Manifestantes têm saído às ruas em Israel para pedir a demissão de Netanyahu.
Manifestantes têm saído às ruas em Israel para pedir a demissão de Netanyahu.EPA/ABIR SULTAN

Bye-bye, Bibi. Acabou o jogo para Netanyahu, o Houdini da política israelita?

Com as famílias dos reféns a juntarem-se a milhares nas manifestantes nas ruas para exigir a sua demissão, a sua gestão da guerra em Gaza pode ser o fim para o primeiro-ministro.
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Benjamin Netanyahu, o Houdini da política israelita e o primeiro-ministro que mais tempo esteve no poder no país, já foi por várias vezes dado como acabado.

Mas com as famílias dos reféns e milhares de manifestantes nas ruas a exigir a sua demissão devido à forma como tem gerido a guerra em Gaza, muitos analistas se interrogam quanto mais tempo é que o veterano escapologista da política pode sobreviver. 

O geralmente otimista Netanyahu, de 74 anos, surge fragilizado, tanto física como politicamente. A guerra em Gaza está a afetar o homem a que os israelitas chamam Bibi. 

Visivelmente pálido e frágil, Netanyahu ficou mal-humorado durante um discurso na televisão há uma semana, que o seu ex-ministro e colega do partido no Likud, Limor Livnat, considerou “catastrófico”. E o primeiro-ministro surgiu ainda mais magro ao deixar o hospital em Jerusalém na passada terça-feira após ser operado a uma hérnia, tendo então de enfrentar a fúria da comunidade internacional depois de um bombardeamento israelita ter matado sete trabalhadores humanitários que distribuíam alimentos em Gaza. 

“Estas coisas acontecem nas guerras”, afirmou Netanyahu com uma falta de tato que não terá sido bem recebida na Casa Branca, que se declarou “de coração partido” com estas mortes. 

Considerado culpado pelo “desastre” do 7 de Outubro

“Netanyahu foi enterrado politicamente várias vezes antes e voltou sempre”, explicou à AFP Emmanuel Navon, antigo membro do Likud e professor de Ciência Política. “Mas desta vez é diferente”, afirmou. A sua permanência no poder durante três décadas baseava-se na sua afirmação de que só ele conseguia manter o país seguro. O 7 de Outubro destruiu esta perceção. “Para Bibi acabou”, garantiu. “Ele tem 74 anos, não faz exercício, tem um trabalho muito difícil e teve de pôr um pacemaker há seis meses”. 

Mas Navon duvida que Netanyahu seja forçado a sair pelos manifestantes que noites a fio têm saído à rua para pedir a sua demissão.

Muitas das famílias dos reféns juntaram-se desde 7 de outubro aos protestos anti-governo que durante nove meses no ano passado levaram milhares às ruas para tentar travar uma controversa reforma da justiça apresentada pelos aliados de extrema-direita de Netanyahu. 

O “desastre” do 7 de outubro teria derrubado qualquer outro político. Mas Navon compara o domínio de Netanyahu sobre o Likud ao que Donald Trump tem sobre o Partido Republicano nos EUA. “Os deputados do Likud estão mortos de medo de serem penalizados nas próximas primárias pelo ‘Trio’ - Bibi, a mulher e o filho - que são quem decide tudo”, explica o professor na Universidade de Telavive. 

Dividir e reinar

“Não acredito que ele seja substituído” de dentro do Likud, “pelo menos para já”, concorda Gideon Harat, cientista político na Universidade Hebraica de Jerusalém. “Para haver eleições antecipadas tem de haver um governo alternativo e não acredito que vá acontecer”.

No entanto, com a sua coligação a ir de crise em crise, os inimigos parecem cercar o líder do governo mais à direita que Israel alguma vez teve. Os procuradores estão a avançar com um processo por corrupção e manifestantes tentaram passar pelas barreiras da polícia para chegar à sua casa na terça-feira à noite, pela segunda vez em quatro dias. 

E até o seu ministro da Defesa, o homem forte do Likud Yoav Gallat, o desafiou em relação à delicada questão de os judeus ultraortodoxos escaparem ao serviço militar obrigatório, sobretudo com a guerra em Gaza a prolongar-se e perante a ameaça de um outro conflito com o Hezbollah, o grupo xiita libanês apoiado pelo Irão.

Netanyahu dependeu durante muito tempo do apoio dos partidos religiosos para governar. “Dispensar uma comunidade inteira quando as forças armadas precisam tanto de soldados é imperdoável”, disse à AFP o general Reuven Benkler, num protesto anti-governo esta semana. Aos 65 anos, Benkler saiu da reserva para servir no norte depois do ataque do Hamas que resultou na morte de 1160 israelitas, na maioria civis, segundo os dados da AFP baseados no balanço oficial de Israel. 

A campanha de retaliação israelita já custou a vida a 33.137 pessoas, na maioria mulheres e crianças, segundo o Ministério da Saúde de Gaza controlado pelo Hamas. 

Benkler acredita que “os reféns não vão voltar para casa enquanto Bibi continuar no poder” e acusa Netanyahu de arrastar a guerra em Gaza para prolongar a sua estada no poder - uma acusação repetida em todos os protestos. 

É verdade que “enquanto a guerra continuar Netanyahu pode dizer que não pode haver eleições”, admite Harat. “Ele está sempre à procura de desculpas para continuar como primeiro-ministro - e agora tem uma”. 

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