Bombardeamento em Zaita, no sul do Líbano, um dos 1300 alvos atingidos por aviões e drones israelitas.
Bombardeamento em Zaita, no sul do Líbano, um dos 1300 alvos atingidos por aviões e drones israelitas.MAHMOUD ZAYYAT / AFP

Ataque aéreo de Israel ao Hezbollah causa maior número de vítimas desde 2006

Ao sétimo dia de intensificação do conflito entre Israel e o movimento armado xiita, bombardeamentos que visavam destruir mísseis em casas mataram pelo menos 356 pessoas.
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Precedido de mensagens de voz ou escritas enviadas para telefones fixos e telemóveis, bem como de um anúncio na rádio libanesa, para que os habitantes do sul do Líbano e do vale de Beca se retirem, as forças armadas israelitas lançaram um ataque a 1300 alvos do Hezbollah, o movimento islamista xiita que desde 8 de outubro tem atacado numa base diária o norte de Israel. Os bombardeamentos causaram pelo menos 356 mortos, entre os quais 24 crianças, e mais de 1240 feridos -- mais mortais do que a explosão do porto de Beirute em 2020.

É preciso recuar à guerra de julho de 2006 entre Israel e o Hezbollah para se encontrar um momento mais mortífero. Milhares de libaneses lançaram-se à estrada enquanto o Hezbollah respondeu com o lançamento de mais foguetes. O primeiro-ministro israelita justificou a operação, e o seu maior aliado, os Estados Unidos, anunciou um reforço não especificado de tropas para a região, onde mantém cerca de 40 mil militares. 

“As operações do Hezbollah forçam as forças de Israel a agir contra a infraestrutura terrorista nas suas aldeias (...) Se estiver dentro ou perto de uma casa que contenha armas do Hezbollah, dentro de duas horas deve deixá-la e manter-se longe dela”, avisaram as forças israelitas em árabe numa mensagem para os habitantes da região de Beca.

À noite, em conferência de imprensa, o porta-voz das forças israelitas explicou que os 1300 alvos -- número que iria subir nas horas seguintes, uma vez que no futuro próximo vão continuar, informou -- eram na sua maioria armas armazenadas em casas, incluindo “mísseis de cruzeiro que podem atingir centenas de quilómetros, foguetes pesados com uma ogiva de mil quilos, foguetes com um alcance até 200 quilómetros, foguetes de curto alcance e veículos aéreos não tripulados armados”.

Sobre o número de baixas, Daniel Hagari lembrou que o Ministério da Saúde do Líbano não distingue elementos do grupo islamista dos civis: “Estes números também se referem a muitos terroristas que matámos hoje e que estavam perto das armas.”

Antes, o chefe do Estado-Maior, general Herzi Halevi, disse que a “operação ofensiva” tinha como objetivo “eliminar as infraestruturas militares que o Hezbollah construiu durante 20 anos” para “criar as condições para que os residentes do norte regressem às suas casas”. Desde outubro que, devido aos ataques do grupo pró-iraniano no norte de Israel, cerca de 60 mil habitantes se mantêm deslocados. 

Para Benjamin Netanyahu, a operação tem como finalidade alterar “o equilíbrio de segurança” entre o sul do Líbano e o norte de Israel e disse aos libaneses que a guerra é com o Hezbollah. “Há demasiado tempo que o Hezbollah vos utiliza como escudos humanos.” Um outro objetivo, o de decapitar o comando do Hezbollah, terá falhado. Foi noticiado que houve um ataque específico a Ali Karaki, atual comandante da frente sul do Hezbollah, no sul de Beirute. No entanto, a organização listada como terrorista pelos Estados Unidos disse que Karaki está bem de saúde e que foi transferido para um local seguro. 

A intensificação do conflito entre Israel e o Hezbollah começou na terça-feira, quando milhares de pagers de funcionários do grupo - e do embaixador iraniano em Beirute - explodiram em simultâneo, matando 12 pessoas e ferindo 2800. No dia seguinte outros dispositivos eletrónicos voltaram a explodir, matando mais 25 e ferindo 450. Na quinta-feira, infraestruturas militares foram alvo de ataque, e na sexta-feira um bombardeamento no sul do Líbano fez desabar dois edifícios, matando 51 pessoas, entre elas o comandante da unidade de elite Radwan, Ibrahim Aqil.

