Biden diz querer evitar "III Guerra Mundial"

Rússia bombardeou alvos mais na zona ocidenal da Ucrânia, até agora poupados aos ataques. Kiev avisa para alegada operação de falsa bandeira russa na Bielorrússia.

Ao 16.º dia da invasão, a Rússia bombardeou ontem duas cidades no oeste da Ucrânia que até agora tinham sido poupadas (Lutsk e Ivano-Frankivsk), aproximando o conflito da fronteira com a Polónia e a NATO. Em Washington, depois de anunciar o reforço das sanções contra Moscovo, o presidente norte-americano, Joe Biden, disse querer "evitar" um confronto direto entre Rússia e Aliança Atlântica, ciente de que isso provocaria "a terceira guerra mundial". O governo ucraniano teme entretanto que a Bielorrússia seja arrastada para uma participação ativa no conflito entre os vizinhos.

A Bielorrússia tem sido ponto de partida de vários ataques russos à Ucrânia - pelo menos 80 dos mais de 800 mísseis russos já disparados terão saído do país -, mas as suas forças têm-se mantido à margem do conflito. "Não temos indicação de que tropas bielorrussas tenham entrado na Ucrânia", disse ontem o porta-voz do Pentágono, John Kirby, aos jornalistas. "Não estamos a ver um envolvimento imediato das forças bielorrussas. Isso não significa que isso não possa acontecer ou não aconteça", acrescentou.

Segundo os ucranianos, a entrada de Minsk na guerra surgiria após um alegado ataque contra território bielorrusso a partir de espaço aéreo ucraniano, com Kiev a falar de uma operação de falsa bandeira russa para forçar o presidente Alexander Lukashenko a atuar.

A Força Aérea da Ucrânia indicou ontem que pelas 14.30 locais um avião russo teria descolado de uma base na Bielorrússia, cruzado a fronteira para a Ucrânia, e depois disparado contra a aldeia de Kopani. Outras duas localidades também terão sido atingidas. "Isto é uma provocação! O objetivo é envolver as Forças Armadas da República da Bielorrússia na guerra com a Ucrânia", indicou o Comando da Força Aérea ucraniano num comunicado, citado pela Reuters. "Os militares ucranianos não planearam e não planeiam empreender qualquer ação agressiva contra a Bielorrússia", indicaram.

De manhã, Lukashenko esteve reunido com o presidente russo, Vladimir Putin, que se congratulou da cooperação que tem existido entre ambos. Os dois líderes têm tido encontros regulares e partilhado informação por telefone. Putin contou a Lukashenko que há "alguns desenvolvimentos positivos" nas negociações com Kiev, sem dar mais pormenores. Negociadores russos e ucranianos já estiveram reunidos em três ocasiões na Bielorrússia, tendo os chefes da diplomacia de ambos os países mantido também um encontro na Turquia.

Nação mais favorecida

Na guerra económica contra Moscovo, Biden anunciou entretanto que a Rússia irá perder o estatuto de "nação mais favorecida", um regime de reciprocidade e não discriminação que rege o comércio mundial entre os países. A perda deste estatuto abre caminho à imposição de novas tarifas comerciais, estando previsto que os países do G7 e da União Europeia sigam o exemplo dos EUA.

Biden anunciou ainda que vai cortar as importações de marisco, vodka e diamantes da Rússia, além de banir a exportação de produtos de luxo (como carros, relógios ou roupa) para o país. A mesma proibição em relação aos produtos de luxo foi anunciada pela presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. "Aqueles que apoiam a máquina de guerra de Putin não devem ser capazes de gozar de um estilo de vida luxuoso enquanto as bombas caem nos inocentes na Ucrânia", indicou.

Os líderes europeus, reunidos nos últimos dois dias numa cimeira em Versalhes, rejeitaram a ideia de uma adesão rápida da Ucrânia à União Europeia. Mas, perante os pedidos do presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, de que Bruxelas deveria "fazer mais" pela Ucrânia, duplicaram o apoio militar enviado a Kiev (são mais 500 milhões de euros) e prometeram mais sanções caso continue a ofensiva.

