"Depois de um presidente americano a ter praticamente paralisado, um presidente russo devolveu a NATO à plenitude"

Professor na Universidade Autónoma de Lisboa e investigador do OBSERVARE, o general Luís Valença Pinto analisa a invasão da Ucrânia pela Rússia e como esta levou ao reavivar dos laços entre os Estados Unidos e os aliados europeus.

Qualquer que seja o resultado da guerra na Ucrânia, a NATO sai reforçada desta crise com a Rússia?
Como é que esta agressão russa vai terminar é coisa que não sabemos e que é difícil de antever. Até porque não se vislumbra legitimidade em nada do que Putin parece pretender. O que seria trágico e completamente inaceitável seria que se sacrificasse a Ucrânia em nome de um retorno ilusório a um statu quo ante na relação com a Rússia. Mesmo estimulando e promovendo a via negocial, como se justifica, uma tal hipótese tem que representar uma impossibilidade. O desfecho desta intolerável guerra de conquista terá impacto em toda a Europa e em todas as suas organizações, incluindo naturalmente na NATO. Mas é desde já claro que a Aliança, os ideais de liberdade e democracia que lhe estão subjacentes, a união e a vontade comum dos seus Estados-membros, foram revalorizados. Verificamos o que se poderia designar como a retoma da NATO. Depois de um presidente americano a ter praticamente paralisado, um presidente russo devolveu-a à plenitude. É quase que irónico, mas é a realidade. A convergência entre americanos e europeus tem sido espontânea, fácil e rápida. Ou seja, o vínculo transatlântico que define a Aliança está vivo e ativo. Mas é bom não perder de vista que, para além da presente situação, persistem na Aliança problemas difíceis que será preciso continuar a encarar. Basta que se atente designadamente nas questões húngara, polaca e turca, não deixando de ter presente o que tem sido o empenhamento colaborante desses países na atual conjuntura. Veremos como o conceito estratégico que aí vem enquadra e reflete estes diferentes aspetos.

Esta atenção de Joe Biden à Europa é conjuntural ou será para manter, mesmo quando os Estados Unidos, como nas eras Obama e Trump , voltarem a ter o foco no Indo-Pacífico?
As realidades e a dinâmica da região do Indo-Pacífico, a China e não só, fazem supor que os EUA manterão aí o seu foco prioritário. Mas é também de admitir que as questões europeias, que em décadas recentes, de George W. Bush a Trump, têm estado muito desvalorizadas em Washington, ganhem nova relevância na agenda norte-americana. E que, na perspetiva dos EUA, isso se passará com renovada confiança e tranquilidade, na medida em que estarão agora mais convictos do valor natural e positivo da cooperação e articulação com a UE e também do maior empenhamento europeu no sentido do reforço dos seus investimentos em Defesa e consequentemente das suas capacidades militares. A valorização da cooperação NATO-UE, a vários títulos indispensável para a Segurança ocidental e europeia, é outro dos grandes resultados desta agressão russa. E mais um dos que Putin não desejaria.

Ficou surpreendido com a súbita disposição dos governos europeus para aumentar os orçamentos de defesa, depois de anos a demorar no cumprimento do compromisso dos 2% do PIB?
De uma forma geral todos os responsáveis políticos estavam cientes dessa necessidade objetiva. Ainda que, por razões de política interna, de perceção pública e portanto também de eleitoralismo, a procurassem evitar ou, pelo menos, diferir no tempo. Putin promoveu a superação de todos esses entraves e fez com que esta decisão dos europeus, não só não seja surpreendente como se tenha tornado natural e imperativa. Mesmo tendo como evidente que será desatenção não olhar simultaneamente para os desafios da recuperação económica e social emergentes da pandemia. Por si só, 2% do PIB deve dizer-nos pouco. O que é preciso é que, para além de se aumentar esse investimento, como tanto se justifica, ele seja bem canalizado e aplicado. A observância do critério anterior de utilizar pelo menos 20% das verbas da Defesa em levantamento e reforço de capacidades deficitárias ou mesmo inexistentes será fundamental.

Uma Alemanha sem complexos de ser uma grande potência militar é uma boa notícia para a União Europeia se esta ambiciona ter um pilar de defesa?
A Alemanha foi a grande surpresa. Sobretudo porque o aumento de despesas militares, consubstancia para a Alemanha muito mais do que uma questão financeira. Representa uma significativa viragem política e estratégica. Algo que tem que ser visto em conjunto com as decisões germânicas de suspender o Nordstream 2, de colocar forças militares em países fronteiros da Rússia e de exportar armamento letal. A Alemanha está a reequacionar o seu papel na Europa e no mundo e mostra pretender ser mais do que um poder fundamentalmente económico. E querer sê-lo nos contextos da NATO e da UE. Em conjugação com Aliados e Parceiros. Se todos derem boas respostas só podem ser boas notícias. Para a UE e para a NATO. É também algo que potencia uma maior autonomia estratégica europeia preservando, como agora é melhor entendido e assumido, o vínculo transatlântico.

Portugal deve aproveitar o momento para modernizar as suas Forças Armadas?
Todos os momentos e todas as oportunidade são apropriados para modernizar e valorizar as Forças Armadas de Portugal. Essa é aliás uma tarefa que nunca está concluída. Só por distração se pode ignorar que, em termos gerais, o tempo pós-troika tem sido um tempo de muita desatenção e desvalorização políticas em relação às Forças Armadas, com as consequências redutoras e negativas que são patentes. A Segurança e Defesa constitui uma importantíssima política pública, que tem as Forças Armadas, não como o seu elemento único, mas como o seu principal elemento estruturante. É em nome do interesse público que se impõe investir nelas melhor e mais. Os objetivos devem ser modernizar e superar lacunas, garantido unidade e coerência entre missão, sistema de forças, reequipamento e avaliação operacional. Acrescente-se que a qualidade exemplar dos Quadros e Tropas das Forças Armadas de Portugal merecem e justificam esse progresso. Como é igualmente imprescindível canalizar verbas para que se cumpra na plenitude o regime de incentivos à prestação de serviço militar, honrando o que está consagrado na lei e reunindo instrumentos eficazes na necessidade de obtenção de recursos humanos no nível desejável e adequado.

leonidio.ferreira@dn.pt

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