Áustria enfrenta ações judiciais por surto de covid-19 em estância de Ski

Várias pessoas de 45 países diferentes alegam ter sido infetadas na estância de Ski na vila de Ischgl, Áustria, em 2020. O governo austríaco enfrenta 15 ações judiciais por fazer "muito pouco, muito tarde".

Começa esta sexta-feira o primeiro processo civil Viena por um surto de covid-19 que ocorreu na estância de Ski na vila de Ischgl, em Março de 2020, onde milhares de pessoas de 45 países afirmam ter sido infetadas.

O caso é o primeiro de 15 ações judiciais apresentadas por cidadãos da Áustria e Alemanha, acusando as autoridades de não responderem com a rapidez suficiente aos surtos de Covid-19 em Ischgl e outras estâncias na província de Tirol.

Em causa está o caso de Hannes Schopf, um jornalista de 72 anos que morreu após ter contraído o vírus em Ischgl. O advogado Alexander Klauser, que representa a família Schopf, alega que as falhas oficiais que permitiram que Ischgl e a área circundante se tornassem um foco de contágio eram múltiplas.

Klauser expôs um relatório de outubro de 2020, onde uma comissão independente de peritos constatou que as autoridades locais "reagiram demasiado tarde" e fizeram "erros graves" quando alertados pela Islândia, a 5 de março, de que vários dos seus cidadãos tinham testado positivo no regresso ao país.

As autoridades "tiveram pelo menos 48 horas para reagir" após o aviso, disse Klauser à AFP. O advogado aucusa os oficiais de não impedirem a vinda de mais turistas a Ischgl nesse fim-de-semana, e o governo regional austríaco lançou dúvidas sobre se os turistas islandeses tinham sido de facto infectados em Ischgl.

Alexander Klauser acusou ainda as autoridades locais de fazerem "muito pouco, muito tarde" quando um trabalhador de um restaurante testou positivo para o vírus, uma vez que o rastreamento dos contactos e a implementação de restrições à atividade turística nos dias subsequentes foram "insuficientes".

Quando a vila foi colocada em quarentena, a evacuação da área foi criticada pela forma caótica como foi anunciada e organizada, Klauser continuou, apontando o dedo também ao Chanceler Sebastian Kurz.

Segundo a viúva de Schopf, o jornalista reformado e ávido esquiador contraiu o vírus durante a evacuação de um autocarro, onde viajavam turistas que espirravam e tossiam durante três horas. A família Schopf está agora a processar a República da Áustria e pede 100 mil euros pela sua morte.

"Destruída"

Numa entrevista à AFP no início deste ano, a viúva Sieglinde Schopf, disse que "o seu mundo inteiro se despedaçou em pedaços" após a morte do marido.

"Não me posso perdoar, porque no final de contas, mandei-o para a sua morte", afirma, uma vez que tinha sido a mulher a encorajar Hannes Schopf a fazer umas férias na estância de Ski.

Para além das 15 ações judiciais atuais, outras 30 pessoas apresentaram pedidos de indemnização ao governo austríaco, segundo Klauser.

"O que queremos acima de tudo é que a República da Áustria assuma a responsabilidade, e até agora não tivemos qualquer sinal disso", diz o advogado. "O sofrimento dos que ficaram para trás foi "prolongado" pela recusa oficial de assumir qualquer culpa", conclui.

Das 6 mil pessoas que acreditam ter contraído o vírus em Ischgl, 5% sofrem de sequelas prolongadas pela covid-19, incluindo dores de cabeça, distúrbios do sono e falta de ar, refere a associação VSV. No total, 32 pessoas morreram.

Contactados pela AFP, os representantes do estado austríaco recusaram-se a comentar o acontecimento: "Não comentaremos sobre os procedimentos judiciais ativos". Embora tenham expressando empatia pelas vítimas e os seus familiares, as autoridades negaram que tenham agido com demasiada lentidão ou que mais alguma coisa pudesse ter sido feita na altura.

Cinco pessoas, incluindo quatro funcionários locais, foram colocadas sob investigação pelo Ministério Público de Innsbruck relativamente ao surto. O processo foi enviado ao Ministério da Justiça sem qualquer indicação sobre se serão eventualmente apresentadas acusações criminais.

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