A transformação de Abu Mohammed al-Jolani começou em 2016, quando cortou os laços com a Al-Qaeda. Aos poucos, abandonou o turbante e passou a vestir um uniforme militar ou até um simples fato civil. A amenização da imagem foi acompanhada pela moderação do discurso, apresentando-se como campeão do pluralismo e da tolerância numa altura em que o seu grupo - o Hayat Tahrir al-Sham (HTS ) - se tornava na força dominante na província de Idlib, o último reduto rebelde na Síria. Agora, entrou triunfante em Damasco, mas para as Nações Unidas continua a ser um terrorista como HTS..“Esta é uma caracterização injusta”, disse Al-Jolani na primeira entrevista que deu a um jornalista norte-americano, ainda em 2021. “É um rótulo político que não contém verdade ou credibilidade, porque ao longo da nossa jornada de dez anos nesta revolução não representámos qualquer ameaça à sociedade Ocidental ou europeia: nenhuma ameaça à segurança, nenhuma ameaça económica, nada. É por isso que esta designação é politizada”, queixou-se ao programa Frontline (PBS)..Mas quem é Al-Jolani? Na realidade o seu nome verdadeiro é Ahmed Hussein al-Sharaa, sendo o outro um nome de guerra que faz referência às suas origens - os Montes Golã, que o avó paterno teve alegadamente qde abandonar por causa da ocupação israelita, em 1967. Segundo a Al-Jazeera, nasceu em 1982 em Riade, na Arábia Saudita, onde o pai trabalhava como engenheiro petrolífero, regressando com a família para a Síria em 1989, onde se instalaram nos arredores de Damasco..Terá sido depois dos atentados do 11 de Setembro de 2001, nos EUA, que foi atraído para o jihadismo. “Qualquer pessoa que vivesse no mundo islâmico, no mundo árabe, nessa altura, e que diga que não ficou contente estará a mentir”, disse na entrevista à PBS. Quando os EUA atacaram o Iraque, em 2003, Al-Jolani juntou-se à Al-Qaeda e à resistência iraquiana. Preso pelos norte-americanos em 2006, chegou a passar pela infame prisão de Abu Ghraib. .Quando saiu, cinco anos depois, regressou a casa para criar a Frente Al-Nusra - o ramo sírio da Al-Qaeda. Uma tarefa que lhe foi atribuída por Abu Bakr al-Baghdadi, líder do “Estado Islâmico no Iraque”, formado pela Al-Qaeda, mas que depois cortou os laços com este grupo e se tornou simplesmente no Estado Islâmico. Al-Jolani rejeitou fazer parte, mantendo a ligação à Al-Qaeda, mas uma vez que era contra a ideia de um “califado global” e queria focar-se apenas na “República Islâmica” na Síria, optou pela rutura em 2016..Nasceu então o HTS, que foi esmagando outros grupos rivais até controlar Idlib - onde criou um governo civil - enfrentando acusações da parte de ativistas de abusos contra dissidentes. Ciente disso, Al-Jolani multiplicou-se nos últimos dias em discursos e entrevistas, procurando garantir em todas as cidades que foi libertando das forças do regime de Assad que as minorias cristãs e outras não iriam ser afetadas pelo facto de um grupo sunita assumir o poder e pedindo aos seus combatentes para garantirem a segurança de todos. Agora, enfrenta o teste final..susana.f.salvador@dn.pt