Foi a viagem mais rápida de sempre de um chanceler alemão à China, mas até podiam ter sido menos de 11 horas que a visita continuaria a ser polémica. Olaf Scholz aterrou esta sexta-feira em Pequim, envolto numa bolha de segurança por causa da pandemia da covid-19, à procura de aprofundar as relações económicas com os chineses. Isto numa altura em que soam os alertas para uma eventual dependência de Berlim do gigante asiático - depois do mau exemplo da dependência energética da Rússia - e menos de duas semanas após o presidente Xi Jinping ter reforçado o seu poder no Partido Comunista Chinês..Recebido por Xi no Grande Salão do Povo, um Scholz sorridente disse esperar "desenvolver mais" a cooperação económica com a China - com o líder chinês a lembrar que os dois países comemoram 50 anos das relações diplomáticas. Mais tarde, num encontro com o primeiro-ministro Li Keqiang, o chanceler reiterou contudo que Berlim espera que haja pé de igualdade nesta relação. "O que está claro para nós é que não acreditamos em ideias de dissociação [com a China], mas também está claro que isso tem a ver com laços económicos de igual para igual, com reciprocidade", disse Scholz..Uma sondagem da Infratest-Dimap para a televisão pública ARD, revelou que só 9% dos alemães consideram a China um parceiro confiável. Há cinco anos, eram 36%. Pequim é o principal parceiro económico de Berlim há seis anos consecutivos, sendo a Alemanha também um dos principais parceiros da China na Europa. Segundo a agência Xinhua, o volume de trocas entre ambos foi de mais de 250 mil milhões de dólares em 2021..A visita de Scholz ocorreu semanas depois de os chineses terem sido autorizados a ter uma participação na exploração do porto de Hamburgo (o maior da Alemanha), apesar de a concessão ter sido limitada a 24,9% (em vez dos 35% pedidos). Os Verdes e os liberais, parceiros de governo de Scholz, eram contra e reduzir a participação evitou que fosse necessária a autorização do executivo. Os EUA também alertaram Berlim contra o negócio..Ao mesmo tempo que Scholz estava em Pequim, os chefes da diplomacia do G7 estavam reunidos em Münster, na Alemanha. As sete maiores economias mundiais disseram estar preparadas para uma "cooperação construtiva com a China, onde isso for possível e onde haja interesse" - mas, à margem, o chefe da diplomacia europeia, Josep Borrell, defendeu que os países ocidentais devem diminuir a sua dependência da China. Os países do G7 pediram também a Pequim que respeite os "compromissos internacionais e obrigações legais", e se "abstenha de ameaças, coerção, intimidação e o uso da força"- numa referência a Taiwan..Scholz também não fugiu às questões onde há desacordo. "É bom que sejamos capazes de ter aqui um intercâmbio sobre todas as questões, incluindo aquelas onde temos perspetivas diferentes - é para isso que existe intercâmbio", indicou. Na conferência de imprensa com Li Keqiang, explicou que a Alemanha apoia a política de "Uma Só China" mas "deixou claro que qualquer alteração ao status quo de Taiwan deve ser pacífico ou por mútuo acordo" - Pequim não exclui o uso da força para conseguir a reunificação com a ilha, que considera uma província rebelde.."É importante que a China e a Alemanha se respeitem, acomodem os interesses centrais uma da outra, centrem-se no diálogo e resistam em conjunto à perturbação do confronto de blocos e às tentativas de ver tudo através do prisma da ideologia", disse Xi, segundo a agência chinesa Xinhua..Scholz pediu a Xi para que exerça a sua "influência" sobre a Rússia de forma a que esta pare "imediatamente os ataques que atingem diariamente a população civil" e retire da Ucrânia. Nesse sentido, ambos reiteraram a oposição ao "uso ou a ameaça de uso de armas nucleares", segundo a Xinhua. Scholz disse aos jornalistas que na China todos sabem que a escalada da guerra na Ucrânia "teria consequências para todos", mostrando-se "satisfeito" por haver acordo neste tema.."Atualmente a situação internacional é complexa e mutável. Como poderes influentes, a China e a Alemanha devem trabalhar juntos em tempos de mudança e caos para fazer mais contributos à paz e ao desenvolvimento mundial", acrescentou o presidente chinês. A viagem de Scholz tão perto do Congresso do PCC, onde Xi reforçou o seu poder, foi vista por alguns como uma legitimação para o líder, que será eleito em março para um terceiro mandato inédito..Scholz foi também o primeiro líder do G7 a visitar a China desde o início da pandemia. Todos os mais de 60 membros da delegação alemã fizeram testes à chegada - o de Scholz foi feito ainda dentro do avião por um médico alemão, com a supervisão dos chineses..susana.f.salvador@dn.pt