"Não sei que lei impedirá uma Musklândia no lado oculto da Lua"

Depois de ter escrito o popular Prisioneiros da Geografia, o autor inglês regressa à relação do contexto físico com a política. De Espanha ao espaço, da Grécia à Etiópia, o antigo jornalista analisa 10 regiões em O Poder da Geografia.

César Avó
Tim Marshall junto a um globo "ao contrário".© DR

Foi jornalista na BBC e editor na Sky News, estação para a qual fez reportagens em mais de 30 países ao longo de duas décadas. Em 2015 publicou Prisioneiros da Geografia, que se revelou um best-seller e mereceu uma edição adaptada ao público infantil. Depois de ter escrito sobre as bandeiras (Worth Dying for), os muros (A Era dos Muros) e a guerra nos Balcãs (Shadowplay), Tim Marshall, de 62 anos, regressa com O Poder da Geografia. Em 10 capítulos, analisa outros tantos locais, que, na sua ótica, irão ou vão continuar a ser essenciais.

Dedica um capítulo ao espaço num livro sobre geografia. Porquê esta escolha?
O espaço faz parte da geografia da Terra e não estamos a falar de ficção científica ou do futuro, é do aqui e agora. Temos uma fronteira com o espaço, e nela, em especial na parte mais próxima, há regiões, como a órbita baixa, que têm de ser vistas como regiões geográficas, tal como na Terra, e a influência que têm. O melhor exemplo é pontos de estrangulamento, como o Estreito de Malaca, o Canal de Suez ou Ormuz. Infelizmente, os nossos líderes estão a idealizar partes do espaço como esferas de influência.

A cooperação entre o Reino Unido e outros países europeus na agência europeia espacial e os EUA e a Rússia na Estação Espacial será capaz de influenciar as esferas políticas, ou a astropolitik irá prevalecer?
A geopolítica prevalece na Terra em paralelo com muitos exemplos de cooperação. Por isso acho que vai ser o mesmo. A realidade da astropolitik significa que irá haver competição por armas no espaço, por áreas geográficas, o que não significa que não possa haver cooperação. É um ambiente tão hostil que devemos ir como humanos, e não como americanos, chineses ou portugueses. Devemos ter a máxima cooperação possível, mas irá haver competição.

A falta de tratados atualizados pode levar a que bilionários se apropriem de partes da Lua ou de Marte?
Não sei o que os iria impedir. Há tratados que foram escritos, alguns foram assinados, mas não foram ratificados. Em consequência, a sua legitimidade nas leis internacionais é questionável. E já estão ultrapassados, devido ao tempo em que foram escritos. Para mim, se um país reclamar uma parte da Lua, não sei que lei o impedirá, e se um indivíduo, como Elon Musk, decidir que o lado oculto da Lua se chamará Musklândia e construir aí uma base espacial... Sei que os tratados estipulam que indivíduos e empresas não a podem reclamar, mas, mais uma vez, não sei se terão validade legal.

Acredita que a geografia, por si só, explica o destino de um país? O que faz, por exemplo, da Austrália ou do Irão quase inexpugnáveis, mas os seus pontos fortes são também os seus limites.
Não acredito. Mas explica uma grande parte do destino quando acompanhado das ideias e das políticas dos líderes. Se não percebermos a geografia, torna-se mais difícil compreender os outros aspetos, como tudo se junta. Num dos meus livros anteriores usei a palavra prisioneiros [Prisioneiros da Geografia], e acredito que um país está preso na sua geografia no sentido mais lato, no que pode ou não fazer. É modelado em parte pela sua geografia, e mesmo que lhe sejam benéficas [as possibilidades] estão dentro desse quadro do qual não pode escapar.

"A controvérsia à volta do AUKUS foi quase inevitável [...] A China procura dominar o Pacífico Ocidental, o que é problemático para a Austrália. Camberra apostou as fichas todas nos Estados Unidos."

A Austrália comprou uma guerra diplomática com a França ao trocar a compra de submarinos convencionais para nucleares dos EUA. É o preço a pagar para ter uma posição mais predominante no Indo-Pacífico?
A controvérsia à volta do AUKUS foi quase inevitável porque a tecnologia que os franceses estavam a vender no dia em que assinaram, em 2016, estava desatualizada. O que aconteceu nos cinco anos seguintes é que se tornou muito mais aparente que a China, por motivos bastante compreensíveis, pretende passar a primeira cadeia de ilhas e procura dominar o Pacífico Ocidental, o que é problemático para a Austrália. Esse fator, juntamente com outros, como a covid e o bullying económico da China à Austrália, fez com que Camberra apostasse todas as fichas nos Estados Unidos.

Como descreve no livro, essa é uma aliança histórica.
Sim, aqui é onde geografia, história e relações internacionais se encaixam. A geografia está na base, basta olhar para um mapa e compreende-se que se a Austrália quer ser um poder moderno precisa de uma Marinha grande e moderna, mas não consegue tê-la, por isso precisa de um amigo. Então entramos na história da língua inglesa, da democracia que cresceu. E depois a geopolítica, que encaminhou os australianos para os norte-americanos. O círculo completa-se no século XXI quando se enquadra o que está a acontecer agora. Não é inevitável, mas é decerto lógico.

Como é que a Austrália consegue contrabalançar o poder da China se Pequim, como nota no livro, pode bloquear o acesso a rotas marítimas e deixar o país sem energia em questão de semanas?
E é por isso que os australianos tomaram essa decisão. Podiam ter tentado criar laços mais apertados com a China, de forma a terem a certeza de que esta se manteria amigável. Mas essa é uma posição incómoda para uma democracia moderna do século XXI, com a sua cultura e laços históricos. Precisamente para evitar esse cenário, assinaram com o poder que já tinha assumido esse papel para manter as vias marítimas abertas e, se necessário, pela força. Elaboraram a sua estratégia de longo prazo, segundo a qual, se a China puder ser contida na primeira corrente de ilhas, isso é útil para manter as vias marítimas em circulação, o que ajuda a tornar mais seguras as suas complicadas rotas de abastecimento, em especial as energéticas.

Turquia, Arábia Saudita e Irão competem como potências regionais e tentam levar a sua influência para lá do Médio Oriente. Qual destes países beneficia mais da localização?
A Turquia. Todos sabemos que é uma ancestral encruzilhada e que assim se mantém, com os seus fluxos e refluxos comerciais, mas será sempre de alguma importância. E nos momentos em que é poderosa consegue projetar esse poder em todas as direções: mar Negro, Egeu, sudeste europeu e no Médio Oriente. Já o fizeram com sucesso. E também ao nível linguístico e cultural mantém mais laços do que o Irão. As pessoas de origem turcomana estendem-se até à Mongólia.

E hoje podem jogar a carta dos migrantes com a UE.
Sim, o que, mais uma vez, se deve à geografia. A Turquia é um ponto de circulação natural, é a ponte terrestre para a Europa, e isso dá-lhe determinado estatuto e a um não necessariamente bondoso líder uma carta poderosa para jogar.

Qual dos três pode desestabilizar o mundo: o conceito de pátria azul turco, o wahabismo saudita ou a teocracia iraniana?
Nenhum deles é uma força em prol da estabilidade na região. Há tantos exemplos... a Turquia na Síria, Iraque e Líbia, a Arábia Saudita no Iémen e o Irão a projetar o seu poder e a agir de facto via coisas como o Hezbollah a nível global.

O Poder da Geografia
Tim Marshall
300 págs.
Desassossego

cesar.avo@dn.pt