Mistério em Brasília. Quem agrediu a deputada?

Joice Hasselmann, ex-bolsonarista, acordou em casa com seis fraturas, numa poça de sangue e sem se lembrar de nada. Ela e o marido negam energicamente episódio de violência doméstica, admitem mero acidente mas acreditam em atentado

João Almeida Moreira, São Paulo

Num país, como o Brasil, em que a pergunta "quem matou Odete Roitman?", principal mistério da telenovela Vale Tudo, de 1988, ainda ecoa como meme de internet 33 anos depois, o público encontrou um equivalente nas últimas semanas mas na vida real: "quem agrediu Joice Hasselmann?".

Hasselmann, deputada pelo PSL, o anterior partido do presidente Jair Bolsonaro, acordou numa poça de sangue, na sua casa, em Brasília, na madrugada de segunda-feira, 19 de julho, sem se lembrar de nada. Só cinco dias depois registou o ocorrido na polícia e contou-o à imprensa. "Eu achei que tivesse caído, que teria tido um mal súbito, batido a boca e saído sangue do nariz. A conclusão óbvia, né?".

"Acordei com muito frio, o que me leva a crer que eu estava há muito tempo desmaiada. Tentei ficar em pé, não consegui. Rastejei até à casa de banho, vi vários pingos de sangue no tapete em frente ao lavatório e um jato de sangue no espelho, como se uma artéria tivesse estourado", recordou.

"Fui buscar socorro, arrastei-me até à mesa-de-cabeceira e peguei o telemóvel para ligar ao meu marido". A ligação foi efetuada às 7h03 já de segunda-feira, dia 19.

O marido, o neurocirurgião Daniel França, estava no mesmo apartamento mas num quarto separado, com a porta fechada. "Nós dormimos em quartos separados, desde sempre, porque ele ronca muito. Ele atendeu-me à segunda ligação e foi correndo lá prestar os primeiros socorros. Inicialmente, achamos que fosse tombo", justifica Hasselmann.

"Quando eu a vi", relata França, "a primeira hipótese que ela me falou foi 'eu caí, eu caí', aí pensei tratar-se de um acidente doméstico". O marido cogitou tratar-se de efeito colateral do remédio para dormir que ela toma há 20 anos.

Com um dente partido, a deputada foi logo no dia seguinte, terça-feira, 20, a um dentista, que lhe disse poder ser resultado de um pontapé. Na quarta-feira, 21, outros exames detetaram cinco fraturas no rosto e uma numa vértebra. Dada a quantidade e a gravidade das lesões, Joice passou a equacionar a possibilidade de um atentado e, só aí, acionou o Departamento de Polícia Legislativa (Depol) - o imóvel onde ocorreu o caso é num edifício só para deputados.

Entretanto, circularam na internet notícias falsas, a dar conta de um acidente de viação da parlamentar, sob efeito de álcool, na mesma noite. Desmentida essa história, ganhou força a possibilidade de ela ter sido vítima de violência doméstica. "Estão tentando desviar o foco. Quem me conhece e conhece o Daniel sabe que é muito mais fácil eu dar uma sova nele do que ele ousar levantar a mão para mim".

"Eu nunca agredi ninguém, nunca dei um murro em ninguém, jamais faria isso", garantiu França, em conferência de imprensa dada de mãos dadas com a mulher, no domingo, dia 25.

Desde o início, Hasselmann não descarta ter sido um mero acidente mas, dado ter recebido ameaças de morte de rivais políticos, entregou dois nomes aos investigadores. "Como é pouco provável o acidente, decidimos pedir a investigação, até porque não é de hoje que sofro ameaças de morte e a minha lista de rivais políticos dá para fazer por ordem alfabética".

"Eu dei dois nomes à polícia. São desconfianças, mas eu não vou acusar, pois são casos recentes. Eu passei para a polícia e eles vão investigar", sublinhou ao jornal Correio Braziliense.

"Uma das duas pessoas citadas mandou-me recados indiretos e tem acesso muito fácil ao prédio e a outra é o óbvio ululante - são pessoas que estão me ameaçando sempre e nem têm vergonha, ameaçam-me publicamente nas redes sociais".

A parlamentar entregou ainda um objeto encontrado na sala que, segundo ela, não pertence a ninguém que mora lá. Noutra ocasião, diz ter visto um maço de tabaco no imóvel, sendo que nem ela, nem o marido fumam. O edifício onde se encontram os apartamentos dos deputados não tem câmeras de segurança nas escadas, o que pode facilitar invasões.

"Já disse com todas as letras que isto não é coisa de amador, mas de profissional. Ninguém entraria na casa de uma parlamentar para agredi-la dando "tchauzinho" para a câmera do rés-do-chão ou do elevador, tendo tantos pontos cegos no prédio. Não terei o mesmo destino de PC Farias", acrescentou a parlamentar, referindo-se às dúvidas em torno da morte, em 1996, do tesoureiro de Collor de Mello e da sua namorada.

Segundo notícia do jornal Metrópoles de quinta-feira, dia 29, no entanto, a polícia aponta para a tese de acidente, tendo em conta a medicação pesada que Hasselmann toma para perda de peso e a ausência de sinais de entrada de alguém estranho ao apartamento. Uma agressão do marido está praticamente descartada por França não apresentar qualquer marca nas mãos.

Joice Hasselmann, 43 anos, casada pela terceira vez, é mãe de dois filhos dos dois primeiros casamentos. Teve atividade conturbada como jornalista, acusada de 65 plágios a 42 colegas de profissão diferentes, enquanto trabalhava no Paraná, seu estado natal.

Destacou-se na política ao defender veementemente o impeachment de Dilma Rousseff, como admiradora do ex-juiz e ex-ministro Sergio Moro, de quem escreveu biografia, e como apoiante incondicional de Jair Bolsonaro.

Nas eleições de 2018, tornou-se a deputada mais votada da história, com cerca de um milhão de votos em São Paulo. Dois anos depois, tentou ser prefeita da maior cidade do país mas foi apenas a sétima mais votada.

Pelo meio, a "Bolsonaro de saias", como era chamada logo após a chegada ao Congresso e assumir a liderança parlamentar do governo, rompeu com o presidente que hoje considera "burro e limitado". Os inimigos a que se refere são, na maioria, os ainda apoiantes do governo, incluindo o vereador Carlos Bolsonaro, filho do presidente.

Até o próprio Jair Bolsonaro reagiu ao caso da eventual agressão a Hasselmann. "Está bastante esquisita essa história...".

dnot@dn.pt