A guerra dos símbolos. Lula quer resgatar bandeira, hino e religião

Candidato às presidenciais de outubro recupera as cores verde e amarelo, valoriza canção nacional e recorre a citações cristãs para se contrapor ao monopólio do rival Jair Bolsonaro.

Quem entrasse no pavilhão onde Lula da Silva apresentou a pré-candidatura às eleições de outubro notava algo diferente em relação às tradicionais reuniões do Partido dos Trabalhadores (PT): o vermelho dividia protagonismo com o verde e amarelo da bandeira do Brasil. Depois, o hino nacional foi cantado com surpreendente solenidade. Finalmente, surgiu uma peça de propaganda com citação - "onde houver ódio que eu leve o amor" - da oração de São Francisco de Assis. Não há dúvida: Lula quer recuperar símbolos resgatados, nos últimos anos, pelo rival Jair Bolsonaro.

O DN ouviu a propósito da "guerra dos símbolos", um especialista no catolicismo brasileiro, o líder do movimento que quer mudar as cores da seleção brasileira de futebol, para que ela não se confunda com o bolsonarismo, e um professor de marketing político da Escola Superior de Propaganda e Marketing.

Para Marcelo Vitorino, "esta é uma campanha marcada pelo alto índice de rejeição dos dois principais candidatos, Bolsonaro na casa dos 60% e Lula na dos 40%, por isso, ambos sabem que, para se elegerem, vão ter de buscar votos ao centro, puxar quem não está com eles".

O especialista em marketing político lembra que "Lula perdeu muito apelo entre os evangélicos e entende que precisa recuperar esse eleitorado, em torno de 20% dos brasileiros, mas deve ter cuidado com a dosagem para não soar falso, até porque parece haver pouco tempo - menos de cinco meses - até à eleição para recuperar esses votos".

"Nessa perspectiva, embora ache correta a aposta em valores como o verde e amarelo, o hino, a religião, acho que o Lula devia incidir sobretudo na enorme faixa da população endividada, naqueles assalariados cujo dinheiro não chega ao fim do mês, as classes económicas C, D e E", continua Vitorino. "Porque, se ele acha que essas classes económicas já estão com ele e, por isso, nem precisa investir nelas, isso só revela soberba".

Marcelo Vitorino tem, aliás, percebido erros nos alvos da campanha digital do antigo presidente brasileiro - uma área onde Jair Bolsonaro, candidato à reeleição pelo Partido Liberal (PL), demonstra extrema habilidade. "Ele está a apostar sobretudo no Instagram que, por exigir maior quantidade de dados, é acessível principalmente a classes económicas mais altas, ao contrário de Facebook ou WhatsApp. Por alguma razão Bolsonaro faz as suas lives no Facebook - e por alguma razão Lula está a perder vantagem segundo as últimas sondagens".

Na mais recente, do instituto PoderData, divulgada na quinta-feira, dia 12, o antigo presidente aparece com 42% contra 35% do atual, números mais equilibrados do que em pesquisas eleitorais anteriores.

João Paulo Assumpção, jornalista, cineasta e idealizador de um movimento que quer a seleção brasileira a usar branco e azul, as cores originais, em vez do verde e amarelo, as cores com que se celebrizou, entretanto confundidas com símbolos de apoio a Bolsonaro, aplaude a amplitude cromática da pré-candidatura de Lula.

"Acho absolutamente legítimo e correto ver partidos de esquerda usando as cores amarelo e verde não só nos cartazes de campanha como em comícios e manifestações, porque incomoda-me quando ficam só no vermelho, que não faz parte da nossa bandeira e afugenta muitos eleitores", observa.

"Mas, apesar de já vermos um pouco do verde e amarelo na campanha do PT, campanha que teve a largada oficial no último sábado, ao lado de outros sete partidos de esquerda e centro-esquerda, o vermelho segue predominando", lamenta.

"Com isso, o verde e amarelo continua muito atrelado à extrema-direita que tomou conta do país nos últimos quatro anos. O trabalho para recuperar as cores da nossa bandeira tem de ser de formiguinha e vai demorar anos, talvez uma ou duas décadas, por isso continuo fiel à minha ideia de mudar as cores da seleção brasileira para azul e branco, que, assim como o verde e amarelo, fazem parte da nossa bandeira".

"A extrema-direita diz que o vermelho jamais fará parte dela e entendo a gritaria, mas o azul e branco não, são cores da bandeira que poderiam ser usadas também pela esquerda e os partidos de esquerda deveriam pensar nisso", defende Assumpção.

"O azul é uma cor linda e o branco simboliza a pacificação, precisamos de um projeto nacional voltado a combater as desigualdades e a tentar um diálogo com alguns grupos que apoiam o atual governo, a própria escolha do Geraldo Alckmin vai nesse caminho", afirmou, em referência ao candidato a vice-presidente de Lula, outrora seu rival e considerado um conservador de centro-direita. "A tentativa de passar uma imagem de conciliação e moderação e o azul e branco, muito mais do que o vermelho, vão nessa linha", finaliza.

Para Flávio Sofiati, especialista em Igreja Católica, da Universidade de Goiás, "o campo religioso brasileiro está em disputa". "Predomina entre as lideranças o discurso de direita, mas a base evangélica, por exemplo, é bem menos conservadora do que as suas lideranças", adverte.

O atual presidente tem, ainda assim, mais do que o dobro (52%) das intenções de voto de Lula no segmento (25%), mostra a pesquisa PoderData. Entre os católicos, no entanto, o pré-candidato do PT inverte o cenário: tem 47% ante 30% de Bolsonaro.

"Há grupos à esquerda entre os evangélicos e no campo católico existe a Teologia da Libertação, uma corrente latino-americana próxima dos princípios do Concílio Vaticano II que abre as portas da Igreja católica para a modernidade", sublinha Sofiati. "A Teologia da Libertação, que nasce nos anos 1970, desenvolve-se nos anos 1980, diversifica-se nos anos 1990, assume a perspectiva ecológica na primeira década deste século e ganha nova força com o papado de Francisco, defende a ideia da Igreja como uma grande comunidade cristã, Igreja Povo de Deus, que se concretizou principalmente nas experiências das Comunidades Eclesiais de Base".

Sobre a peça de propaganda de Lula, em que o ecrã surge dividido ao meio - um prato vazio versus um prato cheio de comida, valas comuns abertas durante a pandemia versus um campo cultivado e abundante e o gesto da arma típico de Bolsonaro versus o gesto de um "L", inicial do candidato de centro-esquerda, sob a frase "onde houver ódio que eu leve o amor", da oração de São Francisco de Assis, o académico é crítico.

"O uso, obtuso, de frases de São Francisco na campanha do Lula converge com o discurso do Papa Francisco que tem insistido na necessidade de repensar a economia global - o Papa lançou em 2019 a Economia de Francisco, com o objetivo de mobilizar a sociedade, principalmente os jovens, para reanimar a economia".

As eleições brasileiras, previstas por cientistas políticos como as mais agressivas desde o regresso da democracia ao país, são no dia 2 de outubro.

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