"A solução para o Afeganistão está em resistir a outra guerra"

Antigo embaixador afegão no Canadá e em França, Omar Samad foi conselheiro de Abdulhah Abdullah, ex-primeiro-ministro e uma das figuras históricas da oposição ao regime talibã. O DN falou com ele sobre a situação no Afeganistão, numa passagem por Lisboa.

Disse em entrevista, há uns meses, que, se existiu alguma lua-de-mel com os talibãs, já acabou. Houve mesmo uma lua-de-mel com os talibãs por parte da sociedade afegã ou da comunidade internacional?
A lua-de-mel pós-colapso a que eu me referia está ligada às negociações que estavam a acontecer antes. Houve um processo político em Doha, no Qatar, que envolveu um debate intra-afegão. Era suposto que esse debate conduzisse a um governo interino e, no último dia do chamado regime republicano, era suposto que o senhor Karzai, o senhor Abdullah e a restante delegação viajassem para Doha, pois tinham luz verde dos dirigentes políticos de Cabul para negociar um acordo para um governo interino de transição. Isso foi basicamente desfeito pelo presidente Ashraf Ghani, que decidiu abandonar o país no último minuto e tudo colapsou. Claro que os talibãs já tinham avançado e tomado quase todo o país nessa altura. A ideia era que eles ficassem fora de Cabul enquanto os outros chegavam a um acordo político. A lua-de-mel significa que os talibãs e outras forças políticas, mas principalmente os talibãs, porque eles se tinham tornado os dirigentes, tiveram a oportunidade de dar continuidade a esse processo. Acho que ainda hoje algumas pessoas pensam que há uma janela para os talibãs concordarem com alguma espécie de acordo que fosse um seguimento do processo de Doha conducente a uma partilha de poder e a um governo que fosse mais representativo, não apenas talibã. No último ano essa oportunidade diminuiu pela forma como os talibãs decidiram governar. Ainda temos muitas perguntas sobre qual o caminho que isto vai levar em termos do sistema e da nova ordem política. Irá ser uma ordem política puramente talibã ou irá ser mais inclusiva? É a grande pergunta. Foi essa a minha referência a oportunidades - uma oportunidade que existiu e que penso ter sido reduzida pela realidade atual. Devo acrescentar que essa oferta de oportunidade não tem apenas um lado, tem dois - a comunidade internacional também teve a oportunidade de, em vez de sanções, ter tido talvez uma abordagem mais conciliatória e empurrar os talibãs em direção a um sistema mais inclusivo. O que aconteceu foi que ambos os lados mostraram relutância extrema em se envolverem e quiseram mostrar que tinham meios para castigar o outro lado ou usar as suas vantagens sobre ele.

Em agosto do ano passado, quando os talibãs chegaram ao poder após a retirada americana, havia aquela ideia de que estes seriam uns "neotalibãs", que não iriam repetir os erros dos anos 90, que seriam mais aceitáveis para a comunidade internacional, mas todas as notícias que chegam do Afeganistão é que eles estão a fazer exatamente o mesmo. Também é a sua avaliação?
A minha avaliação, tendo vindo a segui-los desde meados dos anos 90 até hoje, é a de que em primeiro lugar não sabemos nada. Pensamos que sabemos, algumas pessoas talvez saibam, mas não acho que no geral saibamos o suficiente sobre os meandros dos talibãs, o seu processo de tomada de decisões e influências que estão a fazer a diferença.

Influências internas ou externas?
Externas e internas. Não sabemos o suficiente, fingimos que sabemos, e é aí que erramos. Em segundo lugar, vejo uma parte dos talibãs de 1990 ainda a influenciar os acontecimentos, a velha guarda. Depois, vemos uns novos talibãs, que evoluíram ao longo dos últimos 20 anos, como resultado da presença dos Estados Unidos no Afeganistão e da sua decisão de sair. O que vemos também é uma mudança geracional e de mentalidade em algumas camadas dos talibãs, nas que estiveram mais expostas à educação, às viagens e ao mundo. Há talibãs, muitos, segundo algumas pessoas, que são a favor de que todas as raparigas vão à escola, e depois há uma pequena parte da velha guarda que não, o que torna as coisas complicadas, porque é uma mistura de interpretação islâmica, cultura tribal e mentalidades que impede que as raparigas - todas - vão à escola a partir dos 12 anos. Isto levanta várias questões - temos a mesma mentalidade, sim, mas também mudanças e diferenças que vão além da superfície entre os talibãs dos anos 90 e os pós-2020.

