Amnistia denuncia apartheid de Israel contra palestinianos e é acusada de "antissemitismo"

Israelitas rejeitam "falsas alegações" que já tinham sido feitas pela B"Tselem e a Human Rights Watch.

Israel acusou ontem a Amnistia Internacional de "antissemitismo", depois de esta organização publicar um relatório no qual se junta às vozes que denunciam a existência de uma política de apartheid da sua parte contra os palestinianos. "O Estado de Israel rejeita absolutamente todas as falsas alegações", lê-se num comunicado enviado pela embaixada israelita em Portugal às redações. Por seu lado, a Autoridade Palestiniana saúda o documento, pedindo à comunidade internacional que reaja até com sanções.

"Quer vivam em Gaza, Jerusalém Oriental ou no resto da Cisjordânia, os palestinianos são tratados como um grupo racial inferior e os seus direitos são sistematicamente retirados", disse a secretária-geral da Amnistia, Agnes Callamard. "As políticas cruéis de segregação, expropriação e exclusão de Israel em todos os territórios sob o seu controlo equivalem claramente a um apartheid", acrescentou.

A expressão que designa o sistema de segregação racial que existia na África do Sul foi usada pela primeira vez em relação a Israel há cerca de um ano, pela organização não-governamental com sede em Jerusalém B"Tselem. Em abril, a Human Rights Watch tornou-se na primeira grande organização de direitos humanos internacional a fazer a mesma acusação. Desde 1966 que as Nações Unidas consideram o apartheid um crime contra a humanidade e desde 2002 está tipificado no Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI).

Agora é a Amnistia a acusar Israel, reiterando, contudo, não estar a comparar o tratamento dos palestinianos por parte dos israelitas às condições da era do apartheid na África ao Sul. Mas a dizer que a conduta e as políticas israelitas cumprem os critérios para este crime. O Estatuto de Roma define-o como um crime contra a humanidade "cometido no quadro de um regime institucionalizado de opressão sistemática e de domínio de um grupo racial sobre outro [...] com a intenção de manter este regime".

Segundo o comunicado da embaixada israelita, "o conteúdo do relatório consolida e recicla mentiras, inconsistências e alegações infundadas provenientes de conhecidas organizações de ódio anti-israelitas, todas com o objetivo de revender ideias antigas em novas embalagens". O embaixador, Dor Shapira, acrescenta: "É lamentável que, enquanto Israel está ocupado a promover a paz com os seus vizinhos, organizações internacionais na Europa estejam ocupadas a promover puro ódio e mentiras. O Estado de Israel é uma democracia forte e vibrante, que garante a todos os seus cidadãos direitos iguais, independentemente da religião ou raça." O comunicado diz ainda que a Amnistia "usa padrões duplos e demonização para deslegitimar Israel", considerando que "esses são os componentes exatos dos quais o antissemitismo moderno é feito".

Já a Autoridade Palestiniana saudou o relatório, dizendo que "descreve detalhadamente a cruel realidade de racismo enraizado, a exclusão, a opressão, o colonialismo, o apartheid e a tentativa de fazer desaparecer o povo palestiniano", instando o procurador-geral do Tribunal Penal Internacional a incluir este crime na investigação que tem em curso e apelando às Nações Unidas para que "responsabilizem" Israel, incluindo com sanções.

susana.f.salvador@dn.pt

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