Em adolescente, Sarah Mullally ainda pensou ser cabeleireira, como a mãe, mas o desejo de servir os outros acabou por a levar a escolher ser enfermeira. Uma profissão onde se destacou, chegando com apenas 37 anos a diretora de Enfermagem do Serviço Nacional de Saúde britânico (a mais nova no cargo), sendo distinguida em 2005 com o título de “Dama Comendadora do Império Britânico”, em reconhecimento do seu contributo nesse setor. Mas a vocação para servir o outro acabou também por a levar a querer ser padre, estudando para isso a partir de 1999. Em 2001 foi ordenada diácona, subindo na hierarquia até se tornar bispa de Londres, em dezembro de 2017. Agora, aos 63 anos, vai ser arcebispa da Cantuária e liderar a Igreja de Inglaterra (e, de forma espiritual, de toda a comunhão anglicana).Mullally, que nasceu em 1962 em Woking, é casada e tem dois filhos adultos, será a primeira mulher a ocupar o cargo que já existe há mais de 1400 anos - inicialmente o arcebispo da Cantuária estava ligado à Igreja Católica, com o primeiro arcebispo protestante a ser nomeado em 1533 após a reforma de Henrique VIII. Será a primeira mulher líder de uma igreja que ainda continua dividida em relação ao sexo feminino - cerca de 600 paróquias em Inglaterra (de um total de 12.500) não aceitam mulheres como líderes, sendo que a maior parte das igrejas anglicanas em África nem sequer aceitam a ordenação de mulheres (apesar de o continente também já ter bispas). Na última missa na Catedral de São Paulo enquanto bispa de Londres, Mullally agradeceu por tudo o que aprendeu desde que assumiu esse posto (o terceiro na hierarquia, depois dos arcebispos da Cantuária e de York). “Se não fosse por vocês e por tudo o que me ensinaram, não iria para Cantuária”, disse no domingo. “Nos últimos oito anos, crescemos juntos em sabedoria. Nem sempre foi fácil. Nem sempre acertei em tudo. Vocês desafiaram-me, e eu penso e ajo de forma diferente agora por causa de alguns desses desafios”, referiu, citada pelo Church Times. Mullally foi nomeada em outubro de 2025 como arcebispa da Cantuária depois de o antecessor, Justin Welby, renunciar no final de 2024 no seguimento de escândalos relacionados com a má gestão dos casos de abusos sexuais na Igreja (nomeadamente o de John Smyth, que terá abusado de 130 rapazes em campos de férias). A cerimónia da Confirmação da Eleição da nova arcebispa será na próxima quarta-feira, 28 de janeiro, na Catedral de São Paulo, com Mullally a assumir então oficialmente o cargo. A entronização será apenas a 25 de março, na catedral da Cantuária. A eleição de Mullally não é isenta de polémica, já que também houve denúncias de que não fez o suficiente em relação a um caso de alegado abuso sexual de um padre na sua diocese de Londres. Em dezembro, a bispa disse que as autoridades da Igreja tinham “lidado completamente” com a queixa formal da alegada vítima, depois de a denúncia ter sido feita em 2020. No entanto, a alegada vítima argumenta que nunca recebeu qualquer informação sobre o resultado da queixa e que um email confidencial com a sua denúncia foi partilhado com o alegado abusador. Segundo o jornal Daily Telegraph, Mullally escreveu também ao padre a dizer que as acusações eram “infundadas”. Uma queixa direta contra a bispa pela forma como lidou com o caso foi entretanto rejeitada, mas a alegada vítima recorreu da decisão.Apesar da polémica, Mullally vai assumir a liderança da Igreja de Inglaterra, cuja organização criticou num artigo no jornal Church Times, em fevereiro. “No Serviço Nacional de Saúde tinha clareza sobre a quem e pelo que era responsável, e recebia apoio, era desafiada e avaliada por eles”, escreveu. “Tentei encontrar essa mesma responsabilidade na Igreja, mas parece que não existe”, referiu, falando em “estruturas de governação incoerentes, nas quais vários órgãos que precisam urgentemente de ser integrados atuam de forma independente”. Agora terá o poder de fazer mais mudanças, e não são a nível da organização. Enquanto bispa de Londres, liderou o órgão que estabeleceu a posição da Igreja em relação ao casamentos de casais do mesmo sexo. Este ainda não é autorizado, mas houve uma pequena vitória em 2023, já que os padres são autorizados a abençoar esses casais. Dentro de uma igreja ainda conservadora, Mullally é descrita como “liberal teológica”, apoiando por exemplo a inclusão daqueles que rejeitam a ordenação de mulheres. A nível político, desde que assumiu o cargo de bispa de Londres tinha um lugar na Câmara dos Lordes, tendo criticado por exemplo a política de deportações para o Ruanda, que o anterior governo conservador queria aplicar. Também é contra a lei do suicídio assistido, mas declarou-se “pró-escolha” em relação ao aborto.