Exclusivo "Cabo Verde não tem uma dívida para comigo, não tem de me dar um "prémio", eu é que tenho de retribuir ao meu país"

Entrevista com Carlos Veiga, o campeão da abertura de Cabo Verde ao multipartidarismo, em 1991, antigo primeiro-ministro, que falhou depois a presidência por 12 votos e desistiu de contestar os resultados em nome da estabilidade. Candidato às presidenciais de outubro pelo MPD, quer contrariar a opção estatizante do PAICV e reforçar a democracia que ajudou a construir. Acredita na lusofonia e é otimista sobre o futuro de África.

A vitória confortável do MPD, o partido que ajudou a fundar, nas recentes legislativas cabo-verdianas faz de si, automaticamente, um claro favorito nas presidenciais?
Eu acho que a vitória do MPD é boa para a minha candidatura. Os votantes do MPD acabam naturalmente por fazer a ligação com a circunstância de eu ter sido dirigente do partido. Há, portanto, um entusiasmo maior para que se complete este ciclo, mas eu diria que, aparte esse aspeto, há sempre uma luta que vai exigir muito trabalho, muita dedicação, muita explicação e muita proximidade aos cabo-verdianos em geral.

Se tivesse de explicar o que é que o distingue politicamente de José Maria Neves, candidato do PAICV, diria que não é só a diferença dos partidos de origem, que também há óbvias diferenças pessoais entre si e o seu adversário, que, tal como o senhor, foi primeiro-ministro? E quais seriam?
Penso que divergimos em alguns aspetos de fundo. Poderia dizer que isso acontece num conjunto de ideias-chave que marcaram sempre os partidos de que fizemos parte. Tendo sido líderes desses partidos, de alguma forma as nossas ideias também influenciaram as ideias do partido. Sou uma pessoa que apostou e quis sempre que Cabo Verde fosse uma democracia e tenho fé na consolidação dessa democracia. Acredito que é preciso que os cabo-verdianos trabalhem muito em conjunto para que o país avance; acredito no setor privado e que a economia de Cabo Verde só se desenvolverá mesmo quando for puxada pelo setor privado. Portanto, acredito que isso acontece quando há uma abertura do Estado para ser mais parceiro do que interveniente direto. Acredito fortemente numa democracia que seja cada vez mais aprimorada, no sentido de que há lugar para todos em Cabo Verde, por isso não propugno uma crispação política entre os partidos, não propugno as ideias de terra queimada para que se comece de novo. Acredito que há um conjunto de valores e um conjunto de questões em Cabo Verde que merecem um consenso. A minha visão é mais de juntar as pessoas para trabalharmos para o bem comum de Cabo Verde do que estar a dividir pelo partido A e partido B. Acho que há uma excessiva partidarização em Cabo Verde e penso que eu estaria em melhores condições de contribuir para que essa excessiva partidarização amainasse, para que as pessoas pudessem juntar-se à mesa e, em diálogo, fazer avançar o país.

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