A próxima semana promete voltar a ser uma dor de cabeça para o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, com a sua mulher, Begoña Gómez, e o antigo líder socialista José Luiz Zapatero a serem chamados a tribunal. São dois dos muitos casos que abalam o líder do PSOE, num emaranhado de escândalos que leva a oposição a exigir repetidamente a antecipação das eleições. Sánchez tem resistido a todas essas exigências, mas o cerco judicial aperta-se. Plus UltraUma companhia aérea espanhola fundada em 2011 e especializada nas ligações entre Espanha e América Latina (em especial a Venezuela) dá nome ao caso que envolve o ex-primeiro-ministro José Luis Zapatero - que foi chamado a declarar enquanto arguido na próxima quarta e quinta-feira (17 e 18 de junho). O ponto de partida foi o resgate de 53 milhões de euros que o Estado espanhol, por causa da pandemia, pagou em março de 2021 à empresa que considerou estratégica. A suspeita das autoridades é que esse dinheiro possa ter sido usado de forma indevida, apontando para uma rede de branqueamento de capitais da Venezuela (e com ligações ao regime de Nicolás Maduro).Zapatero é acusado de tráfico de influências, organização criminosa e falsificação de documentos, suspeitando-se que tenha tido um “papel predominante” na concessão da ajuda graças aos contactos e à sua capacidade de acesso a altos cargos no governo. Em troca, teria obtido benefícios económicos. O ex-líder socialista nega todas as acusações. O ex-primeiro-ministro admitiu apenas ter cobrado 463 mil euros pelos trabalhos de consultoria com a empresa Análisis Relevante, do amigo Julio Martínez, que foi detido ainda em dezembro junto com dois dirigentes da Plus Ultra. Um deles era cliente da empresa de comunicação das filhas de Zapatero, que também se veem envolvidas neste caso.Nas buscas ao escritório do ex-primeiro-ministro foram entretanto encontradas várias joias, que ele alega serem herança da mãe e da sogra, além de presentes, e que alega estariam no escritório porque vivia numa casa alugada sem cofre..Acusação contra Zapatero é mais uma dor de cabeça para Sánchez.Caso KoldoO caso começou com um escândalo de subornos para a compra de máscaras durante a pandemia que envolvia Koldo García, conselheiro do antigo ministro dos Transportes José Luis Ábalos. Ambos estão em prisão preventiva, por alegado perigo de fuga, estando a aguardar a decisão do juiz após a conclusão do julgamento em maio. Em causa estão os crimes de organização criminosa, corrupção, tráfico de influência, falsificação de documentos oficiais, uso de informação privilegiada, prevaricação e desvio de verbas públicas. A procuradoria pede 24 anos de prisão para Ábalos. Mas este caso teve inúmeras outras ramificações, uma das quais a envolver o antigo secretário de Organização do PSOE, Santos Cerdán (Ábalos tinha ocupado esse mesmo cargo imediatamente antes dele). O também deputado teria recebido subornos em troca da adjudicação de obras públicas, num caso que envolve também vários empresários da construção..Espanha. Sánchez promete explicações e investigações sobre o 'Caso Koldo', mas PP exige a sua demissão.Há ainda suspeitas sobre dinheiro em efetivo que o próprio partido terá pago a Ábalos e Kordo (e a muitos outros dirigentes entre 2017 e 2024), suspeitando-se que possa ter havido lavagem de dinheiro pelo pouco controlo que havia nesses pagamentos. Caso Leire DíezA própria sede do PSOE foi alvo de buscas por causa de um outro escândalo, a envolver a antiga militante socialista Leire Díez. Em causa um plano, alegadamente liderado por Cerdán, para travar ações judiciais ou policiais contra o partido e o governo. A coordenadora do esquema seria Díez, que deixou o partido há um ano após serem revelados áudios em que surgia a pedir informação comprometedora sobre o tenente-coronel que liderava a Unidade Central Operativa da Guardia Civil - que investigava o PSOE. Não foi o único alvo. Ela alega que fazia trabalho de investigação jornalístico. O objetivo seria, segundo os investigadores, “proteger os interesses em jogo” de ministros e responsáveis partidários, além do próprio primeiro-ministro, Pedro Sánchez - que se suspeita seja o “one” de que Díez falava. Este nega ter tido conhecimento do caso. “Não apoiei isso nem tinha qualquer informação a esse respeito. Nunca o teria tolerado”, afirmou Sánchez.Cerdán e outros são acusados de organização criminosa, suborno, divulgação de segredos, indução a falso testemunho, falsa acusação, falsificação de documentos comerciais, prevaricação, tráfico de influência e contra as instituições do Estado..Polícia espanhola faz buscas na sede do PSOE em Madrid. Sánchez promete "colaboração" com a justiça.Caso David SánchezO irmão do primeiro-ministro sentou-se também nas últimas semanas no banco dos réus. Em causa esteve a sua nomeação para um cargo em Badajoz, suspeitando-se que o conseguiu pela sua relação familiar e não graças a um “processo de seleção justo e transparente”. O caso envolve não apenas David Sánchez, mas o então presidente do Conselho Provincial de Badajoz e antigo líder do PSOE da Extremadura, Miguel Àngel Gallardo. O Ministério Público considera que não há provas de atividade criminosa, mas a acusação popular - que inclui o Partido Popular e o Vox - pedem penas de até seis anos de prisão. David Sánchez negou as acusações, tal como Gallardo. “A única coisa errada que fizemos foi não partilhar as mesmas ideias das acusações. Fomos socialmente condenados, mas confio na justiça”, disse este último. .Espanha. As dores de cabeça judiciais da família Sánchez.Caso Begoña GómezO irmão de Sánchez não é o único familiar do primeiro-ministro a estar envolvido em suspeitas. Também a sua mulher foi acusada em abril de tráfico de influências, corrupção empresarial, peculato e apropriação indevida, num caso que levou Sánchez a equacionar demitir-se em 2024. Begoña Gómez está chamada para uma “audiência preliminar” esta segunda-feira, 15 de junho. Em causa estão as suas atividades na Universidade Complutense de Madrid, onde criou uma cátedra de Transformação Social Competitiva junto com o empresário Juan Carlos Barrabés, que terá supostamente beneficiado de contratos públicos. Também a própria mulher de Sánchez foi “uma força motriz” por detrás da angariação de fundos privados que foram canalizados também para o “património pessoal”, segundo a acusação.A investigação já dura há mais de dois anos, mas a defesa de Begoña fala num processo em “velocidade de cruzeiro absolutamente incompatível” com as “garantias do devido processo legal num Estado democrático”, considerando que o juiz atua “como se estivesse com muita pressa para terminar o procedimento” e sem ter em conta os vários recursos apresentados. O juiz tem que se reformar em setembro..Fim da instrução: mulher de Pedro Sánchez processada por quatro crimes