Parece a farda perfeita, de sorriso patriótico ideal e saída de um filme de Hollywood estilo Starship Troopers - só que sem o tom de ironia. Durante meses, Jessica Foster foi a "namorada" digital do movimento MAGA (Make America Great Again). Com mais de um milhão de seguidores no Instagram, a suposta militar norte-americana partilhava fotos em bases aéreas, ao lado de caças e em mensagens de apoio fervoroso a Donald Trump. O problema? Jessica Foster não existe. É um produto de algoritmos de Inteligência Artificial desenhado para explorar nichos políticos e converter patriotismo em subscrições digitais.A conta de Jessica Foster explodiu em popularidade no final de 2025 e início de 2026. Em apenas 120 dias, a "influenciadora" reuniu uma legião de fãs que inundavam os seus comentários com "Obrigado pelo seu serviço" e emojis da bandeira dos Estados Unidos. As imagens mostravam-na em fardas impecáveis, ora como sargento, ora com insígnias de elite que levariam décadas a conquistar. Mas nada disso fez os fãs desconfiarem que algo de errado se passava...Tiveram de ser os veteranos de guerra e especialistas em tecnologia quem primeiro deram o alerta. "Numa fotografia, ela ostentava a insígnia de uma unidade, mas os botões da farda estavam do lado errado ou fundiam-se com o tecido", notou um analista digital citado pelo Washington Post. Outras imagens revelavam os clássicos erros da IA: mãos com seis dedos, medalhas que não existem no exército real e o Presidente Trump com uma fisionomia ligeiramente distorcida em fotos de "encontros" casuais.Do patriotismo ao 'OnlyFans de IA'A investigação ao rasto digital de Foster revelou um modelo de negócio cínico: o objetivo da conta não era apenas a propaganda política, mas o lucro direto. A biografia da "soldado" redirecionava os seguidores para uma conta no Fanvue — uma plataforma concorrente do OnlyFans que se especializou em modelos geradas por IA.Ali, os seguidores eram convidados a pagar subscrições mensais para ver conteúdo "exclusivo" e mais íntimo da soldado. Segundo especialistas em desinformação da Universidade de Boston, este é um caso clássico de AI Slop: conteúdo gerado em massa, sem qualquer base na realidade, que utiliza temas divisivos (como a política ou o nacionalismo) para atrair tráfego e monetizar a atenção de utilizadores menos atentos.Apesar de o rosto de Foster ser gerado por computador, o "mestre de marionetas" por trás dela é humano. De acordo com o Post, a conta está ligada a uma rede de "empreendedores digitais" que operam múltiplas figuras de IA em simultâneo. Estes criadores utilizam ferramentas como o Midjourney e o Stable Diffusion para criar perfis que apelam a nichos específicos — desde o militarismo patriótico até ao fitness — com o intuito de canalizar tráfego para plataformas onde se comercializa a nudez gerada por IA. A identidade real destes indivíduos permanece oculta atrás de empresas de fachada e pseudónimos digitais, aproveitando a falta de regulação sobre a identidade de modelos sintéticos.O problema dos deep fakesEste caso não é isolado. Recentemente, a rede televisiva OAN (One America News) foi criticada por utilizar imagens de recrutas militares geradas por IA em reportagens reais. O perigo destes deep fakes, dizem os especialistas, é que estas "personas" podem ser rapidamente convertidas de modelos de marketing em ferramentas de guerra de informação."Se consegues convencer um milhão de pessoas de que uma pessoa falsa é um herói de guerra, podes convencê-las de quase qualquer coisa", alerta Joan Donovan, especialista em desinformação. O caso de Jessica Foster serve como um aviso: no campo de batalha das redes sociais, nem tudo o que brilha com as cores da bandeira é humano.