A escalada continuou no fim de semana, com ataques aéreos de Israel ao sul do Líbano e a resposta do Hezbollah com o lançamento de cerca de 150 mísseis, rockets e drones, e o número dois do movimento, Naim Qassem, disse ter começado uma “batalha de ajuste de contas em aberto” e que estão “preparados para enfrentar todas as possibilidades militares”. 

O primeiro-ministro libanês, Najib Mikati, denunciou um “plano destrutivo que visa destruir as aldeias e cidades libanesas” às primeiras horas do ataque aéreo israelita, enquanto o secretário-geral da ONU se mostrou “seriamente preocupado com a escalada da situação”. 

Em Nova Iorque para participar na Assembleia Geral das Nações Unidas, o presidente do Irão acusou Israel de querer eclodir uma guerra regional. “Estão a arrastar-nos para um ponto para onde não queremos ir. Não há vencedores numa guerra”, disse Massoud Pezeshkian, que recordou os apelos constantes do Ocidente para que Teerão se abstenha de responder para não deitar por terra as negociações para um cessar-fogo entre Israel e o Hamas. “Diziam-nos sempre que a paz estava ao alcance, talvez dentro de uma semana. Mas nunca chegámos a essa paz ilusória. Todos os dias Israel comete mais atrocidades e mata cada vez mais pessoas”, disse o presidente em funções desde julho. 

Em paralelo, os Guardas da Revolução do Irão receberam ordens para deixarem de utilizar qualquer dispositivo de comunicação, noticiou a Reuters. 

76 anos de conflitos

Guerra árabe-israelita
Em 1948, no seguimento da Declaração de Independência de Israel, o Líbano junta-se a outros Estados árabes da região na guerra contra Telavive, conflito que acabará em 1949 com a vitória de Israel. O Líbano acolhe cerca de 100 mil palestinianos.

Assalto ao aeroporto
Em retaliação ao desvio de um avião de passageiros israelita pela OLP, no qual um passageiro foi morto e dois feridos, dois dias depois, em dezembro de 1968, Forças Especiais israelitas assaltaram o Aeroporto de Beirute e destruíram 12 aviões de passageiros e dois de carga.

Operação Litani
Em 1978, as forças israelitas invadem o sul do Líbano e ocupam o território até ao Rio Litani, à exceção de Tiro, com o objetivo de afastar grupos armados da fronteira. A operação militar deu-se após o sequestro de um autocarro israelita pela Fatah, no qual foram mortas 38 pessoas.

Invasão até Beirute
Os ataques a partir do sul do Líbano voltam a ser o fator que leva à resposta militar israelita em 1982: invasão até Beirute ocidental, onde sujeita a OLP a um bombardeamento e cerco de dois meses e meio, e fecha os olhos à milícia cristã de extrema-direita que executa dois massacres.

Nasce o Hezbollah
Milhares de guerrilheiros são retirados de Beirute e os dirigentes da OLP instalam-se na Tunísia, sendo de pronto substituídos pelo Hezbollah, nascido entre a comunidade xiita, ainda em 1982. Sucedem-se ataques às forças estrangeiras que obrigam Israel a retirar para o sul do Líbano, em 1985.

Guerra dos Sete Dias
Já com o Hezbollah estabelecido como força política no Parlamento, Israel desencadeia em 1993 uma operação militar com o objetivo de afastar o grupo islamista do sul do Líbano e de pressionar o Governo de Beirute a agir contra o mesmo.

Operação Vinhas da Ira
Três anos volvidos e com o Hezbollah a atacar as forças ocupantes e o norte de Israel, Telavive responde com nova operação, desta vez de 17 dias. Mais de 200 civis morrem, metade dos quais abrigados numa base das Nações Unidas.

Guerra de julho
Operacionais do Hezbollah entram em Israel, matam três soldados e raptam outros dois em 2006. Em resposta, seis anos depois de as tropas israelitas terem saído do sul do Líbano, estas regressam àquela região durante três semanas, mas não obtêm uma vitória militar.

cesar.avo@dn.pt

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