 2011 que transitou do grupo centrista Renew. O partido, do empresário populista Andrej Babis, primeiro-ministro entre 2017 e 202, está encaminhado para voltar, caso a tendência das sondagens se mantenha. Além do ANO 2011, dois pequenos partidos que concorreram em coligação, entretanto terminada, alcançaram cada um representante. O antigo piloto de automóveis Filip Turek, o cabeça de lista, é uma personagem controversa. Durante a campanha eleitoral, emergiram fotos antigas de Turek. Numa usava um capacete com o símbolo do partido neonazi grego Aurora Dourada (entretanto extinto), noutra fazia uma saudação nazi e noutra estava com um castiçal com uma suástica. Turek explicou-se: é um colecionador. Da Grécia, o Patriotas pela Europa tem a antiga tenista Afroditi Latinopoulou, voz contra o aborto, a imigração e adepta da teoria da “grande substituição”. Esta fundou o seu partido A Voz da Razão depois de ter sido condenada por se apropriar do nome e do símbolo de uma formação política a que tinha pertencido, e de antes ter sido expulsa da Nova Democracia, o partido de centro-direita no poder, após comentários nas redes sociais sobre o peso de uma apresentadora de TV. Outros comentários controversos incluem uma equiparação da homossexualidade à pedofilia. Da Dinamarca, o Patriotas pela Europa conta agora com o Partido Popular Dinamarquês, que se transferiu do grupo de Conservadores e Reformistas. O seu único eurodeputado, Anders Vistisen, foi comparado a Donald Trump por ter dito a Ursula von der Leyen, num debate, que a despediria, bem como a 10 mil funcionários europeus, assim fosse presidente da Comissão. “You’re fired!”, disse, tal como o presidente dos EUA num concurso de TV. No entanto, há dias, no Parlamento, dirigiu-se diretamente ao republicano a propósito das suas pretensões sobre a Gronelândia: “Sr. Trump, vá-se foder!”..Christopher Sperandio usa a arte para criticar Trump, mas tem um chapéu MAGA para o que der e vier