O primeiro-ministro britânico, Keir Starmer, considerou esta sexta-feira (24 de janeiro) "insultuoso e, francamente, deplorável" o facto de o presidente norte-americano, Donald Trump, ter alegado que as tropas da NATO – incluindo as do Reino Unido – evitaram a linha da frente no Afeganistão.Numa entrevista à Fox News, na quinta-feira (23 de janeiro), Trump disse que os EUA "nunca precisaram" da NATO. "Eles vão dizer que enviaram algumas tropas para o Afeganistão. E enviaram, mas ficaram um pouco atrás, um pouco fora das linhas da frente", acrescentou o presidente norte-americano, antes de deixar Davos.As declarações não caíram bem entre os veteranos de vários países da NATO ou entre os familiares dos 457 soldados britânicos que morreram em combate no Afeganistão, com Starmer a juntar-se ao coro de críticas."Considero as declarações do presidente Trump insultuosas e, francamente, deploráveis. E não me surpreende que tenham causado tanta dor aos familiares daqueles que foram mortos ou feridos”, afirmou o primeiro-ministro britânico, em declarações à Sky News, dizendo que se tivesse dito algo assim “certamente pediria desculpas”."Esperamos um pedido de desculpas por esta declaração", disse por seu lado à Reuters o general polaco reformado Roman Polko, antigo comandante das forças especiais que serviu no Afeganistão e no Iraque.Trump "cruzou uma linha vermelha", acrescentou. "Pagamos com sangue esta aliança. Sacrificamos verdadeiramente as nossas próprias vidas", insistiu.Os EUA foram até agora o único país da NATO a recorrer ao artigo 5.º do tratado da aliança atlântica - que diz que um ataque a um é um ataque a todos -, no rescaldo dos atentados do 11 de setembro de 2001. Os aliados responderam ao juntar-se à missão militar liderada pelos EUA no Afeganistão.O líder do britânico Partido Liberal Democrata, Ed Davey, lembrou que Trump escapou por cinco vezes a cumprir serviço militar durante a Guerra do Vietname (usando, a certa altura, a desculpa de que tinha esporões no calcanhar).“457 soldados britânicos perderam a vida no Afeganistão. Trump esquivou-se ao serviço militar cinco vezes. Como se atreve ele a questionar o sacrifício deles?”, escreveu no X..“A afirmação de Trump de que os aliados da NATO “não estavam na linha da frente” no Afeganistão é um completo disparate. As tropas britânicas, canadianas e da NATO lutaram e morreram ao lado dos EUA durante 20 anos. Isto é um facto, não uma opinião. O seu sacrifício merece respeito, não descrédito”, disse a líder da oposição, Kemi Badenoch.Os EUA perderam cerca de 2460 soldados no Afeganistão, segundo os dados do Departamento de Defesa. Do lado britânico, houve 457 mortos, de um total de mais de 150 mil que estavam destacados. Mais de 150 canadianos foram também mortos, juntamente com 90 militares franceses, enquanto a Dinamarca - que está sob pressão para vender a sua região semiautónoma da Gronelândia aos EUA - perdeu 44 soldados, uma das mais elevadas taxas de mortalidade per capita da NATO. Portugal também enviou militares para o Afeganistão, tendo registado duas mortes: o primeiro-sargento de infantaria comando João Roma Pereira e o soldado paraquedista Sérgio Pedrosa.