Portanto, a ida das raparigas à escola depende da idade, eles permitem que as mais novas frequentem o ensino, mas as mais velhas já não?
As adolescentes não podem frequentar as escolas secundárias públicas, mas podem ir para privadas.

E em relação às universidades?
As universidades são segregadas, as raparigas só podem frequentar as exclusivamente femininas, mas podem ir para a universidade.

Em relação ao mundo do trabalho, as mulheres podem trabalhar?
Eles são seletivos. Em alguns casos, os talibãs aceitaram que as mulheres possam trabalhar, noutros decidiram que as mulheres devem ficar em casa, mas recebendo os seus salários. Portanto, a situação das mulheres não é igual à dos anos 90, também está a evoluir. Ainda não ouvimos a palavra final dos talibãs sobre certas questões.

Também há notícias de mulheres em Cabul que protestam contra a liderança talibã. Isso significa que há algum nível de liberdade, de surgimento de uma sociedade civil?
Uma das conquistas dos últimos 20 anos foi a emergência e evolução da sociedade civil, incluindo os media, e as mulheres fazem parte dessa mudança. Aquilo que se tem visto nas últimas semanas é esporádico, de alguma forma simbólico, são expressões de frustração, de vontade de mudança de políticas e, em alguns casos, talvez de outros motivos, como a vontade de encontrar uma maneira de sair do país. Noutros casos existem objetivos políticos e cívicos de querer mandar uma mensagem e mostrar ao mundo e ao povo que estes pequenos grupos de mulheres são maioritariamente educados e pertencem às elites urbanas do passado e estão a expressar um ponto de vista. São ações que ecoam e atraem as atenções. Assim, depende das motivações, mas é um ponto importante, embora não represente 20 milhões de mulheres afegãs, pode representar uma pequena parte delas.

E quanto às minorias? As linhas políticas são também linhas étnicas?
A um certo nível o país tornou-se o Afeganistão do passado, ou seja: no Afeganistão pré-guerra, anterior a 1978, tínhamos preocupações étnicas até na justiça, mas a etnicidade nunca foi um motor político fundamental. Tornou-se tal depois de 1978, de cada vez que entrávamos numa crise, porque o país manteve-se instável e houve muito poucas tentativas - com a exceção talvez de Karzai -, muito pouco esforço para unir as pessoas sob uma bandeira, uma nação, uma Constituição, para dar direitos iguais aos cidadãos. Ghani fingia acreditar nesses valores, mas as suas políticas eram extremamente divisoras e uma dessas categorias de divisão tinha a ver com preferências étnicas. Ele era antropólogo de formação e penso que uma das razões por que foi escolhido foi por ser visto, principalmente em Washington, como uma pessoa que podia compreender e gerir melhor a sociedade afegã. O que eles não conseguiram compreender foi que a estratégia de Ghani não era unir, enquanto a de Karzai era. Ghani foi, antes de mais, egoísta e, em segundo lugar, a sua preocupação era como governar dividindo, seguindo a tradição britânica de dividir para reinar.

Lembro-me que as primeiras notícias sobre os talibãs nos anos 90 eram de que era um movimento pastune e que todos os líderes eram pastunes. Continua a ser assim? Como é que este novo governo talibã lida com as questões étnicas?
Eles amenizaram a questão. Acho que aprenderam a lição do passado em relação às questões étnicas. Perceberam que cometeram alguns erros no passado, especialmente com a destruição dos Budas, em Bamyian. É preciso recordar que nos anos 90 estávamos envolvidos numa guerra civil que nunca acabou, o que foi um dos erros que cometemos, nunca ter resolvido este problema quando tivemos a oportunidade depois do 11 de Setembro. A guerra civil continuou, enquanto fingíamos que tinha acabado. Assim, os talibãs entraram em palco nos anos 90, numa altura em que o país estava basicamente no caos. Quando falo de guerra civil, quero sublinhar que esta nunca é puramente doméstica, envolve também a região, devido à nossa geografia, à nossa localização, às influências e à relação que existe entre os nossos vizinhos a norte e o nosso povo, entre os nossos vizinhos a ocidente e a oriente.

