Keir Starmer está encostado às cordas pelo próprio partido e tão cedo quanto hoje pode anunciar a sua demissão, abrindo caminho para Andy Burnham, o até agora presidente da região metropolitana de Manchester, que toma posse como deputado depois de ter sido eleito na quinta-feira. Mas, apesar de as vozes a pedirem para o líder do Partido Trabalhista e primeiro-ministro britânico sair de cena se multiplicarem — as mais recentes terão sido dos ministros Yvette Cooper (Negócios Estrangeiros), Ed Miliband (Energia), Heidi Alexander (Transportes) e Shabana Mahmood (Administração Interna) —, em termos oficiais nada transpirou. Enquanto Donald Trump dizia, na sua rede social, que o homem que há dias se sentou ao seu lado na cimeira do G7 vai demitir-se por ter “falhado totalmente” nas questões da imigração e da energia, Downing Street insistiu que a posição não tinha mudado desde sexta-feira, quando o primeiro-ministro prometeu continuar a lutar e que iria enfrentar qualquer desafio à liderança. Um ministro próximo de Starmer disse no domingo à Sky News que o primeiro-ministro britânico estava a “refletir sobre a realidade política e os desafios e as oportunidades” durante o fim de semana. Peter Kyle, ministro da Economia, desmentiu os zunzuns de que Starmer está a considerar demitir-se na segunda-feira: “Não tenho razões para acreditar que sejam verdadeiros.” Prosseguiu: “O Keir está focado no trabalho, e posso dizer com certeza, porque falei com ele, que ambos estamos a refletir, cada um à sua maneira, sobre o que significa colocar o país em primeiro lugar num momento como este.”.55Por cento dos britânicos quer que Starmer se demita de líder do Partido Trabalhista e de primeiro-ministro. Além disso, 44% diz que não deve tentar ser reeleito. Em sentido inverso, apenas 25% dos britânicos deseja que Starmer se mantenha nos cargos..E que momento é este? A partir desta segunda-feira, ou Starmer tem a iniciativa de se demitir (concorrendo de novo ou saindo de cena), ou a probabilidade de pelo menos 81 deputados trabalhistas lançarem um candidatura alternativa sobe em flecha. Segundo as regras do Labour, pelo menos 20% dos seus deputados têm de apoiar um candidato que desafie o líder para que se possa avançar para uma eleição interna. A chegada de Andy Burnham a Westminster muda o cenário. Há um mês, o então ministro da Saúde Wes Streeting demitiu-se e terá tentado avançar nesse sentido, mas não o fez (os seus próximos dizem que tinha deputados suficientes, os apoiantes de Starmer dizem que não tinha). .8Pontos positivos é quanto regista a popularidade de Andy Burnham. Mas o pretendente ao n.º 10 de Downing Street já perdeu 12 pontos desde maio. Na sondagem da Opinium nenhum outro líder político apresenta resultados positivos (a conservadora Kemi Badenoch é quem está menos mal, com quatro pontos negativos)..Mas Burnham tem outro peso, a começar pelo facto de ter vencido há dias uma eleição intercalar numa altura em que os trabalhistas sofrem acentuadas perdas eleitorais. Em comentários ao Politico, o cientista político John Curtice disse que qualquer outro candidato trabalhista teria menos de 5% de hipóteses de vencer em Makerfield no atual panorama político. .Makerfield: como 76 mil eleitores podem decidir quem será o próximo líder britânico.Em resultado da eleição de Burnham, na sexta-feira Keir Starmer terá tentado obter apoios entre os ministros. Mas sem sucesso. “Esteva a falar com pessoas que, talvez há dois meses, ele pensava estarem totalmente comprometidas consigo, mas que agora poderiam estar a vacilar”, disse uma fonte ao The Telegraph. Só que agora, uma maioria de ministros do Gabinete disseram-lhe que ele precisa de definir um cronograma [para apresentar a demissão.” Além dos ministros já citados que pediram o fim de ciclo, o líder da bancada Jonathan Reynolds terá transmitido a Starmer um crescente sentimento de deputados a pedirem uma sucessão ordeira. Cerca de 100 em 451 deputados trabalhistas instaram publicamente a demissão de Starmer. .Andy Burnham eleito deputado por Makerfield e com caminho aberto para desafiar o primeiro-ministro.Em paralelo, alguns deputados defenderam o primeiro-ministro. Por exemplo, Samantha Niblett partilhou uma petição pela manutenção do primeiro-ministro e apelou aos eleitores que preferem a “tranquilidade ao caos” para assinarem a petição e pressionarem o seu representante na Câmara dos Comuns. Já o deputado Neil Coyle disse que os seus eleitores estão “furiosos com a perspetiva de uma manipulação e do circo mediático ser recompensado”. Sentenciou: “Quando o próximo líder não conseguir mudar Trump, o Irão, a Ucrânia, Putin, Musk, o viés editorial da televisão e dos algoritmos da noite para o dia, também clamarão pelo seu sangue. É melhor manter essa guilhotina afiada.”Para prevenir jogadas políticas internas deste género, o secretário de Estado das Migrações defendeu uma alteração legislativa segundo a qual a consequência de um líder que se demita por pressão partidária é a realização de eleições gerais. Depois de Mike Tapp ter partilhado uma publicação nas redes sociais que afirmava que Keir Starmer foi “profundamente traído” por aqueles que pedem agora a sua demissão, o secretário de Estado sugeriu a mudança na lei para acabar com os “intermináveis jogos à House of Cards e o país sairia a ganhar”, uma vez que poria fim à “constante rotatividade e faria com que todos os políticos se concentrassem nos resultados, em vez da política interna”. .Restore Britain: o partido que pode estragar os planos de poder de Farage.Donald Trump, cuja guerra com o Irão numa penada afastou do ciclo noticioso o caso Epstein — o qual manchou a reputação de Starmer devido à nomeação de Peter Mandelson embaixador nos EUA — e causou uma fratura com Londres porque o governo trabalhista não apoiou o conflito, desejou felicidades a Starmer. Isto na mesma mensagem em que disse que o britânico “falhou totalmente” na imigração e na recusa em explorar o petróleo no Mar do Norte.Da maioria absoluta à absoluta impopularidade2024Julho: Keir Starmer torna-se primeiro-ministro após derrotar os Conservadores.Ministra das Finanças Rachel Reeves anuncia o corte no subsídio de combustível de inverno.Agosto-Setembro: escândalo com ministros por aceitarem presentes de doadores ricos.Outubro: chefe de gabinete Sue Gray demite-se. Reeves anuncia 40 mil milhões de libras em aumentos de impostos.Dezembro: Peter Mandelson nomeado embaixador nos EUA.2025Maio: trabalhistas perdem 187 lugares nas eleições locais; Reform ganha 677.Junho: anunciado acordo comercial Reino Unido-EUA.Julho: 49 deputados trabalhistas votam contra as reformas da segurança social.Setembro: Mandelson demitido como embaixador por ligações a Jeffrey Epstein.Novembro: segundo Orçamento de Reeves aumenta impostos.2026Fevereiro: o chefe de gabinete Morgan McSweeney demite-se.Mandelson detido por suspeita de abuso de poder.Trump lança guerra contra o Irão; Starmer recusa o uso de bases britânicas.Maio: trabalhistas sofrem pesada derrota nas eleições locais.Quatro ministros demitem-se; cerca de 90 deputados pedem a saída de Starmer.11 de junho: o ministro da Defesa John Healey demite-se por divergências nos gastos militares.18 de junho: Andy Burnham vence eleição intercalar.