A diversidade de tendências no Partido Trabalhista tanto pode ser uma vantagem em relação aos outros como pode enfraquecê-lo ao ponto de se tornar irrelevante. O novo líder — e primeiro-ministro desde esta segunda-feira — está ciente disso, ou pelo menos assim aparentou, no discurso em que prometeu uma guinada à esquerda e uma oposição feroz ao neoliberalismo reinante desde o governo de Margaret Thatcher. “Não vamos conseguir vencer a nova direita britânica se nos deixarmos consumir por brigas internas e cada um puxar para um lado diferente”, advertiu no discurso de entronização Andy Burnham, na sexta-feira.O que une Jeremy Corbyn a Tony Blair? Ambos são britânicos e foram líderes do Labour. De resto, as divergências eram tão grandes que o primeiro, investigado por antissemitismo, acabou por se desvincular, tendo fundado o Your Party com outra figura da esquerda radical do partido, Zarah Sultana. Essa fação ficou esvaziada, mas há outras em permanente luta. “Vou trabalhar incansavelmente para criar uma cultura de uma única equipa no Labour, porque a mudança começa connosco”, afirmou Burnham. O seu antecessor, Keir Starmer, bem se pode queixar da cultura de trincheira no interior do partido — a começar pelo próprio Burnham. Segundo admitiu uma sua próxima, a deputada Louise Haigh, em entrevista à BBC, o homem que hoje forma governo e entra no número 10 de Downing Street estava a “planear para este momento pelo menos no último ano”. .As lições do gato Larry após seis primeiros-ministros.A fação de onde provém Burnham é considerada a maior no partido, a chamada esquerda moderada (soft left), entre a esquerda radical (hard left) e os centristas. Tem uma organização formal no Parlamento, Tribune Group. Os centristas tiveram em Keir Starmer a sua maior figura depois do New Labour de Tony Blair e de Gordon Brown. Por fim, e sem elencar todas as fações, registe-se aquela situada mais à direita. É chamada de Blue Labour e o seu conservadorismo social é resumido na frase “fé, bandeira e família”, com ressonâncias de regimes ditatoriais. Claro que não é nada disso que os militantes desta fação desejam, antes que as prioridades sejam os problemas das classes trabalhadoras, a imigração e os valores da família. O nome mais sonante deste grupo é Shabana Mahmood, até agora ministra do Interior. A sua reforma sobre imigração e asilo, inspirada na que foi aplicada na Dinamarca por um governo social-democrata, foi aprovada pela Câmara dos Comuns na semana passada. Ao tornar mais restritivos e temporários os apoios e incentivos aos migrantes e requerentes de asilo, Mahmood quer que o país retome o controlo sobre os fluxos migratórios, e em consequência esvazie a principal bandeira do Reform UK, de Nigel Farage. Prova de que Burnham vai ter muito que fazer para unificar o partido é que 80 deputados pediram-lhe para rever esta legislação — a qual obteve o seu aval. As ausências de figuras de proa do Labour no discurso de Burnham são outro indicador do tribalismo. Se Keir Starmer tinha um álibi — de regresso de Kiev —, o mesmo não se dirá de outros antigos dirigentes como Blair, Brown ou Ed Miliband. Os únicos antigos líderes vivos presentes na ocasião, Neil Kinnock e Margaret Beckett, receberam rasgados elogios do antigo mayor da área metropolitana de Manchester. Antecessor de Blair, Kinnock foi crítico do centrismo no New Labour. O novo primeiro-ministro lembrou que a “lenda” Kinnock foi quem o motivou para se filiar no Partido Trabalhista. Também presente, David Blunkett, ex-ministro do Interior de quem Burnham foi secretário, recebeu uma homenagem. Refira-se ainda que o novo primeiro-ministro já se mostrou contra a disciplina partidária na Câmara dos Comuns e, em consequência, pretende reformar a figura do chief whip (chefe da disciplina parlamentar). O primeiro teste à unidade e à pacificação do partido fundado em 1900 acontece já com a configuração do renovado executivo. Há muito que as diferentes sensibilidades lutam para assegurar lugares-chave, dos já referidos Mahmood e Miliband, mas também com o regresso da ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner e do ex-ministro da Saúde Wes Streeting (dois pretendentes à liderança). E com muita especulação, incluindo sobre o possível retorno de John Healey — a sua demissão da pasta da Defesa foi considerado por muitos o fim de linha de Starmer —, mas também de David Miliband, afastado da política desde 2010 depois de ter perdido a liderança do partido para o irmão Ed. CompromissosAlém do objetivo de unir o partido, Burnham elencou outros quatro compromissos. Um deles é “construir uma nova política” que corrija o discurso para que este seja mais elevado e menos confrontacional, por um lado; por outro, que chame os outros partidos à resolução de problemas. Como rapidamente foi notado, essa promessa de renovação, além de não ser nova, irá esbarrar na retórica populista de Farage. Outras duas promessas estão ligadas: a de governar para todo o Reino Unido (referindo em particular Irlanda do Norte, Gales e Escócia, tendo os trabalhistas perdido o controlo parlamentar nestes dois últimos) e de redistribuir o poder para o nível local, assegurando um “bom crescimento em todos os códigos postais”. Para lá de ter dito que iria abrir um n.º 10 de Downing Street em Manchester, Burnham não explicitou como é que essa política irá ser posta em prática e em que nível administrativo. Por fim, o mais significativo compromisso: “Vou definir uma direção que seja distintamente trabalhista.” A isto juntou a crítica a “quatro décadas de neoliberalismo que começaram nos anos 80 não foram simpáticas com os lugares que deram forma ao partido”. Uma alfinetada a Thatcher e a John Major, sim, mas também a quem lhes sucedeu, inclusive os correligionários Blair e Brown. Segundo o Financial Times, Burnham quer um ministro para a reindustrialização. Além disso, Burnham quer nacionalizar serviços públicos como as Águas do Tamisa, chamar ao governo uma outra política de habitação e de assistência social. “Se não tivermos controlo público suficiente sobre o custo dos bens essenciais, como poderemos controlar a inflação, os gastos públicos e o resto da economia?”. Para financiar estes investimentos públicos, o novo primeiro-ministro já admitiu recorrer a um imposto sobre a riqueza..Burnham declarado líder do Partido Trabalhista britânico. Promete "devolver a esperança" aos britânicos