E essas potências também desempenham um papel ainda hoje?
Sem dúvida. Quando olho para a mistura invasora, vejo que as guerras no Afeganistão nunca são inteiramente domésticas nem inteiramente estrangeiras, são uma mistura das duas. E a etnicidade, nesse ponto, torna-se uma questão.

Os talibãs estão a tentar agora ser mais inclusivos?
Tentam ser mais inclusivos e têm vários desafios nas mãos. Tentam envolver toda a gente, muito mais do que costumavam; ocasionalmente, nomeiam pessoas de outros grupos, mas, no meu ponto de vista, não é suficiente. Eles têm um problema porque a liderança talibã, o processo de tomada de decisões, está apenas nas mãos dos pastunes, e, mesmo na comunidade pastune, está limitada a certas tribos.

Na liderança da oposição há uma tendência para copiar o passado - ir buscar os mujaedines que derrotaram os soviéticos, sobretudo os tajiques, seguidores de Shah Massud. Esta não é a solução para o futuro?
A solução está na ideia de resistir a uma outra guerra. Voltar à resistência armada neste ponto em que os talibãs têm praticamente o controlo total do país...

Controlam todo o território?
Diria que sim. Há questões esporádicas em certas partes do país, mas nada sério nesta fase. Acredito que todos os esforços, sejam afegãos, regionais, internacionais, dada a nossa realidade atual, devem focar-se em encontrar um acordo político, uma solução política para um conflito tão antigo, o que não significa um governo unicamente talibã. Dito isto, é possível que possamos chegar a um ponto no futuro, depois de esgotados todos os outros meios, em que não haja outra opção que não recorrer à resistência armada. Há outra teoria que diz que se deve fazer ambas as coisas - fazer uma oposição armada e uma oposição não armada em paralelo aos talibãs, para que se possam ajudar. Eu não vejo, na verdade, a situação no país conducente a essa abordagem de forma que possa ter sucesso, e a razão é que sempre que usamos todos os meios que temos os talibãs vêm e esmagam os civis inocentes para se certificarem de que não há oposição emergente dentro do país. Eles não se importam que ela exista fora do país, desde que não surja no território. Assim, essa teoria da abordagem militar e não militar em simultâneo é, na minha opinião, extremamente prejudicial para o povo e os civis do país.

Em relação às grandes potências: os EUA decidiram sair do Afeganistão, a Rússia, surpreendentemente, movimentou-se no sentido de exercer alguma influência e a China é provavelmente o país que tenta ter mais peso. Podemos falar de um novo tipo de grande jogo, com três potências a tentarem influenciar?
Penso que nenhuma grande potência está totalmente fora de jogo, mesmo depois da retirada militar no ano passado da NATO-Estados Unidos. O Afeganistão é fulcral nesta região do mundo, pois existem demasiadas variáveis que o tornam importante. Em primeiro lugar, é uma questão de segurança e contraterrorismo, pois ainda existem muitas ameaças na região. A questão é como é que os talibãs vão lidar com isso e como vão gerir o assunto. Segundo o acordo de Doha, os talibãs têm de evitar que grupos como a Al-Qaeda usem o Afeganistão como base contra outros países. Agora temos de ter muito cuidado com a linguagem, com cada palavra e com a forma como as coisas são expressas - usar o Afeganistão como base, permitir que os grupos terroristas internacionais se organizem, é uma coisa, mas ver se alguns ex-membros da Al-Qaeda, retirados talvez, vivem no Afeganistão, casaram com pessoas da comunidade local e vivem lá é outra. Isso levanta a questão sobre se o líder da Al-Qaeda morto estava como operacional ativo contra os EUA ou se estava simplesmente reformado... não sabemos. Existe um compromisso dos talibãs, mas a pergunta é até que ponto levam esse compromisso a sério, como é que vão gerir esta situação e de que lado ficarão? Essa pergunta é colocada pelos chineses, pelas suas próprias razões, os russos têm as deles, os iranianos e outros também, até o Paquistão. O Paquistão, que é conhecido por ser tradicionalmente um apoiante dos talibãs, tem uma questão com eles sobre os talibãs paquistaneses.

