Ceuta está a tentar regressar à normalidade depois de mais de 50 mil pessoas terem entrado ilegalmente na cidade autónoma espanhola vindas de Marrocos. Embora a maioria já tenha regressado e o número dos que morreram nesta travessia continue a aumentar, os militares mantêm a sua presença nas ruas e uma nova barreira marítima de contenção foi instalada para prolongar o pontão e dificultar as entradas por mar. Mas o foco está agora no terramoto político que a crise migratória causou na União Europeia (UE). O episódio divide governos, alimenta a retórica da extrema-direita e coloca pressão adicional sobre a política migratória do executivo espanhol de Pedro Sánchez. Uma reunião extraordinária dos ministros do Interior dos 27 foi marcada para esta terça-feira (4 de agosto) por iniciativa da presidência irlandesa da UE, após uma carta promovida por Itália e Dinamarca e subscrita por mais 20 Estados-membros, criticar Madrid e exigir uma resposta coordenada e urgente. O número dos que entraram, mobilizados por mensagens nas redes sociais a dizer que a fronteira estava aberta, continua a ser uma incógnita, falando-se em 50 mil ou 60 mil. Segundo a EFE, as forças de segurança estimam que cerca de 73.500 migrantes já tenham regressado a Marrocos, embora esse número inclua pessoas que já se encontravam na cidade antes dos eventos de quinta-feira. Na morgue, estão 88 corpos, mas oficialmente o número de mortos é de 72. O chefe da diplomacia alemão, Johann Wadehpul, disse ao jornal Bild que este foi um “teste” à UE, que foi “superado”. Mas essa leitura não é unânime. Na carta enviada à presidente da Comissão, Ursula von der Leyen, ao presidente do Conselho, António Costa, e ao primeiro-ministro irlandês, Micheál Martin, 22 Estados-membros afirmam que não se pode permitir que “travessias maciças descontroladas” criem “a perceção” de que a entrada ilegal na UE é possível e que se pode transformar numa permanência legal. Defendem ainda o combate aos chamados “fatores de atração”, criticando a política de regularização de 1,2 milhões migrantes promovida por Espanha.Sánchez respondeu de imediato à missiva, que só não foi assinada por Portugal, França, Luxemburgo e Irlanda. O primeiro-ministro espanhol acusou os parceiros europeus de estarem a adotar posições “egoístas”, “polarizadoras” e “ilegais”. No X já tinha escrito: “Este não é o momento para divisões. É tempo de continuarmos a construir uma UE forte e unida”. Sánchez rejeitou ainda a ideia de que a sua política migratória tenha desencadeado a crise, criticando a decisão italiana de suspender temporariamente os mecanismos de livre circulação. Espanha lembrou que os migrantes que entram em Ceuta não têm acesso automático ao espaço Schengen e defendeu uma resposta europeia ao problema - apesar de a carta dos 22 países mostrar que a retórica que há poucos anos era exclusiva de políticos populistas ou da extrema-direita ser agora partilhadas por mais Estados-membros.A crise também está a ser explorada pelas forças mais à direita em Espanha. Este domingo (2 de agosto), o líder do Vox, Santiago Abascal, viajou até Ceuta para falar da “invasão” e do “ato de guerra promovido por Marrocos e tolerado por Sánchez”, alegando ser falso que a maioria dos migrantes tenha regressado. Abascal exigiu a “militarização permanente” da fronteira, a suspensão do acordo UE-Marrocos e saudou que 22 países europeus desafiem a política migratória do Governo.O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, também está na cidade, tendo endurecido os ataques a Sánchez, falando no “triplo fracasso” do seu governo (da política migratória, da política de segurança e da política externa). Feijóo alegou ainda que o executivo foi alertado, mas não atuou. De acordo com a Euronews, que cita fonte nos serviços de informação, estes tinham avisado para a concentração de pessoas na zona de fronteira nos dias anteriores à crise. As dúvidas continuam sobre o papel de Marrocos, sendo inevitável a comparação com a crise de 2021. Nessa altura, entre 10 mil e 12 mil migrantes entraram em Ceuta depois de as autoridades marroquinas terem relaxado os controlos fronteiriços, numa ação interpretada como um instrumento de pressão diplomática (por causa do Saara Ocidental). O Governo de Sánchez tem evitado acusações diretas e insiste na “cooperação exemplar” dos marroquinos, mas há quem aponte para o uso da migração como “arma política” - o jornal El Mundo falou dos migrantes como “50 mil drones humanos”..Crise migratória. Morgue em Ceuta que recebe corpos de migrantes com 88 cadáveres.Crise migratória em Ceuta. Polícia espanhola confirma 72 mortos e mais de 70 mil retornos a Marrocos.Governo português vai reforçar fronteiras. Seguro diz que a situação está "controlada"