Depois do carvão e do petróleo, pode a UE travar os turistas russos?

Finlândia e Estónia querem deixar de emitir vistos, apelando aos outros países do espaço Schengen para que façam o mesmo. Mas nem todos estão de acordo.

Depois de colocarem um travão às importações de carvão e petróleo russos, há países europeus que defendem que a próxima ronda de sanções deve passar por deixar de emitir vistos de turismo para os cidadãos da Rússia. "Visitar a Europa é um privilégio, não é um direito humano", disse Kaja Kallas, a primeira-ministra da Estónia, que já está a tomar medidas nesse sentido, junto com a Finlândia e a Letónia. Mas nem todos estão de acordo com esta medida de represália pela invasão da Ucrânia.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, indicou ao The Washington Post, que a próxima ronda de sanções ocidentais devia passar por proibir a entrada dos turistas russos. "As sanções mais importantes são fechar as fronteiras - porque os russos estão a roubar a terra de outras pessoas", afirmou, alegando que os russos deviam "viver no seu próprio mundo até mudarem a sua filosofia".

A ideia foi prontamente criticada pelo Kremlin: "A irracionalidade de pensamento ultrapassa os limites", disse o porta-voz, Dmitry Peskov. "Isto só pode ser visto como extremamente negativo", acrescentou, criticando "qualquer tentativa de isolar os russos ou a Rússia".

A Finlândia anunciou na semana passada que estava a preparar-se para limitar o número de vistos de turismo que emitia para os cidadãos russos, depois de se ter tornado num país de trânsito para aqueles que querem seguir para outros países europeus - todos os voos entre a Rússia e a União Europeia foram cancelados depois da invasão da Ucrânia. Contudo, Helsínquia quer que haja uma decisão a nível europeu sobre este tema, já que qualquer outro país do espaço Schengen pode emitir vistos.

Já depois da entrevista de Zelensky, a primeira-ministra da Estónia apoiou no Twitter a ideia. "Visitar a Europa é um privilégio, não é um direito humano. Os voos desde a Rússia estão parados. Isso significa que, enquanto os países do espaço Schengen emitem os vistos, são os vizinhos da Rússia que carregam o fardo (Finlândia, Estónia e Letónia - os únicos pontos de acesso). É hora de acabar com o turismo da Rússia", acrescentou. Ontem, o chefe da diplomacia, Urmas Reinsalu, confirmou a proibição de entrada no país de russos com visto Schengen emitido pela Estónia.

Também ontem o Parlamento da Letónia declarou a Rússia como "país patrocinador do terrorismo" - como a Ucrânia tem vindo a pedir - considerando que as suas ações constituem "genocídio contra o povo ucraniano". Além disso, os deputados apelam à União Europeia para deixar de emitir os vistos de turismo, não só aos russos mas também aos bielorrussos, e cortar na emissão de vistos em geral. A República Checa, que está na presidência rotativa da União Europeia, apoia a medida, lembrando que a defende desde o início da guerra e que assim se enviaria um "sinal claro" aos russos que têm apoiado a "operação especial" de Vladimir Putin na Ucrânia.

O tema poderá ser discutido na próxima reunião de chefes da diplomacia dos 27, prevista para 30 de agosto, na República Checa. Mas não é consensual entre todos: o chanceler alemão, Olaf Scholz, mostrou-se contra. "Esta guerra é a guerra de Putin ", disse numa conferência de imprensa, explicando que foram adotadas "sanções concretas" contra oficiais russos e oligarcas. "Mas se agora estendermos estas medidas a todos, incluindo pessoas completamente inocentes, então isso seria reduzir a eficácia dessas sanções", afirmou.

Já os EUA são contra uma proibição total de emissão de vistos, com um responsável a dizer ao The Washington Post, sob anonimato, que isso significaria impedir a entrada de dissidentes e críticos da guerra. E iria contra a retórica de que o problema é Putin, não são os russos.

Zaporíjia

Moscovo e Kiev continuam a acusar-se mutuamente de ataques à central nuclear de Zaporíjia, nas mãos dos russos desde março. Só ontem cinco rockets ou mísseis terão caído próximo de um local de armazenamento. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, antes de uma reunião extraordinária do Conselho de Segurança sobre o tema, falou em "incidentes muito preocupantes que, se continuarem, podem levar a um desastre", apelando a um acordo para proteger o perímetro da central - a maior da Europa.

Ambos os lados alegam que os níveis de radiação em Zaporíjia estão normais, mas a Energoatom (operadora ucraniana), avisou que os ataques causaram danos em "vários sensores da radiação".

Explosões em base na Bielorrússia

A Bielorrússia, aliada da Rússia, alega que as explosões ouvidas na noite de quarta para quinta-feira numa das suas bases aéreas, a apenas 30 km da fronteira com a Ucrânia, se deveram a um "acidente técnico". Pelo menos oito explosões terão sido ouvidas perto do aeroporto militar de Zyabrovka. O Ministério da Defesa disse que "o motor de um veículo incendiou-se depois de ser substituído" e que "não houve feridos". O incidente ocorreu após as explosões na base aérea russa em Saky, na província da Crimeia (ocupada desde 2014), que Moscovo também disse terem sido um acidente, causado pela "detonação de munições". Apesar de se suspeitar que terá havido um ataque ucraniano, com as imagens de satélite a revelarem vários aviões destruídos, Kiev não admitiu oficialmente a responsabilidade.

susana.f.salvador@dn.pt

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