O embaixador Mário Godinho de Matos foi o representante de Portugal em Cuba entre 2004 e 2008 e hoje segue à distância a crise que se vive no país, depois de a torneira do petróleo venezuelano ter sido fechada pelos norte-americanos na sequência da queda de Nicolás Maduro. “Posso estar a ser muito otimista, mas creio que Cuba vai resistir e vai se encontrar ali uma maneira de negociar com os EUA”, afirmou ao DN, dizendo contudo que incidentes como o da lancha intercetada na quarta-feira (25 de fevereiro) não ajudam a aliviar a tensão.Conhecedor também da realidade no Haiti, onde esteve igualmente acreditado (chegou mesmo a abrir lá um consulado honorário), não acredita no cenário que alguns temem de que Cuba, com a eventual queda do regime, se possa tornar num Estado falhado como o país vizinho. “Não creio. Cuba tem outra estrutura, tem outra tradição”, disse o embaixador. “Tem outras condições e não ficará um Estado falhado como o Haiti. Não correrá esse risco.”O embaixador lembrou, por exemplo, que “Cuba foi o segundo país do mundo a ter televisão a cores”, no tempo ainda da influência norte-americana. “E teve caminho de ferro por causa das plantações de açúcar ainda antes de Espanha.” Há uma “tradição de desenvolvimento” e depois também uma “tradição revolucionária” em Cuba, enquanto o Haiti “é um país muito frágil, de colonização francesa, mal integrado na região” onde “infelizmente acabaram por ser os grupos criminosos a dominar”.Já em Cuba, o embaixador recorda-se de um país “muito seguro”, onde “se podia andar na rua a qualquer hora do dia ou da noite”. E apontou a grande educação do povo cubano. “Não tem comparação, nem com outros países da região, e pode dar uma força, uma consistência para se encontrar uma solução para a atual crise”, disse Godinho de Matos. Isto apesar da frustração de muitos de não haver uma economia capaz de absorver essas pessoas tão bem formadas. “Era muito frustrante, já no meu tempo, ver um engenheiro, por exemplo, que preferia ir para a porta de um hotel carregar as malas dos turistas”, explicou, defendendo que não se pode criar um modelo económico baseado apenas no turismo, que é muito volátil. “Por muito educada que a pessoa seja, por grandes que sejam as linhas civilizacionais e revolucionárias que existem, é preciso ter pelo menos uma refeição por dia”, afirmou o embaixador, considerando que é impossível que Rússia e China não se coordenem de alguma forma para evitar um colapso. Até porque os chineses investiram muito, nomeadamente no setor das energias renováveis..Segundo o embaixador, “o fator humano é um capital importante que poderá ajudar Cuba a resistir mais uma vez” a uma situação de crise - como a do Período Especial da década de 1990 após a queda da União Soviética. “E há outro fator importante: o facto de Raúl Castro [que sucedeu ao irmão Fidel em 2008 e deixou o poder em 2018] ainda estar vivo, apesar dos seus 94 anos”. Na sua opinião, “apesar de todas as vulnerabilidades do regime, isso contribuirá seguramente para alguma homogeneidade, para que tudo não se deslace”. Há notícias de que será um dos netos de Raúl (há quem fale que é um dos filhos) que está a negociar uma eventual solução com os EUA. “O secretário de Estado norte-americano, que é de origem cubana, saberá bem quem contactar”, afirmou o embaixador, falando de Marco Rubio, alguém que tem raízes na ilha. “Nesse sentido, é até uma oportunidade única de Cuba dar a volta”, disse, recordando a proximidade entre os dois países. “Costumava dizer-se, por graça e exagerando um pouco, que numa noite clara e olhando bem para o horizonte quase se conseguiam ver as luzes de Miami.” Otimista de que será possível negociar com os EUA, defendeu contudo que “para sobreviver o próprio sistema tem que flexibilizar”, porque “a repressão política, as condições de vida, quase insuportáveis, não auguram nada de bom”. .“Cuba sempre precisou de aliados externos para sobreviver. Hoje não tem mais nenhum".Havana diz que se defenderá de qualquer “agressão terrorista e mercenária”