"A direita republicana está de volta." E Pécresse quer ser a Merkel francesa

A ex-ministra de Sarkozy e presidente da região de Île-de-France venceu a segunda volta das primárias d"Os Republicanos. É a primeira mulher candidata pelo partido às presidenciais.

Uma mulher que tem coragem, que faz as coisas acontecer, como eu, é alguém que, como Angela Merkel na Alemanha ou Margaret Thatcher no Reino Unido, pode defender os interesses do seu povo", lançava Valérie Pécresse na quinta-feira, ao sair na liderança da primeira volta das primárias d"Os Republicanos. Os militantes parecem ter ouvido a mulher que já se habituou a desvalorizar quando os rivais lhe chamaram "a loira" e ontem escolheram-na mesmo como candidata da direita republicana às presidenciais de abril de 2022 em França. É a primeira vez que o partido escolhe uma mulher como candidata e a ex-ministra de Nicolas Sarkozy, atual presidente da região de Île-de-France está decidida a contrariar os maus resultados de 2017 e a tornar-se mesmo na primeira mulher a chegar ao Eliseu.

"Tenho uma boa notícia, meus amigos, a direita republicana está de volta. Está unida, com soluções, e está pronta para o combate com uma força implacável, porque a França não pode esperar. Ao mostrar-se indivisível, a França volta a ser invencível", garantiu Pécresse na sede d"Os Republicanos, no 15.º bairro de Paris, depois de receber o apoio de todos os antigos rivais. E venceu a segunda volta das eleições internas do partido, face a Éric Ciotti, com 60,95% dos votos dos cerca de 113 mil militantes que participaram numa votação eletrónica. Para trás, na primeira volta, tinham ficado os favoritos, Xavier Bertrand, ex-ministro e atual presidente da região de Hauts-de-France, e Michel Barnier, o homem que liderou as negociações do "Brexit" no lado europeu.

Apesar de uma campanha discreta, mas que os que a conhecem descreveram ao Le Monde como "metódica", Pécresse viu os militantes optarem pela via mais moderada, ditando a derrota do muito mais radical de direita Ciotti - cujas opiniões o colocam muitas vezes nos terrenos da extrema-direita.

Sabendo disso, Marine Le Pen não perdeu tempo e, mal soube da vitória de Pécresse a líder do Rassemblement National (antiga Frente Nacional, de extrema-direita), veio logo a jogo, na esperança de conquistar os votos dos eleitores d"Os Republicanos desiludidos. Le Pen, que em 2017 chegou à segunda volta das presidenciais, vencidas por Emmanuel Macron, e em 2022 volta a ser candidata, garantiu estar "muito triste pelos eleitores d"Os Republicanos". Tudo porque, para Le Pen, Valérie Pécresse é "a mais macronista" dos candidatos às primárias da direita, tendo "um perfil quase idêntico" ao do atual presidente francês.

Também Éric Zemmour, o antigo jornalista que elege os imigrantes muçulmanos como grande mal de França e cuja entrada na corrida para o segundo lugar das sondagens veio baralhar as contas da campanha, não tardou a piscar o olho aos eleitores d"Os Republicanos mais à direita. "Estamos tão próximos e temos tanto em comum", afirmou em comunicado.

A 'loira' boa aluna

Nascida em Neuilly-sur-Seine a 14 de julho (sim, o feriado nacional em França) de 1967, Valérie Pécresse foi criada em Versalhes numa família de intelectuais "um pouco originais", como a própria descreve. Apaixonada por Tolstoi e Dostoievski, aos 15 anos começa a aprender russo e vai para Ialta para um campo da juventude comunista. Mais tarde aprende também japonês, que aperfeiçoa enquanto estudante em Tóquio, em 1986, e no ano seguinte num estágio na Sony.

Aluna de excelência, a própria Pécresse sabe que carrega a imagem da boa aluna. E não gosta. Em 2019 lembrava: "Na minha primeira campanha regional a alcunha que os adversários de esquerda me deram foi "a loira". Depois foi "saia plissada e bandolete"." Casada e mãe de três filhos, aos 54 anos Pécresse lamenta o sexismo que ainda se vive na política francesa. Num perfil da agora candidata, a AFP recordava ontem como esta lamenta que "se um homem grita, é um líder, se uma mulher perde as estribeiras, é histérica".

Ora, num país onde só duas mulheres chegaram à segunda volta das presidenciais - a socialista Ségolène Royal, em 2007, e Marine Le Pen, em 2017 -, nestas eleições Pécresse junta-se à socialista Anne Hidalgo e à própria Le Pen na corrida ao Eliseu. Entre os candidatos declarados está ainda Nathalie Arthaud, do partido de extrema-esquerda Lutte Ouvrière. As sondagens, essas, dão para já Macron e Le Pen seguros na segunda volta. Zemmour surge em terceiro. Num estudo Harris Interactive, Pécresse é quarta, com 11%. Mas ainda há muita campanha pela frente e em 2005 também poucos apostavam na vitória de Merkel.

helena.r.tecedeiro@dn.pt

Mais Notícias

Outros Conteúdos GMG