Que cessar-fogo de quatro dias é este que vigora entre o governo de transição de Damasco e as Forças Democráticas Sírias?É a segunda tentativa em poucos dias de parar as hostilidades entre o reformado exército sírio e a milícia que combateu o Estado Islâmico, agora reduzida ao seu elemento maioritário, os curdos. A presidência síria anunciou que as suas forças não iriam entrar em Kobane nem em Hassaka, os principais redutos curdos que restam na Síria, e que as autoridades curdas tinham quatro dias, a contar a partir de terça-feira à noite, para apresentar um plano sobre a “integração pacífica” das cidades. As forças curdas comprometeram-se a respeitar o cessar-fogo.Por que é que se chegou ao confronto entre as duas forças?De forma muito resumida, porque os seus interesses são opostos. O homem que derrubou Bashar al-Assad, Ahmed al-Sharaa, tem como objetivo exercer controlo sobre a totalidade do território, tal como o ditador alauita antes da guerra civil ter eclodido em 2011. Os curdos, que estiveram na primeira linha do combate ao Estado Islâmico (EI), aproveitaram para tomar território antes controlado pelos extremistas. Com as forças de Assad a lutar pela sobrevivência essencialmente na faixa costeira, a derrota dos extremistas do EI e o apoio aéreo da coligação antiterrorista liderada pelos Estados Unidos, os curdos chegaram a administrar cerca de um terço do país, inclusive cidades de maioria árabe como Raqqa. O seu objetivo declarado era o de uma Síria federal, onde o norte e nordeste do país formassem um território autónomo curdo. Não houve diálogo entre as partes?Sharaa, que assumiu o poder em dezembro de 2024, manteve conversações com o líder das FDS, Mazloum Abdi. Em março, pressionados pelos Estados Unidos, ambos assinaram um acordo que previa, até ao final de 2025, a integração no Estado central de todas as estruturas administrativas e de segurança controlados pelos curdos. Em troca, o presidente sírio, antigo líder do grupo islamista Hayat Tahrir al-Sham, que manteve ligações à Al-Qaeda e foi apoiado pelo presidente turco Recep Tayyip Erdogan, garantiu os direitos de cidadania aos curdos. Entretanto, os confrontos registados desde o final de fevereiro entre as tropas do regime e a minoria druza, em Suwayda, no sul do país, prosseguiram, expondo a brutalidade das forças de Damasco e o seu desrespeito pelas minorias étnicas. Acrescente-se a nomeação para figuras de topo das forças armadas de dois homens - Mohammad al-Jasem e Sayf Boulad - que estavam sob sanções dos Estados Unidos por crimes contra os curdos.Como é que os curdos reagiram?Desconhece-se até que ponto esses acontecimentos influenciaram os trabalhos da conferência dos partidos curdos sírios no final de abril. Mas o certo é que se registou uma inflexão. Abdi rejeitou divisionismo ou separatismo, mas defendeu a construção de “uma Síria democrática e descentralizada que inclua todos”, assente numa nova constituição que garanta direitos políticos inclusivos. O oposto da lei fundamental ao serviço de Sharaa, baseada num Estado unitário e centralizado. Este fez saber da sua rejeição através de um comunicado, mas sobretudo com uma posição de força: ignorou o acordo que tinha com as FDS e no dia seguinte tomou à força a barragem de Tishrin, 90 quilómetros a leste de Alepo. O que mudou na correlação de forças?O papel dos Estados Unidos e, alegadamente, de Israel (que, em julho, bombardeou vários edifícios militares e governamentais de Damasco como aviso em relação aos ataques aos drusos). Em novembro, Trump recebeu o antigo jihadista na Casa Branca e este comprometeu-se a lutar contra os movimentos terroristas, e em particular, juntou o seu país à coligação de luta contra o Estado Islâmico. Segundo a Reuters, os acontecimentos precipitaram-se a partir de 4 de janeiro, quando uma reunião em Damasco entre responsáveis sírios e as FDS sobre o processo de integração foi interrompida por um ministro sírio. No dia seguinte, uma delegação síria viajou para Paris, onde manteve negociações com Israel, mediadas pelos EUA, sobre um pacto de segurança. Os sírios pediram aos israelitas para estes deixarem de encorajar os curdos a adiar a integração e sugeriram uma operação militar para recapturar algum território