Depois do G7, a cimeira da NATO: promessas de apoio à Ucrânia e ameaças à Rússia

Líderes das maiores economias mundiais prometeram ontem solidariedade com Kiev o tempo que for necessário. Hoje, aliados declaram Moscovo a maior ameaça à segurança e reforçam força de resposta rápida.

Os aliados da NATO preparam-se para reforçar os seus contingentes na fronteira oriental da Aliança Atlântica e aumentar as forças de resposta rápida até aos 300 mil efetivos, quase oito vezes mais do que os atuais 40 mil. "O objetivo é lançar a mensagem de que estamos preparados para proteger e defender cada polegada do território aliado", disse ontem o secretário-geral da NATO, Jens Stoltenberg, na véspera da cimeira de Madrid. De olhos postos na Rússia, que será apontada como "a mais significativa e direta ameaça à nossa segurança", os aliados vão também comprometer-se com mais apoio militar à Ucrânia à semelhança do que já fizeram os líderes do G7. No encontro que terminou ontem na Alemanha, estes prometeram solidariedade com Kiev durante o tempo que for necessário e reforçaram as sanções a Moscovo.

"Vamos continuar a providenciar apoio financeiro, humanitário, militar e diplomático e ficar ao lado da Ucrânia o tempo que for preciso", indicaram os líderes do G7 em comunicado, no dia em que o presidente ucraniano participou por videoconferência. Volodymyr Zelensky disse que ainda não chegou o tempo de negociar com Moscovo, dizendo que só o fará quando estiver numa posição de força, mas pediu aos líderes que "fizessem o máximo" para que a guerra termine antes de o inverno chegar e as condições para as suas forças no terreno se tornarem mais difíceis. O presidente apelou ao reforço das sanções, incluindo através de um limite ao preço do petróleo russo.

Segundo uma fonte norte-americana, citada pela agência francesa AFP, os líderes estavam ontem a aproximar-se de um acordo neste sentido. A ideia, depois de vários pacotes de sanções que ainda não surtiram totalmente os efeitos desejados, é privar o Kremlin da sua principal fonte de rendimentos, forçando a queda do preço do petróleo russo. A teoria é que os países consumidores estabeleceriam o valor máximo que estavam dispostos a pagar, forçando Moscovo a aceitar. Mas não há provas de que funcionaria ou que a Rússia não responderia, por exemplo, cortando a energia aos países europeus.

Aliança Atlântica

Os esforços internacionais de apoio à Ucrânia na sua guerra contra a Rússia vão dominar também a cimeira da NATO, que começa hoje em Madrid e que deverá também incluir uma intervenção de Zelensky por videoconferência. "Esta cimeira será um ponto de viragem e várias decisões importantes serão tomadas", disse ontem Stoltenberg, indicando que o reforço do contingente na fronteira oriental da Aliança Atlântica e o aumento das forças de reação rápida (que podem ser usadas em caso de necessidade) constitui "a maior revisão de nossa defesa e dissuasão coletivas desde a Guerra Fria".

No apoio direto a Kiev, o secretário-geral reiterou que será aprovado em Madrid um novo pacote de ajuda em áreas como as comunicações seguras, sistemas anti-drone e combustíveis. A isso juntam-se as promessas de armamento dos diferentes membros: os EUA indicaram ontem que vão enviar sistemas de mísseis antiaéreos para ajudar à defesa ucraniana contra os ataques russos. Ontem, além do ataque ao centro comercial de Kremenchuk, que fez pelo menos 11 mortos e mais de 50 feridos, os bombardeamentos fizeram pelo menos quatro mortos em Kharkiv , um em Sloviansk e Lysychansk continua sob fogo contínuo, após a queda da vizinha Severodonetsk.

À margem da cimeira da NATO está ainda prevista uma reunião entre o presidente turco, Recep Tayyip Erdogan, e os líderes da Finlândia e da Suécia, juntamente com Stoltenberg. Ancara mantém até agora o boicote à entrada dos dois países nórdicos na NATO, acusando-os de albergarem militantes curdos - considerados terroristas na Turquia - e exigindo que levantem o embargo imposto após a ofensiva turca na Síria, em 2019. É preciso unanimidade para avançar com o processo de adesão de Helsínquia e Estocolmo.

Os países da NATO continuam entretanto a aumentar as despesas em Defesa, com nove a atingirem já em 2022 a meta de 2% do PIB (um compromisso que foi assumido em 2014). Contudo, Portugal continua aquém desse objetivo, com 1,44%, segundo estimativas ontem publicadas pela organização.

À margem

Putin vai ao Tajiquistão na primeira viagem desde invasão
O presidente russo, Vladimir Putin, vai hoje numa "visita de trabalho" ao Tajiquistão, uma ex-república soviética na Ásia Central, naquela que é a sua primeira viagem ao estrangeiro desde a invasão da Ucrânia, a 24 de fevereiro. Amanhã, Putin estará no Turquemenistão, para participar numa cimeira de líderes dos países do Mar Cáspio - além da Rússia e do anfitrião, o Azerbaijão, o Cazaquistão e o Irão. A última viagem do presidente russo ao estrangeiro tinha sido à China, a e 5 de fevereiro, para um encontro com o homólogo chinês, Xi Jinping, e a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno em Pequim. O Kremlin já disse entretanto que Putin tem planos para participar na cimeira do G20, que se realiza em novembro na Indonésia.

Rússia nega ter entrado em incumprimento da dívida
As autoridades russas negaram ter ontem entrado em default pela primeira vez num século, alegando que as sanções internacionais impediram que dois pagamentos chegassem aos seus credores até o prazo limite, no domingo. "O não recebimento do dinheiro pelos investidores não é resultado de um não pagamento, mas é causado pela ação de terceiros, algo que não é considerado diretamente [...] default", indicou o ministério das Finanças. O Kremlin alega que pagou em rublos os juros de dívida contraída em dólares, mas que o pagamento foi negado pelos credores.

Pai de marroquino condenado à morte apela a Putin
O pai do marroquino que foi condenado à morte após ser acusado de ser mercenário e combater ao lado das forças de Kiev apelou ontem ao presidente russo, Vladimir Putin, para que salve o filho. Taar Saadoun fez o apelo em nome de Brahim Saadoun, condenado junto com dois britânicos na autoproclamada República Popular de Donetsk (cuja independência é reconhecida por Moscovo). "Apelo ao presidente Putin para que intervenha, como pai e por humanismo, através de canais humanitários e não oficiais", disse numa conferência de imprensa em Rabat, alegando que o filho foi vítima de manipulação.

susana.f.salvador@dn.pt

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