Crimes em Bucha chocam Ocidente. Ministra alemã propõe cortar gás russo

Ministra alemã Christine Lambrecht recusou entregar tanques a Kiev, mas propõe concertação europeia para cortar com o gás russo. Crimes de guerra fazem elevar o tom de Zelensky, que alega genocídio e promete vencer a guerra mesmo sem os apoios prometidos.

Será o massacre de Bucha um ponto de inflexão na forma como os políticos ocidentais olham para a invasão russa? As imagens de corpos de civis desarmados - alguns de mão atadas nas costas - ao longo das ruas daquele subúrbio de Kiev, um "caso inequívoco de execução sumária pelas forças da Federação Russa" segundo a Human Rights Watch, trouxeram comunicados e declarações com palavras fortes e promessas de mais sanções por parte dos dirigentes europeus. Mas a única que se destacou, pelas potenciais consequências, foi a da ministra da Defesa da Alemanha.

Christine Lambrecht defendeu o fim das importações de gás russo ao nível europeu. Moscovo diz que os assassínios de civis em Bucha são "uma encenação do regime de Kiev" e as suas forças continuam a atacar infraestruturas, mas também zonas residenciais em várias cidades da Ucrânia.

As ondas de choque do sucedido em Bucha - mas também em Irpin, onde os invasores dispararam sobre mulheres e depois atropelaram-nas com tanques, segundo o relato do autarca - levaram o secretário-geral das Nações Unidas António Guterres a mostrar-se "profundamente chocado" e pediu uma "investigação independente que leve a uma responsabilização efetiva"; a presidente da Comissão Europeia Ursula von der Leyen disse estar "horrorizada"; o primeiro-ministro britânico classificou o ocorrido de "ataques desprezíveis" e o governante polaco Mateusz Morawiecki pediu uma cimeira europeia de emergência para impor "sanções eficazes".

"Quando se encontram pessoas com as mãos atadas atrás das costas e decapitadas, eu não compreendo. Não compreendo que crianças tenham sido mortas e torturadas. Para aqueles criminosos não era suficiente matar." Volodymyr Zelensky

As reações de maior indignação vieram de Kiev. O conselheiro do presidente ucraniano Mykhailo Podolyak disse que os russos entraram com crematórios ambulantes e que serviriam para "esconder crimes de guerra", mas que o "genocídio planeado" ficou à vista do mundo devido à resistência ucraniana. "O mal concentrado chegou à nossa terra. Assassinos, carniceiros, violadores, saqueadores, que se dizem um exército e que só merecem morrer depois do que fizeram", afirmou por sua vez Volodymyr Zelensky antes de dizer que a Ucrânia vai ganhar a guerra "mesmo que alguns políticos não consigam ultrapassar a indecisão que é transmitida juntamente com os governos".

"Somos cidadãos da Ucrânia e não queremos ser subjugados à política da Federação Russa. Esta é a razão pela qual estamos a ser destruídos e exterminados. Esta é a tortura de toda a nação." Volodymyr Zelensky

Há três semanas um grupo de cem deputados com representantes de todos os grupos do Parlamento Europeu redigiu um abaixo-assinado a exigir aos líderes europeus, que iam reunir-se no Conselho Europeu, para se avançar com uma interdição às importações de petróleo, gás e carvão russos, à imagem da medida dos Estados Unidos. Segundo os parlamentares, a Europa paga cerca de 600 milhões de euros por dia em gás à Rússia, o que "significa que o país poderia fazer cerca de 400 novos tanques T-72 ou 200 novos tanques T-80" a partir de apenas um dia de receitas energéticas da UE.

Só que a dependência norte-americana das fontes de energia russas é nula, ao contrário da UE, que recebe da Rússia 40% do gás consumido. Na mesma altura em que a centena de eurodeputados se dirigia aos líderes europeus, a Comissão anunciou um plano para cortar até dois terços a dependência de Moscovo até ao final do ano.

Um dos países mais dependentes da energia russa (55% do gás e 42% do petróleo) é a Alemanha de Christine Lambrecht. E o seu governo - apesar de suspender a abertura do gasoduto Nord Stream 2 - tem recusado, uma e outra vez, cortar os laços energéticos a Rússia. Por exemplo, a ministra dos Negócios Estrangeiros Annalena Baerbock disse que o seu país está preparado para pagar "um preço económico muito elevado", mas que o embargo à energia russa não resolve o problema e cria outros. "Se amanhã na Alemanha ou na Europa as luzes se apagarem, os tanques não vão parar", disse a ecologista antes da ameaça de Vladimir Putin em cortar o gás aos países que não abram contas em rublos.

Em entrevista ao canal ARD, Lambrecht sugeriu aos ministros da UE para que falassem sobre a paragem do fornecimento de gás, horas depois de Lituânia, Estónia e Letónia o terem feito. "Essa tem sido a nossa força, não foram os países individualmente que avançaram, mas concordámos uns com os outros sobre o que é sustentável. O mesmo deve ser feito nas próximas horas", defendeu a ministra da Defesa. "Tem de haver uma reação", disse.

"As imagens que nos chegam de Bucha são insuportáveis. Nas ruas, centenas de civis assassinados cobardemente. As autoridades russas terão de responder por esses crimes." Emmanuel Macron

Outros ministros alemães também reagiram, bem como o chanceler, que, tal como o presidente do Conselho Europeu Charles Michel, prometeu mais sanções. "Putin e os seus apoiantes vão sentir as consequências" pelas "atrocidades" cometidas, declarou Olaf Scholz, que assegurou que o seu país vai continuar a disponibilizar armas à Ucrânia. No entanto, ficou a saber-se pelo Die Welt que Lambrecht havia declinado, dias antes, o envio de cem tanques Marder à Ucrânia, tendo alegado que os veículos estão comprometidos a missões da NATO e que uma decisão dessas teria de passar pela Aliança Atlântica. De Londres vem a indicação de que Boris Johnson quererá enviar mísseis antinavio, num momento em que Odessa se junta às cidades portuárias de Mykolaiv e Mariupol como alvo de mísseis enviados do mar Negro.

"Não podemos deixar de ver estas imagens como um murro no estômago. Não podemos ficar entorpecidos com isto. Não podemos normalizar isto." Antony Blinken

É neste ambiente que os negociadores russos e ucranianos voltam a reunir-se nesta segunda-feira, desta vez em videoconferência, com o negociador chefe russo, Vladimir Medinsky a dizer que "o projeto de acordo não está pronto para ser submetido numa reunião cimeira".

4,2 milhões saem, meio milhão entra

Um dia depois de os serviços de fronteiras da Ucrânia terem reportado a entrada de 620 mil ucranianos no país desde o início da invasão, em 24 de fevereiro, o Ministério do Interior corrigiu o número em baixa, para 537 mil, 88 mil dos quais na última semana. Em sentido contrário, a agência das Nações Unidas para os refugiados conta 4.176.401 ucranianos que atravessaram a fronteira. Além dos ucranianos, a Organização Internacional para as Migrações informa que mais de 205 mil estudantes estrangeiros e imigrantes abandonaram o país. Estima-se que 6,48 milhões de pessoas foram deslocadas internamente na Ucrânia. Contas feitas, o número total de pessoas deslocadas pelo conflito supera e muito 10 milhões, ou seja, mais de um quarto da população do país.

cesar.avo@dn.pt

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