"A ameaça real futura vem da China e os EUA tudo farão para mitigar a sua influência"

Professor de Filosofia Política e de Estudos Americanos na Universidade de Lisboa, José Gomes André analisa como os Estados Unidos, sob a liderança de Biden, estão a lidar com a crise internacional gerada pela invasão russa da Ucrânia.

Como avalia desempenho de Joe Biden nesta crise internacional gerada pela invasão da Ucrânia pela Rússia?

Biden tem sido uma voz responsável nesta crise. Por um lado, denunciou sem reservas a agressão russa, promoveu internamente a adoção de sanções económicas severas à Rússia e instigou os parceiros europeus a prosseguirem caminho idêntico, numa altura em que existia alguma hesitação nesta matéria. Patrocinou também a aprovação de um significativo pacote de apoio económico e fornecimento de armas para a Ucrânia. Por outro lado, com a sua habitual discrição, tudo tem feito para evitar uma escalada, opondo-se àqueles que de forma leviana exigem uma intervenção militar ou medidas que provavelmente desembocariam num conflito bélico (a adoção de uma "zona de exclusão aérea"). Face ao carácter delicado das circunstâncias, era difícil fazer melhor.

Era de esperar maior apoio dos republicanos ao presidente, mesmo democrata, num momento tão complicado como o atual?

A ala mais radical dos republicanos tem tido um comportamento lamentável, que aliás representa uma traição dos princípios do partido (basta pensar na luta de Reagan contra a União Soviética), partilhando desinformação, mostrando uma incompreensível reverência para com Putin e vendo nesta crise uma oportunidade para criticar a administração democrata. Felizmente também têm surgido algumas vozes dissonantes (destaque para Mitt Romney), com sentido de responsabilidade e lealdade institucional, mas são minoritárias no espaço político. Esta circunstância deve-se à polarização que se verifica no país, a qual revela agora uma das suas facetas mais irracionais: o aproveitamento de qualquer situação que possa fragilizar o adversário, independentemente dos valores em questão ou do interesse nacional.

A América arrisca muito ao centrar atenções na Europa e deixar mais margem de manobra à China no Indo-Pacífico?

As grandes linhas da política externa norte-americana obedecem a estratégias de longo prazo. Há vários anos que os EUA deslocaram o seu foco de interesse da Europa para o eixo Ásia-Pacífico, pelo que esta crise dificilmente alterará essa postura, uma vez que ela assenta numa análise de fundo sobre a ordem internacional futura. Claro que a guerra na Ucrânia domina atualmente o espaço mediático, exigindo uma resposta dos EUA, mas a menos que o conflito assuma proporções de grande monta (estendendo-se a outras regiões e/ou levando a uma intervenção da NATO), esta é ainda aos olhos dos norte-americanos uma questão essencialmente circunstancial. A ameaça real futura vem da China e os EUA tudo farão para mitigar a sua influência (económica, política e também ideológica) nos próximos anos.

É exagerado considerar este choque Ocidente-Rússia como uma Guerra Fria II?

Parece-me ainda prematuro utilizar essa expressão. A Guerra Fria durou mais de 40 anos, incluiu várias situações de conflitos e crises em diversas regiões (Coreia, Vietname, Afeganistão, Cuba, Berlim, Suez...). Já esta crise tem poucas semanas, pelo que é difícil avaliar as suas consequências na ordem mundial. Em todo o caso, mostrou desde já duas tendências importantes: que o imperialismo russo continua bem vivo (e que portanto a Rússia não pode ser vista como um ator secundário na geopolítica); e que o Ocidente, que vinha a dar sinais de dormência e até de alguma desagregação, possui ainda fortes laços cooperativos e capacidade de intervenção concertada. Neste último ponto deve ser destacado o papel da opinião pública, cuja veemência foi essencial para mobilizar os governos de vários países e organizações (como a União Europeia) a agir de forma célere e determinada.

A condição de supremacia mundial dos EUA depende de Vladimir Putin não sair vitorioso da Ucrânia?

Penso que são duas questões distintas. A situação na Ucrânia é ainda demasiado imprevisível para se poder perceber o que seria uma "vitória de Putin" e que ilações o próprio Kremlin daí retiraria. A haver um triunfo russo inequívoco, diria que as consequências mais imediatas terão incidência num contexto europeu, que se tornaria muito instável. Por outro lado, importará perceber como sairá a China desta crise, se com o seu papel reforçado (com maior ascendência sobre a Rússia? Como a grande potência iliberal?) ou fragilizado (sofrerá as consequências de uma crise económica mundial? A sua aproximação à Rússia levará a uma condenação e afastamento do Ocidente? Com que efeitos?). Em todo o caso, a "supremacia mundial" dos EUA já está em transformação - e esta crise apenas se limitará a acelerar esse processo, do qual resultará uma ordem internacional multipolar. A grande prioridade dos EUA é permanecer nesse cenário como um ator influente, capaz de promover a ascensão de parceiros estratégicos e diminuir a margem de manobra das potências adversárias. No fundo, desempenhando o papel de uma liderança responsável, como exemplo de sucesso de uma democracia liberal, mas num quadro internacional muito mais povoado do que nas últimas décadas.

leonidio.ferreira@dn.pt

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