Borrell quer Rússia a respeitar compromisso sobre cereais e Zaporijia longe de operações militares

Chefe da diplomacia europeia quer que Rússia permita o trânsito pelo Mar Negro para que cereais ucranianos cheguem "a quem deles necessita".

O alto representante da União Europeia para os Relações Externas, Josep Borrell, instou esta sexta-feira a Federação Russa a respeitar os seus compromissos para permitir o trânsito pelo Mar Negro com cereal ucraniano "para que chegue a quem deles necessita".

"A Federação Russa tem usado os alimentos como arma e agravou a fome no mundo. Graças ao Acordo de Istambul, a Ucrânia pode voltar a fornecer cereais. A Federação Russa deve respeitar os seus compromissos para que as exportações da Ucrânia continuem a chegar a quem delas precisa, principalmente em África", escreveu Borrell na sua conta na rede social Twitter.

Em 22 de julho, a Ucrânia e a Federação Russa assinaram em Istambul em acordo para permitir a exportação de cereais ucranianos em plena guerra, provocada pela invasão russa, e facilitar a venda de fertilizantes russos.

O acordo visa facilitar a exportação a partir de três portos ucranianos: Odessa, Pivdennyi e Chornomorsk.

Até agora, já saíram mais de 370 mil toneladas de produtos agrícolas já foram exportadas.

Um navio fez esta sexta-feira o primeiro carregamento de trigo na Ucrânia para ajuda alimentar na Etiópia, a primeira entrega de alimentos à África no âmbito plano mediado pela ONU para desbloquear os cereais retidos naquele país.

Durante meses, os combates e um bloqueio russo fizeram com que os cereais produzidos na Ucrânia, conhecida como o celeiro do mundo, ficassem retidos em silos, fazendo aumentar os preços dos alimentos e levando à fome em África, Médio Oriente e partes da Ásia.

Nos últimos dias, vários navios carregados de cereais deixaram os portos ucranianos no âmbito do novo acordo - só que a maioria dos carregamentos foi de ração para animais e teve como destinos a Turquia ou a Europa Ocidental.

Paralelamente, ​​​​​​​Josep Borrell defendeu esta sexta-feira que a central nuclear ucraniana de Zaporijia, atualmente sob controlo das forças russas, não deve fazer parte de "nenhuma operação militar".

"As instalações de Zaporijia não devem ser usadas como parte de nenhuma operação militar", salientou o alto representante da UE para os Negócios Estrangeiros numa publicação na rede social Twitter.

Borrell manifestou o seu apoio ao "apelo à desmilitarização da área, começando com a retirada total das forças russas".

O diplomata espanhol também pediu que Agência Internacional de Energia Atómica (AIEA) possa visitar a central.

Por fim, Josep Borrell frisou que "a Rússia deve devolver imediatamente o controlo total" da central nuclear "ao legítimo proprietário soberano, a Ucrânia".

Tropas russas controlam atualmente Zaporijia, que tem sido alvo de bombardeamentos esta semana, com Kiev e Moscovo a trocarem acusações sobre a natureza dos recentes incidentes de segurança na central.

Na quinta-feira, a ONU pressionou a Rússia e a Ucrânia a evitar a todo custo um desastre nuclear nesta central ucraniana, a maior da Europa, e a interromper imediatamente todas as atividades militares nas proximidades daquele espaço.

O diretor-geral da AIEA, Rafael Grossi, referiu esta quinta-feira que análises preliminares indicam não haver "ameaça imediata" à segurança nuclear após ataques a Zaporijia, mas alertou que a situação é grave e "pode mudar" rapidamente.

As autoridades ucranianas solicitaram a declaração de uma zona desmilitarizada nas proximidades da central, proposta que também foi apoiada pelos Estados Unidos.

A ofensiva militar lançada a 24 de fevereiro pela Rússia na Ucrânia causou já a fuga de mais de 12 milhões de pessoas de suas casas -- mais de seis milhões de deslocados internos e mais de seis milhões para os países vizinhos -, de acordo com os mais recentes dados da ONU, que classifica esta crise de refugiados como a pior na Europa desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Também segundo as Nações Unidas, cerca de 16 milhões de pessoas necessitam de assistência humanitária na Ucrânia.

A invasão russa -- justificada pelo Presidente russo, Vladimir Putin, com a necessidade de "desnazificar" e desmilitarizar a Ucrânia para segurança da Rússia - foi condenada pela generalidade da comunidade internacional, que está a responder com o envio de armamento para a Ucrânia e a imposição à Rússia de sanções que atingem praticamente todos os setores, da banca à energia e ao desporto.

A ONU confirmou que 5.401 civis morreram e 7.466 ficaram feridos na guerra, que esta sexta-feira entrou no seu 170.º dia, sublinhando que os números reais serão muito superiores e só poderão conhecidos quando houver acesso a zonas cercadas ou sob intensos combates.

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