Biden em (quase) silêncio e a sombra dos talibãs numa América longe da união

Presidente esteve ontem nas cerimónias em Nova Iorque, no Pentágono e na Pensilvânia, mas não falou. Na véspera, numa mensagem em vídeo, apelara à união. Uma ideia de que o antigo presidente Bush fez eco num discurso emocionado.

Amamos-te e sentimos a tua falta", repetiram, com ligeiras variações, quase todos os familiares das perto de três mil vítimas dos atentados de 11 de Setembro que leram em voz alta os seus nomes no Memorial do Ground Zero em Nova Iorque. Uma cerimónia que se repetiu escrupulosamente ao longo dos últimos 20 anos desde que piratas do ar desviaram quatro aviões para realizar os piores atentados em solo americano. Este ano, apesar da data simbólica, não foi diferente, com a emoção a tomar conta dos familiares das vítimas que desfilaram sob o olhar do presidente Joe Biden e de dois ex-inquilinos da Casa Branca, Bill Clinton e Barack Obama.

George W. Bush, o presidente em exercício em 2001 não esteve em Nova Iorque, mas discursou em Shanksville, Pensilvânia, junto ao local onde passageiros e tripulantes conseguiram fazer despenhar o voo 93 da United Airlines antes que os terroristas atingissem o seu alvo: a Casa Branca."Nas semanas e meses que se seguiram aos ataques de 11 de setembro de 2001, fiquei orgulhoso de liderar um povo maravilhoso, resiliente e unido. No que diz respeito à união da América, esses dias parecem agora muito distantes", afirmou.

O presidente que em 2001 viu a América unir-se em resposta ao ataque ao seu coração e o mundo manifestar-lhe solidariedade quase unânime - o Le Monde escreveu o célebre editorial Nous Sommes Tous Américains -, até quando decidiu invadir o Afeganistão para derrubar o regime talibã, que recusava entregar aos americanos o cérebro dos atentados: Osama bin Laden, líder da Al-Qaeda.

"Forças malignas parecem agir no nosso dia-a-dia para que cada desacordo se torne numa discussão e cada discussão se torne num choque de culturas", continuou Bush, denunciando "muita da nossa política tornou-se num apelo direto ao ódio, ao medo e ao ressentimento". Visivelmente emocionado, o ex-presidente admitiu não ter "explicações ou soluções" para esta realidade e recordou como "no dia de dor e luto da América, vi milhões de pessoas a agarrar instintivamente a mão do seu vizinho e a unirem-se por uma causa. Essa é a América que eu conheço".

A verdade é que o 20.º aniversário dos atentados surge num momento de profundas divisões políticas na América, exacerbadas por quatro anos de presidência de Donald Trump. O ex-presidente, que tem contestado os resultados das eleições que ditaram a sua derrota frente a Biden, denunciando fraude política, aproveitou o vigésimo aniversário do 11 de Setembro para criticar a "administração inepta" do seu sucessor pela sua "incompetência" em se retirar do Afeganistão. "Este é um dia muito triste", disse num vídeo o ex-presidente, que não esteve presente em nenhuma das cerimónias oficiais, preferindo comentar um combate de boxe que decorre na Florida para um canal de televisão. E acrescentou que o 11 de Setembro "representa uma grande dor para o país". "É também um momento triste pela forma como a nossa guerra contra aqueles que causaram tantos danos ao nosso país terminou na semana passada", continuou. E acrescentou: "O líder do nosso país pareceu um idiota e isso nunca pode ser permitido."

A retirada dos últimos militares dos EUA do Afeganistão surgiu após uma fulgurante ofensiva dos talibãs que culminou a 15 de agosto com a conquista de Cabul e o seu regresso ao poder. Isto perante a impassibilidade do exército afegão que os EUA andaram a preparar durante duas décadas de uma guerra que custou dois biliões de dólares aos americanos e as vidas de mais de 3500 soldados - quase 2500 deles dos EUA.

Enfraquecido pela sombra do regresso dos talibãs ao poder 20 anos depois e por uma retirada que sempre defendeu - desde os tempos de vice de Obama - mas que fica marcada pelo caos e até manchada de sangue, após um atentado do Estado Islâmico contra o aeroporto de Cabul ter feito perto de 200 mortos, incluindo 13 militares dos EUA, Biden optou por não fazer um discurso oficial neste 11 de setembro. Mas não resistiu a fazer umas declarações aos jornalistas após visitar um quartel de bombeiros em Shanksville mostrou-se confiante na capacidade de os EUA "demonstrarem que as democracias funcionam", voltou a defender a retirada do Afeganistão e desvalorizou a perda de popularidade: "Estou velho. Há muito tempo que faço isto".

Biden esteve ao lado da primeira-dama Jill nas cerimónias em Nova Iorque, na Pensilvânia e no Pentágono. Na véspera, numa mensagem em vídeo de seis minutos, centrou-se na necessidade de unir a América. "Para mim é a principal lição do 11 de Setembro. No momento de maior vulnerabilidade, (...) a união é nossa maior força", afirmou.

Palavras solenes em Guantánamo

O 20.º aniversário do 11 de Setembro coincidiu com o início do julgamento de Khalid Sheikh Mohammed, visto como o estratega dos ataques e detido desde 2006 em Guantánamo. Ontem, sob o céu azul das Caraíbas, familiares das vítimas assistiram a uma cerimónia de hastear da bandeira no pátio da prisão, a poucos metros do local onde Khalid Sheikh Mohammed, o homem que planeou morte dos seus entes queridos, era julgado. "Nestas instalações navais, mais do que em qualquer local do mundo, lembramos esta data todos os dias", afirmou o capitão Samuel White.

Aberta em 2002 para receber suspeitos de terrorismo, muitas vezes detidos sem direito a julgamento, a prisão da base de Guantánamo, em Cuba, chegou a receber 779 prisioneiros. Hoje são 39, cinco dos quais estão agora finalmente a ser julgados - um cenário pelo qual ansiavam os familiares. "Uma coisa que traria paz à minha família era saber que os homens responsáveis por tal dor estão presos em Guantánamo e não causarão mais dor", afirmou Liam Canavan, que não chegou a conhecer o seu tio e padrinho, morto nas Torres.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

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