Um potencial rival de Andy Burnham já disse que não vai avançar na corrida à liderança do Partido Trabalhista, o outro ainda quer saber qual é a sua “visão” para o Reino Unido antes de tomar uma decisão. Mas o “rei do Norte” já está a planear a sua “coroação” como líder do partido e sucessor de Keir Starmer à frente do governo, tendo previsto fazer o primeiro grande discurso político na próxima semana. Entretanto, já está a começar a desenhar o futuro executivo, com algumas polémicas pelo meio. O braço direito de Starmer, Darren Jones, disse numa entrevista à Sky News que não é candidato à liderança, explicando ter falado com Burnham sobre a sua visão económica do país. Questionado se era porque não tinha os apoios necessários - um candidato precisa de 20% do grupo parlamentar, ou seja, 81 deputados - Jones explicou que não tinha organizado uma campanha como alguns colegas de partido. “Andy Burnham será o próximo primeiro-ministro. E se houvesse uma disputa entre os membros do Partido Trabalhista, ele ganharia. Portanto, a questão para mim é: qual seria o benefício para o país e para o partido de uma disputa pela liderança?”, disse.O outro potencial rival é o ex-secretário de Estado das Forças Armadas, Al Carns, que se demitiu no meio de críticas a Starmer pelo Plano de Investimento na Defesa. Um plano considerado insuficiente para garantir a segurança do país, mas que o primeiro-ministro insiste que vai apresentar antes da cimeira da NATO na Turquia, a 7 e 8 de julho. À GBNews, Carns disse que continuava indeciso sobre avançar, querendo conhecer primeiro a “visão” e direção política de Burnham antes de decidir.Com Jones fora do caminho e Carns à espera (e sem garantias de que consiga os apoios necessários para concorrer), o “rei do Norte” já está a planear a sua “coroação” - apesar de alguns aliados dizerem que gostaria de ter tido mais tempo para se preparar. Se o calendário avançado por Starmer se confirmar, com as candidaturas abertas entre 9 e 16 de julho, Burnham poderá assumir a liderança logo no dia 17, se não tiver rival.O foco vira-se agora para quem poderá fazer parte do seu governo, sabendo-se que há quase dez anos que não é deputado e que há muitas caras novas no Parlamento. Mas ainda antes de olhar para os atuais colegas na Câmara dos Comuns, Burnham já terá escolhido o seu chefe de gabinete. Segundo a imprensa britânica, o cargo será entregue ao antigo ministro do Trabalho e das Pensões de Tony Blair, James Purnell - que se demitiu em 2009, já no governo de Gordon Brown, numa tentativa de fazer cair o primeiro-ministro. Purnell e Burnham partilharam um gabinete nos anos iniciais como deputados.A nível do possível governo, um nome causou polémica: o do atual ministro da Energia e antigo líder do Labour, Ed Miliband. Fala-se que poderá substituir Rachel Reeves na pasta das Finanças, com alguns economistas a temer o impacto de alguém que é visto como potencialmente mais intervencionista e que defende o aumento dos gastos públicos (implicando, provavelmente, mais impostos). A líder do Unite (um dos maiores sindicatos do Reino Unido) disse, numa entrevista ao jornal The Times, que Miliband só está preocupado com a ideia de “zero emissões líquidas”, sem pensar nos empregos ou até na segurança nacional. “Quem não entende que importa onde as coisas são feitas e produzidas não deve ser ministro das Finanças”, afirmou Sharon Graham, que defende uma maior exploração petrolífera e de gás no Mar do Norte, ao largo da Escócia. Um grupo de mais de 40 economistas progressistas já vieram a público pedir-lhe que retire essas declarações. Seja nas Finanças ou não, as apostas são que Miliband fará parte do governo de Burnham. Já a ministra do Interior, Shabana Mahmood, especula-se que possa continuar no cargo, sendo elogiada pelas políticas que levaram à diminuição dos números da imigração. A chefe da diplomacia, Yvette Cooper, também deverá continuar no governo, mas não é certo que fique com essa pasta, e a própria Reeves poderá assumir outro cargo menor. O ex-ministro da Saúde Wes Streeting, o primeiro a demitir-se do governo de Starmer depois do desaire nas eleições locais em maio, é outro que poderá entrar no novo executivo. Ainda para mais depois de ter desistido de ser ele próprio candidato à liderança e declarado o seu apoio a Burnham. A ex-vice-primeira-ministra Angela Rayner, estrela da ala mais à esquerda do partido, também deverá voltar. Isto depois de um inquérito revelar que não houve qualquer ato ilícito quando pagou menos impostos que o que era suposto na compra da sua casa. Uma mudança que Burnham estará a planear é descentralizar o governo, transferindo parte das operações de Downing Street para Manchester. Segundo o Financial Times, esse será um dos anúncios que fará no discurso que dará na próxima semana. O “rei do Norte”, como é conhecido, defende que a centralização do poder político em Londres é uma das razões para a desigualdade regional que existe no país. Starmer será deputadoO primeiro-ministro prepara a sua saída do n.º 10 de Downing Street, mas já avisou que pretende continuar como deputado no Parlamento (como outros antigos chefes de governo antes dele). Evita-se assim uma eleição no seu círculo eleitoral londrino de Holborn e St. Pancras, numa altura em que o Labour já tem que lidar com uma ida extraordinárias às urnas para mayor da região de Grande Manchester (o cargo que Burnham ocupava). Mas enquanto não deixa o governo, Starmer tem que continuar a defender o seu legado - e o dos seus ministros. Esta quarta-feira (24 de junho), na primeira sessão semanal de perguntas ao primeiro-ministro no Parlamento após anunciar a sua demissão, não foi o único a ficar debaixo do fogo da líder da oposição, Kemi Badenoch. A conservadora atacou a ministra das Finanças, Rachel Reeves, criticando-a por não ter encontrado dinheiro para o Plano de Investimento em Defesa (que Starmer diz que ainda vai apresentar antes de deixar Downing Street). Mas também o titular da pasta da Energia, Ed Miliband, que disse estar a “matar a Indústria” e acusou de abandonar Starmer e “meter-se na cama” com Burnham, questionando se esta “traição” deve ser “recompensada” com um novo cargo.“Sejamos honestos: o primeiro-ministro cometeu muitos erros, caso contrário não estaria de saída, mas também o deixaram ficar mal”, disse Badenoch.“Foi traído pelos deputados da bancada que não percebem que governar implica fazer escolhas difíceis. Fez marcha‑atrás vezes sem conta para os apaziguar, e agora eles abandonaram-no. E porquê? Por um par de pestanas e uma T-shirt preta”, acrescentou, referindo-se a Burnham e ao seu estilo mais informal. “Não é verdade que, seja quem for o líder, o verdadeiro problema é o Labour?”, questionou, sendo chamada a atenção pelo líder do Parlamento pelo estilo de linguagem.“O desafio para qualquer primeiro-ministro é entregar o país em melhor estado do que o encontrou. Sei que o posso fazer, o que não se pode dizer do seu antecessor, da antecessora do seu antecessor e do antecessor da antecessora do seu antecessor!”, respondeu Starmer, defendendo o seu legado e o dos seus ministros.