Os tempos estão a mudar no Reino Unido, ou como afirmou Daniela Relph, correspondente real sénior da BBC, “é extremamente surpreendente ouvir um membro da Família Real ser discutido desta forma na Câmara dos Comuns. Parlamentares a partilharem as suas experiências com Andrew Mountbatten-Windsor, sem se conterem na linguagem e na descrição do mesmo.”Este comentário foi feito no decorrer do debate desta terça-feira, 24 de fevereiro, no Parlamento britânico a uma moção apresentada pelos Liberais Democratas a pedir a divulgação de documentos relativos à nomeação de Andrew Mountbatten-Windsor como enviado comercial do Reino Unido em 2001 - o antigo príncipe ocupou o cargo até 2011, tendo saído por causa das críticas à sua amizade com Jeffrey Epstein. Na última quinta-feira, o irmão do rei foi detido por suspeita de má conduta em cargo público, precisamente por informações que terá passado neste período ao criminoso sexual norte-americano. Era ainda pedido pelos Lib Dem, entre outras coisas, toda a correspondência relacionada com “aconselhamento de, ou fornecido a” Peter Mandelson “sobre a aptidão de Mountbatten-Windsor para o cargo” - há relatos de que o ex-ministro trabalhista, caído em desgraça pela sua amizade com Epstein, pressionou pela nomeação de Andrew quando, na altura, surgiram preocupações sobre se tinha o perfil adequado para a função.Face à unanimidade demonstrada no período de debate, a moção foi aprovada sem a necessidade de votação. Isto significa que o governo de Keir Starmer é agora obrigado a cumprir o que está estabelecido no seu texto. Esta unanimidade começou pelo próprio governo, que antes do debate já tinha avisado que não iria bloquear a moção. Falando no Parlamento, o secretário de Estado do Comércio, Chris Bryant, descreveu Andrew Mountbatten-Windsor como “um homem rude, arrogante e prepotente que não conseguia distinguir entre o interesse público, que dizia servir, e os seus próprios interesses privados”.Bryant lembrou ainda que pediu a demissão do antigo príncipe do cargo de enviado especial por várias vezes em 2011, em grande parte devido à sua relação com Epstein, mas o então primeiro-ministro, o conservador David Cameron, e “muitos outros no governo” defenderam Andrew “repetidamente”. O governante prosseguiu dizendo que algumas pessoas afirmam agora, falando sobre Mountbatten-Windsor, “se ao menos soubéssemos naquela altura o que sabemos agora”, numa referência a Ed Davey, o líder do Lib Dem. “Mas receio que, para mim, isso não cola. Na verdade, tivemos bastante tempo para nos prepararmos para o pior”.Davey, ministro durante o governo de Cameron, classificou como “excelente” o trabalho do então príncipe como enviado especial para o Comércio num debate no Parlamento em 2011, referindo ainda que “muitos dos que trabalharam com o duque [de York] constataram que é uma verdadeira mais-valia para o nosso país no apoio às empresas do Reino Unido”.Esta terça-feira, o liberal democrata foi confrontado com este discurso, dizendo que “gostaria de pedir desculpa a todas as vítimas de Epstein que possam ter lido estas palavras e se tenham sentido perturbadas por elas. Lamento profundamente tê-las dito”.Antes da aprovação da moção, Chris Bryant disse aos deputados que o governo irá acatar esta decisão “o mais rapidamente possível e dentro da lei”, acrescentando que a libertação dos documentos poderá ser condicionada pela investigação policial em curso contra Mountbatten-Windsor. Remoção da linha de sucessãoO secretário de Estado do Comércio aproveitou o debate desta terça-feira no Parlamento para revelar que o governo estava a trabalhar “a todo o vapor” numa legislação para remover Mountbatten-Windsor da linha de sucessão, atualmente é o oitavo. “Pretendemos apresentar a legislação assim que possível. Não me posso comprometer com uma data específica, mas lembro-me que Julie Andrews, em A Música no Coração, cantava: ‘Tenho confiança de que a primavera voltará‘. E, por isso, tenho confiança de que a lei da sucessão será aprovada rapidamente”. Esta legislação precisa do apoio dos países da Commonwealth que têm o Carlos III como chefe de Estado, uma vez que também afetará as suas linhas de sucessão. Austrália e Nova Zelândia já anunciaram o seu apoio. .Mountbatten-Windsor acusado de cobrar aos contribuintes pelos serviços de massagem quando era enviado especial.Caso Epstein. Mandelson libertado sob fiança após ser detido por suspeita de má conduta em cargo público