nas mãos das FDS, ao que não terão encontrado objeções. Os confrontos começaram em Alepo e prosseguiram a uma escala e a um ritmo que surpreendeu tudo e todos, com a retirada curda em grande escala para a região nordeste, deixando para trás localidades e recursos estratégicos como aeroportos, barragens, campos de exploração de petróleo e áreas de cultivo de trigo.Os curdos voltaram ao diálogo?Não tiveram escolha, como disse o próprio líder, Abdi. No fim de semana, Sharaa promulgou um decreto a formalizar os direitos dos curdos na Síria, elevando a língua curda a oficial, a par da árabe. E anunciou novo acordo de cessar-fogo com Abdi. O pacto abrange a governação civil, as passagens fronteiriças, a integração das forças de segurança, agora ao nível individual e não em brigadas, e a transferência do controlo sobre as prisões e campos de detenção relacionados com o EI. Mas logo nas horas seguintes, o acordo foi violado. Na terça-feira, novo acordo de cessar-fogo foi anunciado, a par de relatos de alguns confrontos. Em paralelo, o enviado dos Estados Unidos para a Síria, Tom Barrack, declarou o fim do que foi uma coligação de milícias liderada pelas Unidades de Defesa Popular (YPG, que a Turquia acusa de ser um satélite do ilegalizado PKK). “A missão inicial das FDS enquanto principal força anti-EI no terreno terminou em grande parte, uma vez que Damasco está agora pronta para assumir a responsabilidade pela segurança, nomeadamente para controlar os centros de detenção do EI”, escreveu no X.. O que aconteceu às prisões que estavam sob controlo das FDS?Na terça-feira, as autoridades sírias assumiram o controlo de algumas prisões onde estavam detidos membros do EI, bem como tomou conta do campo de al-Hol. Neste último estão cerca de 24 mil sírios e iraquianos detidos, bem como 6500 mulheres e crianças dos jihadistas. Os guardas curdos, temendo o ataque das populações locais e das forças sírias, abandonou as prisões. Da prisão de al-Shadadi escaparam-se 120 membros do Estado Islâmico. Horas depois, Damasco disse ter capturado 81 e acusou as FDS de os ter libertado. Já os curdos disseram estar sob ataque de fações ligadas ao governo. Qual foi a reação dos EUA?Os militares norte-americanos, que reduziram a sua presença na Síria a uma única base, comunicaram através do Comando Central o início de uma missão de transferência de prisioneiros do EI para o Iraque. Segundo a declaração, 150 detidos já foram levados para o país vizinho, prevendo-se que até 7 mil o sejam igualmente. Qual é o ponto da situação do ponto de vista militar?As forças sírias chegaram às portas de Qamishli e Hassaka, cidades de maioria curda, entre autocarros a transportar soldados e carros de combate. Mas também há relatos de centenas de curdos saídos do Iraque para ajudar a proteger os irmãos sírios do Estado Islâmico - é assim, ou antes, pelo acrónimo árabe Daesh que os curdos se referem às forças de Damasco, segundo uma reportagem do Le Monde. As tensões estão à vista. À Al-Arabiya, um funcionário curdo disse estarem em contacto com Israel, dando a indicação de que veriam com bons olhos ajuda militar israelita. Os curdos ficaram sozinhos?Mais uma vez. Na década de 1970, em conspiração com o xá do Irão, o secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger financiou os curdos iraquianos para se rebelarem contra Saddam Hussein. Mas soube-se mais tarde que o objetivo era apenas o de levar a instabiidade ao Iraque. Os EUA acabaram por cortar o apoio, o que se saldou em milhares de mortos e 200 mil refugiados. Em 1991, o presidente George Bush fez uma declaração que os curdos e os xiitas iraquianos interpretaram como um sinal de que haveria apoio dos EUA a uma revolta contra Saddam, um dia depois da entrada em vigor do acordo de cessar-fogo da Operação Tempestade no Deserto. O exército iraquiano tinha sido derrotado pelas forças aliadas, mas sem intervenção dos EUA ainda assim conseguiu reprimir a revolta curda. Por fim, em 2019, depois de uma conversa com Erdogan, Donald Trump decidiu retirar as suas forças do nordeste da Síria. Pouco depois, as tropas turcas, com apoio aéreo, invadiram a região e infligiram um duro golpe às forças que perderam 11 mil homens e mulheres a lutar contra o EI.