Uma aliança, ou pelo menos uma união de vontades, entre Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro, levou apoiantes do atual governador de São Paulo, ainda considerado o mais competitivo candidato de direita contra Lula da Silva nas eleições de outubro, a trabalharem nos bastidores nos últimos dias por uma candidatura dele a presidente e da ex-primeira-dama a vice. Por ora, é o senador Flávio Bolsonaro, indicado pelo pai, Jair Bolsonaro, o pré-candidato declarado desse campo.Foi a transferência do ex-presidente, que cumpre pena de 26 anos de prisão por golpe de Estado e outros crimes, da sede da Polícia Federal para uma cela considerada muito mais confortável do que a anterior, no batalhão da polícia militar do Distrito Federal, conhecido como Papudinha, que uniu Tarcísio e Michelle. O governador paulista, do Republicanos, e a líder da ala feminina do Partido Liberal, formação onde milita toda a família Bolsonaro, conseguiram convencer o juiz Alexandre de Moraes, que tutela o caso, da justiça dessa transferência. Os dois conversaram ainda com outros membros do Supremo Tribunal Federal nesse sentido, no que foi visto como uma vitória pelos bolsonaristas e um sinal de que, a médio prazo, com diálogo entre a dupla e a corte, Bolsonaro, acometido por uma série de doenças, possa acabar, como deseja, por cumprir a pena em prisão domiciliar, ou seja, na mansão em que vive em Brasília.Essa aliança, até ver com bons resultados, motivou a ala da direita que ainda acredita numa candidatura presidencial de Tarcísio. Essa direita é composta, sobretudo, pelo “centrão”, um conjunto de deputados e partidos conservadores não tão radicais como os bolsonaristas de primeira hora, que vê o governador capaz de conquistar o voto dos eleitores mais moderados e indecisos, e pela Faria Lima, o equivalente brasileiro de Wall Street. Com Michelle como vice, o apelido “Bolsonaro” continuaria vivo no ticket presidencial.“Parabéns a Michelle e Tarcísio, souberam articular para tirar Bolsonaro da Polícia Federal para um lugar melhor. Certas vitórias se conquistam por etapas”, disse o televangelista Silas Malafaia, líder da igreja Assembleia de Deus Vitória em Cristo, cujo ascendente sobre Jair e Michelle é conhecido.Em paralelo, Cristiane Freitas, mulher de Tarcísio e atual primeira-dama de São Paulo, publicou nas redes sociais a frase “o Brasil precisa de um novo CEO, o meu marido”. Logo a seguir, Michelle fez “like” na publicação, no que foi lido, politicamente, como um apoio indireto à solução eleitoral Tarcísio-Michelle. Michelle nega: “Foi uma curtida que fiz no comentário de uma amiga pessoal, a esposa do governador Tarcísio, não interpretei como se ela estivesse apontando o seu marido para ser o tal CEO, de que o Brasil precisa mesmo, e que é preferencialmente Jair Bolsonaro”.E Tarcísio também vem desdenhando publicamente da ideia de concorrer ao Planalto, tendo em conta que se pode candidatar este ano a um segundo mandato ao governo de São Paulo, corrida para a qual partiria como claro favorito. Assim, só em 2030 arriscaria a presidência, já sem a concorrência do sempre temido eleitoralmente Lula, pelo campo da esquerda.Para Celso Rocha de Barros, colunista do jornal Folha de S. Paulo, sociólogo e autor do livro PT, uma história, sobre o partido de Lula, “em primeiro lugar, se Tarcísio anda conspirando com Michelle não é para ser candidato ao governo de São Paulo (...) em segundo lugar, Flávio Bolsonaro precisa de lidar com o facto de ser um candidato muito ruim (...) resumindo, a sombra de Tarcísio dificulta a descolagem de Flávio que, de qualquer forma, já é um avião bem vagabundo”.Por outro lado, aliados de Flávio dizem que o senador e primogénito de Bolsonaro não desistirá da candidatura até porque tem desempenho considerado razoável nas sondagens: 26% num cenário contra Lula, que soma 35%, enquanto Tarcísio alcança só mais um ponto, 27%, e ainda vê o atual presidente crescer para 39% num duelo simulado entre ambos. Noutra pesquisa, em que os dois nomes, Flávio e Tarcísio, são testados juntos, o candidato assumido soma 23% e o não assumido meros 9% contra 36% de Lula. “De um lado temos uma carta escrita de próprio punho por Jair Bolsonaro, maior líder da direita, contendo uma missão ao filho mais velho (...) do outro uma ‘forçação de barra’ por grupos de interesse, usando a luta legítima de uma esposa desesperada pelo alívio do marido”, disse o empresário Filipe Sabará, aliado de Flávio, ao jornal Folha de S. Paulo.Para o vereador Carlos Bolsonaro, segundo dos filhos de Jair, irmão mais novo de Flávio e que mantém desavenças públicas com Michelle, é o próprio ex-presidente o alvo das movimentações. “O objetivo jamais foi medir forças com os filhos de Jair Bolsonaro, isso foi sempre a superfície do jogo, o verdadeiro intento, ainda que de forma dissimulada, é medir forças com o próprio Jair Bolsonaro”.Na sequência, Tarcísio cancelou uma visita a Bolsonaro agendada para quinta-feira, oficialmente “para cumprimento de agenda em São Paulo”. Porém, segundo informações da GloboNews citando aliados do governador, “o cansaço por levar rasteiras dos filhos” do ex-presidente” foi o verdadeiro motivo..Brasil. Tem apoio, discurso e até lema mas Tarcísio ainda não é pré-candidato