A primeira sessão do julgamento do antigo presidente da câmara de Istambul, visto como principal rival político do presidente Recep Tayyip Erdogan, foi suspensa ao fim de apenas 15 minutos, após uma troca de palavras acesa com o juiz e cânticos de “vergonha” das galerias em direção ao magistrado. Ekrem Imamoglu, que é acusado de liderar uma organização criminosa num caso que a oposição diz ser politicamente motivado e entrou em tribunal debaixo de aplausos, chocou com o juiz quando este anunciou que a sua defesa seria a última a intervir (há mais de 400 arguidos) e não o autorizou a falar. Imamoglu, de 54 anos, é acusado de 142 crimes, incluindo criar e liderar desde 2015 uma “organização criminosa com fins lucrativos”, que estava alegadamente envolvida em subornos e na manipulação de concursos públicos. Isso terá supostamente ajudado a financiar a sua ascensão política no Partido Republicano do Povo (CHP, na sigla original). O então autarca de Beylikdüzü, na área metropolitana de Istambul, acabaria por ser eleito em 2019 presidente da câmara da maior cidade da Turquia. Depois de ser detido, há quase um ano, foi nomeado candidato presidencial do CHP - numas primárias abertas a toda a população em que participaram cerca de 15 milhões de pessoas, no rescaldo de protestos contra a sua detenção. As eleições estão apenas previstas para 2028, mas Erdogan só poderá ser candidato (já vai no segundo mandato) se antecipar as eleições para 2027 ou mudar as regras. Imamoglu tem poucas hipóteses de poder concorrer. Se for considerado culpado, o ex-presidente da câmara de Istambul (teve o mandato suspenso quando foi detido) arrisca uma sentença de 2430 anos. Além disso, enfrenta um outro processo sobre a legalidade do seu curso universitário - sendo que, por lei, só licenciados podem concorrer à presidência da Turquia..Opositor turco Imamoglu arrisca mais de 2000 anos de prisão.Imamoglu foi o último dos arguidos a entrar no tribunal - são mais de 400, dos quais pouco mais de uma centena estão detidos. Foi aplaudido pelos espectadores na galeria, mas também pelos co-arguidos (cumprimentou alguns) e pelos advogados. Segundo o juiz, as audiências vão decorrer de segunda a quinta-feira, até abril, no tribunal no exterior da prisão de alta segurança de Silviri. Ainda antes do início da sessão, o juiz presidente anunciou que a defesa de Imamoglu seria a última a intervir, negando um pedido do ex-autarca de fazer um curto discurso. “Não pode simplesmente levantar-se e pedir para falar quando quiser”, disse o juiz, segundo a agência estatal turca Anadolu, desligando o microfone quando Imamoglu insistiu em querer falar. O juiz ameaçou retirá-lo da sala. Depois, um dos advogados questionou porque é que um jornal pró-governo tinha publicado uma lista de testemunhas - mas esta não tinha sido fornecida à defesa de Imamoglu. Ouviram-se então gritos de “vergonha” desde as galerias, com o juiz a ameaçar continuar o julgamento sem a audiência e a dar ordens para os polícias o fazerem quando os protestos continuaram. Saiu então da sala. “Não veio aqui para nos julgar? Não pode simplesmente fugir assim”, disse Imamoglu. A sessão seria suspensa, com a audiência a optar por não deixar a sala. Quando a sessão foi retomada, já da parte da tarde, os advogados pediram a escusa do juiz, questionando a sua independência e imparcialidade. .Quem é Ekrem Imamoglu, o homem que vai ser eleito opositor de Erdogan depois de ter sido preso?