No seu vídeo diário aos ucranianos, Zelensky já tinha anunciado que mais sanções seriam aprovadas pelos parceiros ocidentais contra Moscovo. "A Rússia deve pagar por esta guerra. Pagar diariamente", disse. No mesmo vídeo, partilhado no Facebook, o presidente admitiu que "é impossível dizer quantos mais dias serão precisos para libertar" a Ucrânia, mas mostrou-se confiante de que isso acontecerá. Zelensky denunciou ainda a presença de "mercenários" e "bandidos" da Síria do lado russo.

Putin confirmou ontem que combatentes sírios podem ser chamados a participar na "operação militar especial" na Ucrânia, dando conta dos eu plano para aceitar a participação de 16 mil voluntários, a maioria dos quais do Médio Oriente. O presidente russo alega que essa decisão surge em resposta ao que diz ser a contratação de "mercenários" estrangeiros por parte de Kiev. Os ucranianos anunciaram esta semana que pelo menos 20 mil voluntários de 52 países já se teriam inscrito para lutarem contra a Rússia.

Armas químicas

O presidente norte-americano avisou ainda que a Rússia pagará "um preço elevado" se usar armas químicas na Ucrânia, numa altura em que Moscovo convocou uma sessão extraordinária do Conselho de Segurança das Nações Unidas para denunciar que Kiev teria 30 laboratórios onde estão, com o apoio de Washington, a ser desenvolvidas armas químicas e biológicas. Segundo o embaixador Vasily Nebenzy, os ucranianos estariam a estudar formas de espalhar doenças através de aves e morcegos e agora querem destruir as provas.

A embaixadora dos EUA na ONU, Linda Thomas-Greenfield, alegou que a Rússia pediu a reunião para "divulgar falsas informações", lembrando que são os russos que têm uma história "bem documentada" de usar armas químicas. Tanto Washington como Kiev negam a acusação de que os ucranianos estão a desenvolver estas armas com o apoio norte-americano. "Este é precisamente o tipo de esforço de falsa bandeira que avisámos que a Rússia poderia começar para justificar um ataque com armas biológicas ou químicas", alertaram os EUA.

Terreno

Ao 16.º dia de guerra, os russos atacaram várias localidades no oeste da Ucrânia, que até agora foi poupado. Dois aeródromos em Lutsk (próximo da fronteira com a Polónia) e Ivano-Frankivsk foram postos "fora de ação", segundo a Rússia. Pelo menos quatro soldados ucranianos terão morrido no ataque em Lutsk e seis ficado feridos. Em Dnipro, no centro, três mísseis destruíram uma fábrica de sapatos, matando um segurança, e outros edifícios civis. No sul, Mykolaiv, importante cidade próximo do porto de Odessa, estava ontem à noite sob ataque.

As autoridades ucranianas acusaram também os russos do rapto do presidente da câmara de Melitopol, cidade que já está nas mãos das forças de Moscovo. Ivan Fedorov terá sido acusado de terrorismo. "O rapto do autarca de Melitopol é classificado como crime de guerra segundo a Convenção de Genebra e o Protocolo Adicional, que proíbe a tomada de reféns civis durante a guerra", segundo um comunicado do Ministério dos Negócios Estrangeiros ucraniano.

Em Mariupol, completamente cercada, os Médicos Sem Fronteiras falam do "desespero" e apelam a ações imediatas para evitar uma "tragédia inimaginável". A cidade está sem água e sem aquecimento e quase sem comida, tendo falhado várias tentativas de evacuação devido à continuação dos bombardeamentos. "Cercos são práticas medievais que foram proibidas pelas regras modernas da guerra por uma boa razão", afirmou Stephen Cornish, um dos responsáveis pela operação da organização na Ucrânia, em declarações à AFP. "Os civis têm que ser protegidos", referiu.

Segundo os russos, Volnovakha, que fica na região de Mariupol, também já está controlada por milícias pró-russas que têm avançado desde as autoproclamadas repúblicas de Donetsk e Lugansk.

susana.f.salvador@dn.pt

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