O Brasil está em crise diplomática com a principal potência mundial, os EUA, e com o principal parceiro da região, a Argentina. Desde a eleição de Donald Trump, em 2024, e de Javier Milei, em 2023, as relações de Lula da Silva, eleito em 2022, com os homólogos norte-americano e argentino nunca foram boas mas a tensão entre Brasília e Washington e entre Brasília e Buenos Aires escalou com ambos, e em simultâneo, no intervalo de dias. “É a semana mais desafiadora não só do terceiro mandato de Lula, como também do século XXI e até talvez dos 200 anos de história independente do país”, resume Vinícius Vieira, professor de Relações Internacionais da Fundação Armando Álvares Penteado, ao DN.Primeiro, os EUA. A 27 de julho, o ministério dos Negócios Estrangeiros do Brasil formalizou um “pedido de consulta” à Organização Mundial do Comércio (OMC), etapa anterior à abertura de um painel, mecanismo de julgamento dentro da organização, contra o “tarifaço” imposto por Trump sobre produtos brasileiros exportados para os EUA.Em nota, o ministério considerou que “as medidas norte-americanas são injustificadas e incompatíveis com obrigações dos EUA” no âmbito de acordos assinados na OMC. A diplomacia brasileira sabe que, dado o esvaziamento da OMC, a medida é meramente “simbólica”, por isso anunciou também que iniciaria "imediatamente" os trâmites para acionar os instrumentos previstos na Lei de Reciprocidade.Simbólica foi também a convocação de regresso a Brasília do embaixador em Buenos Aires, Julio Bitelli, para consultas, o que na linguagem diplomática é reservado para momentos de crise declarada com outro país. Em causa, ataques de Milei a Lula, e não só, durante o lançamento, dia 25, da candidatura de Flávio Bolsonaro à presidência. No evento, o argentino chamou Lula de “presidiário” e referiu-se ao governo brasileiro como "socialistas ladrões". Milei aproveitou ainda para apelidar o juiz Alexandre de Moraes, que sentenciou Jair Bolsonaro à prisão, de “lixo careca”. Em resposta, Dario Durigan, ministro da Economia brasileiro, chamou o presidente argentino de “palhaço” e Guilherme Boulos, secretário-geral da presidência, classificou-o de “caricatura patética” e “puxa-saco do Trump”. Confrontado com as declarações de Milei, o próprio Lula perguntou, primeiro, “quem é esse cara?” e considerou, depois, "uma patacoada", as palavras do homólogo. O episódio foi considerado “sem precedentes” pela imprensa dos dois países. A Argentina é o terceiro maior parceiro comercial do Brasil, atrás apenas de EUA e China, e o Brasil o maior da Argentina.“Essa tensão, guardadas as devidas proporções, remete ao período ainda de grande instabilidade com o principal país vizinho que gerou a guerra no Paraguai”, continua Vieira. “Não quero dizer que estejamos perto de um conflito regional mas a instabilidade com o principal vizinho e com a principal potência fazem com que o Brasil tenha de direcionar esforços para manter um mínimo de autonomia estratégica e a própria soberania”.Sobre as sanções americanas, o professor de Relações Internacionais lembra que “o Brasil é o país mais prejudicado depois da China porque se a China é a potência concorrente dos EUA, o Brasil é o principal resistente à ‘Doutrina Donroe’”, afirma, referindo-se ao termo como como vem sendo apelidada a releitura agressiva de Donald Trump da Doutrina Monroe que estabeleceu um predomínio americano sobre a América Latina.“Acredito, aliás, no não reconhecimento pelos EUA da provável vitória de Lula porque [o secretário-geral] Marco Rubio quer desempenhar o papel de vice-rei da América Latina e o Brasil aparece como uma espécie de aldeia do Asterix a resistir ao invasor”. “É, por isso, um desafio análogo ao do segundo reinado de Dom Pedro II, na década de 1840, quando a maior potência mundial, o Reino Unido, passou a pressionar o Brasil pelo fim do tráfico escravo e o Brasil chegou a romper com Londres”, prossegue Vieira. “Houve, pelo meio, o período do golpe militar, perpetrado pelos EUA, mas foi em alinhamento com setores domésticos, agora o país está muito dividido, o que complica uma resposta consensual do país”.Já Roberto Uebel, professor de Relações Internacionais da Escola Superior de Propaganda e Marketing, relativiza. “Eu acho que a semana mais difícil foi a do anúncio do tarifaço, em 2025, quando o Trump escreveu uma carta alegando que ia aplicar tarifas ao Brasil por causa da perseguição ao Bolsonaro, da questão das big techs e do juiz Alexandre de Moraes, ali houve uma costura diplomática muito forte contra o Brasil e já com o Milei também a atacar”.“Na crise atual sinto que o governo brasileiro conseguiu dosar um pouco os impactos políticos, tem buscado alternativas via Mercosul, via BRICS, via União Europeia e via OMC, embora esta esteja paralisada”.“E se só se fala dos ataques do Milei ao Brasil, ao governo, ao Supremo”, conclui Uebel, “é sinal que ele ofuscou completamente o lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, o que acaba tendo talvez até um reverso positivo para a campanha do Lula”..Flávio Bolsonaro e partido de Lula trocam farpas em dia de novas tarifas dos EUA ao Brasil.Brasil. Desemprego no 2º trimestre é 5,4%, o menor já registrado no período