Todos têm receio de que possa haver alguma espécie de terrorismo?
Enquanto sentirem que pode haver uma ameaça credível à segurança vinda de certos grupos que tenham uma presença dentro do Afeganistão, essa é uma questão com que os talibãs vão ter de lidar.

Mas os Estados Unidos, a Rússia e a China, tendo o mesmo tipo de preocupações, estão mesmo assim em competição no Afeganistão?
Bom, há duas maneiras de abordar isso. Depois do 11 de Setembro, decidiram não estar em competição, decidiram apoiar-se uns aos outros em termos de lutar, ou apoiar a luta, contra um inimigo que todos concordam ser uma ameaça. Talvez uns mais e outros menos... Mas ao longo dos últimos 10 anos esta noção de consenso basicamente desapareceu entre as grandes potências. Os chineses, os russos e outros têm as suas preocupações particulares sobre isso, contra os americanos e o Ocidente. A segurança é uma questão com as grandes potências. Outra tem a ver com a economia, por exemplo na forma como um país como a China se quer conectar com o resto do mundo e com a região. Há alguns anos os americanos tentaram contornar, mas isso basicamente falhou, porque eles estavam a operar num ambiente bastante adverso. Portanto, aquilo que estamos a ver é obviamente competição. Todos eles sabem que o Afeganistão pode ser muito pobre agora mas tem potencial para ser muito rico, devido aos minérios no subsolo. Minérios altamente necessários, que alguns dizem valer 3 biliões de dólares. Isso no futuro pode mudar a natureza da concorrência na região, dependendo daquilo que a China fizer, de como o Ocidente responder e de outros países na zona. Outro aspeto da rivalidade entre as grandes potências tem a ver com os novos cenários este-oeste - o que está a acontecer na Ucrânia, com a Rússia e a China a parecerem agora do mesmo lado, contra o que americanos e europeus tencionam fazer em termos de enfraquecimento da Rússia. Isso tem impacto em países como o Afeganistão, porque esta ainda pode ser uma zona de instabilidade. Desse ponto de vista, o Afeganistão, historicamente, nunca conseguiu ser totalmente livre - com poucas exceções - da influência das potências. Como será o futuro tenho dificuldade em dizer, mas essas duas arenas vão continuar.

Como diplomata afegão e antigo conselheiro de Abdulhah Abdullah, pertencendo a um país com tantos problemas, é possível dizer-se que se sente otimista acerca do futuro?
Estou extremamente preocupado com o futuro do meu país, especialmente dada a negra e desafiante situação humanitária, o facto de as mulheres do Afeganistão não terem acesso aos seus direitos mais básicos, e não estou a falar dos padrões ocidentais desses direitos. Preocupa-me que um país com tanto potencial não o consiga atingir e tirar partido dele, não só para o seu próprio bem, mas também para o bem dos outros. Estou extremamente preocupado com o facto de não termos conseguido encontrar uma solução política estável para os problemas existentes, quer a nível interno quer a nível regional e geopolítico. Historicamente, houve épocas em que o Afeganistão foi um país estável, porque era um Estado-tampão. Num determinado momento foi estável porque era neutral entre o Ocidente e o Leste. Temos de encontrar uma nova estabilidade para o país, e é por isso que falo de uma solução não militar, pois de cada vez que entra em jogo o elemento militar o país desestabiliza. É um país onde mais de dois milhões de pessoas morreram nas últimas duas gerações, a minha geração só viu isso. Tenho idade suficiente para me lembrar dos anos 60 e 70, lembro-me da estabilidade, da paz e do progresso, mas também vi várias fases de declínio e caos. Portanto, quero descobrir um caminho para sair disso através do envolvimento político e de meios pacíficos, mas também compreendo que somos um país muito dependente e temos de nos tornar mais autossustentáveis. Conseguirão os talibãs governar com eficácia? É uma grande pergunta. Conseguirão ser mais abertos? É uma grande pergunta. Conseguirão desempenhar um papel mais construtivo? São todas perguntas com as quais lidamos neste momento. E como fazer com que isso aconteça? Eu vejo uma oportunidade para, realisticamente, tentarmos encontrar uma solução afegã, que poderá não ser a preferida, não ser a melhor, mas que seja uma solução relativamente melhor do que o que temos.

leonidio.ferreira@dn.pt

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