Confrontos entre o exército sírio e as Forças Democráticas Sírias (FDS), a milícia constituída na sua maioria por curdos, marcaram as primeiras horas após um acordo de cessar-fogo anunciado no domingo pelo presidente Ahmed al-Sharaa, com o comandante das FDS Mazloum Abdi. O acordo, que implica a retirada dos curdos para a região mais a nordeste do país representa uma derrota em todos os níveis para o projeto de autonomia dos curdos, tendo o comandante reconhecido que cedeu para que o conflito não degenerasse.O exército sírio disse que três soldados foram mortos em dois ataques por “grupos terroristas” na região nordeste — aquela para onde as forças curdas se retiraram. As autoridades sírias alegaram que membros do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), assim como elementos “remanescentes do antigo regime” de Bashar al-Assad, estavam “a tentar perturbar a aplicação do acordo de cessar-fogo”.Em sentido inverso, as FDS acusaram as forças governamentais de continuarem a atacar as suas forças nas áreas de Ain Issa, Shaddadi e Raqqa.A minoria curda (estimada em dois milhões entre 20 milhões de habitantes) assumiu o controlo de territórios no norte e nordeste da Síria durante a guerra civil, incluindo campos de petróleo e de gás. Mas Sharaa, que disse ter como objetivo exercer a soberania na totalidade do território, com o apoio da Turquia de Recep Tayyip Erdogan, terá perdido a paciência nas últimas semanas depois de o acordo assinado em março com Abdi, que previa a fusão das FDS no exército sírio até ao fim do ano, não ter sido concretizado. Primeiro, com combates em bairros de Alepo, depois Al-Takba, e no domingo Raqqa, a cidade que foi a “capital do califado” do Estado Islâmico. “Esta guerra foi planeada por várias forças. Fomos obrigados a entrar em guerra”, disse Abdi numa mensagem em vídeo na qual se pronunciou sobre o cessar-fogo e o acordo de integração de 14 pontos. Explicou que as forças curdas se reuniram várias vezes nas últimas semanas com o poder central para evitar este desfecho. “Para que esta guerra não se transformasse numa guerra civil — que era o plano — e para evitar mais mortes e perdas de civis sem sentido — o desfecho da guerra também era incerto — foi alcançado um acordo para transferir as forças de Deir Ezzor e Raqqa para a região de Hasakah”, disse. O acordo de 14 pontos publicado pela presidência prevê a integração das FDS e das forças de segurança curdas nos ministérios da Defesa e do Interior do país, bem como a entrega imediata ao governo das províncias sob controlo curdo. Damasco assume a luta contra o Estado Islâmico, assim como a guarda dos prisioneiros e das suas famílias detidas em prisões e campos controlados pelos curdos. .Burhan Sönmez: “Cerca de 40 milhões de curdos lutam e são oprimidos há 100 anos”