Habituámo-nos a considerar os talibãs, senhores do Afeganistão, como aliados do Paquistão. E foi assim durante algum tempo. Na primeira passagem dos chamados ‘estudantes de religião’ pelo poder em Cabul, o seu regime fundamentalista islâmico só era reconhecido por três países e um deles era o Paquistão. Cheguei a visitar a embaixada que tinham em Islamabad, numa altura em que já tinham caído em desgraça por abrigarem Osama bin Laden e a Al-Qaeda. Depois dos atentados do 11 de Setembro, os Estados Unidos obrigaram o general Pervez Musharraf, então presidente do Paquistão, a abandonar os talibãs. Não totalmente.O apoio paquistanês aos talibãs a partir dos anos 1990 foi a sequência lógica do apoio que tinha dado aos mujaedines na década de 1980, quando os soviéticos e os comunistas afegãos eram os inimigos dos próprios Estados Unidos, aliados do Paquistão. O fim da Guerra Fria, e a retirada soviética, não trouxe, porém, a paz ao Afeganistão. E nos jogos de poder, aos militares paquistaneses interessava manter aliados úteis no vizinho a oeste, para terem profundidade estratégica em caso de guerra com o vizinho a leste, a Índia. Mas a proteção dos talibãs a Bin Laden, que atacou os Estados Unidos, destruiu essa estratégia paquistanesa. Os aliados tornaram-se incómodos, mesmo não perdendo totalmente a utilidade contra influência de outras potências.Isto foi em finais de 2001. E os talibãs pareciam de qualquer forma atirados para o caixote de lixo da História. O mullah Omar, seu fundador, fugiu do seu bastião em Kandahar (nunca chegou a instalar-se em Cabul, mesmo quando tomou a cidade aos antigos mujaedines em 1996) e mais tarde morreu. Mas a reconstrução do Afeganistão falhou e em 2021, depois da retirada das tropas americanas e outras, os talibãs voltaram ao poder. O seu líder agora é Hibatullah Akhunzada e, apesar de negar a ligação, é visto também como protetor dos talibãs paquistaneses, que ainda há dias fizeram um mortífero ataque a uma mesquita perto de Islamabad. Tal como os talibãs afegãos, os talibãs paquistaneses são sobretudo da etnia pastune, que vive dos dois lados da fronteira.E que fronteira é essa? É a Linha Durand, negociada no século XIX por Sir Mortimer Durand, um diplomata britânico. Separava a Índia Britânica do Afeganistão, país que tinha resistido a sucessivas invasões e se tinha transformado em Estado-tampão entre os Impérios Britânico e Russo (a Rússia, e depois a União Soviética, controlava a Ásia Central). Mesmo depois do fim da colonização britânica, com a independência das modernas Índia e Paquistão em 1947, esta fronteira permaneceu. E o Afeganistão até foi o único país a votar contra a entrada do Paquistão na ONU em sinal de contestação da Linha Durand.Portanto, esta tensão, agora guerra, tem causas antigas. É uma rivalidade que tem raízes na linha fronteiriça negociada em 1893 com o emir Abdur Rahman Khan e que se estende por mais de 2500 quilómetros.O primeiro-ministro paquistanês Shehbaz Sharif ameaça esmagar o inimigo e é certo que o seu país tem um dos exércitos mais poderosos da Ásia. O Afeganistão não tem condições para enfrentar num conflito tradicional o Paquistão, mas os talibãs, de um lado e do outro da fronteira, têm vasta experiência em misturar guerrilha e terrorismo. É um conflito entre dois países islâmicos, e até estamos no mês sagrado do ramadão, mas os nacionalismos pesam muito..Paquistão entra em "guerra aberta" com Afeganistão e garante que reduzirá a pó" qualquer agressão de Cabul