Uma visitante do Museu Memorial da Paz de Hiroxima passa por uma imagem da cidade devastada pelo primeiro bombardeamento atómico do mundo.
Uma visitante do Museu Memorial da Paz de Hiroxima passa por uma imagem da cidade devastada pelo primeiro bombardeamento atómico do mundo.EPA/FRANCK ROBICHON

Nuclear. Uma corrida incessante pela arma de que se diz ser dissuasora

Há nove países com armas nucleares. Só EUA e Rússia têm em prontidão mísseis que asseguram fim da civilização.
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Representantes de 120 países e regiões assistem à cerimónia de homenagem às vítimas do bombardeamento de Hiroxima, um número recorde, mas à qual estão ausentes Estados com armas nucleares como a Rússia, a China, a Coreia do Norte e o Paquistão, prova da multiplicação do poder atómico bem como dos seus riscos. Na última declaração do Boletim dos Cientistas Atómicos sobre o relógio do apocalipse - um cenário criado em 1947 para alertar sobre a hipótese de a humanidade desaparecer - a contagem indica 89 segundos para a meia-noite, o valor mais próximo de sempre do desastre, graças às ameaças da Rússia à Ucrânia.

Ao anunciar o lançamento da primeira bomba atómica, o presidente dos EUA Harry Truman disse que iria instruir o Congresso sobre “como a força atómica poderá vir a ter uma imensa influência na manutenção da paz mundial”. Ou seja, Truman aludiu a um conceito que mais tarde foi cunhado de “força de dissuasão”, o paradoxo de que as potências dotadas de armas nucleares previnem um ataque entre elas por se temer a retaliação com meios semelhantes, assegurando a destruição mútua.

Uma visitante do Museu Memorial da Paz de Hiroxima passa por uma imagem da cidade devastada pelo primeiro bombardeamento atómico do mundo.
A “extremamente cruel” bomba atómica foi lançada há 80 anos

Esta teoria, porém, expõe o mundo a riscos tremendos. Enquanto candidatos à presidência o republicano George W. Bush e mais tarde o democrata Barack Obama fizeram passar uma mensagem igual: “Manter armas nucleares prontas a disparar num piscar de olhos é uma perigosa relíquia da Guerra Fria. Tais políticas aumentam o risco de acidentes catastróficos ou de erros de cálculo”, advertiu Obama. No entanto, apesar de ter defendido um mundo livre de armas nucleares - tendo motivado a entrega do Prémio Nobel da Paz -, nada fez para alterar a política de “lançamento ao alerta”, ou seja, de atacar automaticamente o país assim que sensores de alerta avisam para um ataque nuclear iminente.

Essa política foi instituída na Guerra Fria, depois de em 1946 o Estado-Maior-General dos EUA ter pedido uma avaliação da bomba atómica como “arma militar” - ao que o relatório da comissão constituída por militares e cientistas concluía: “A única alternativa para os Estados Unidos é continuar a fabricar e armazenar armas” para manter a superioridade face a eventuais inimigos. A União Soviética beneficiou dos serviços do físico Klaus Fuchs, que trabalhou no Projeto Manhattan (programa de desenvolvimento das primeiras bombas atómicas) e passou os planos a Moscovo.

Em 1952, quando os EUA anunciam a bomba H, ou bomba de hidrogénio - cujo protótipo equivalia à potência de mil bombas como a deflagrada em Hiroxima -, os militares norte-americanos já tinham 841 bombas armazenadas e a URSS 50. Em 1967, os EUA acumularam 31.255 bombas nucleares, o máximo de sempre. Desde então, o número foi baixando e os acordos sobre desarmamento com a União Soviética/Rússia, que visavam a paridade entre as duas superpotências levou a que, em 2023, cada país tinha em estado de prontidão à volta de 1770 armas nucleares, entre silos e submarinos.

À União Soviética seguiram-se Reino Unido - tinha participado no Projeto Manhattan - em 1952, França, China e Israel nos anos 60, a Índia em 1974 e o arquirrival Paquistão em 1998, e a Coreia do Norte em 2006. No total, estes países são responsáveis por mais de 2 mil explosões nucleares, quer na superfície quer no subsolo. A África do Sul desistiu do seu programa, enquanto o Iraque, a Líbia e a Síria foram forçados externamente a pôr fim aos seus programas clandestinos. Com o desmantelamento da União Soviética, o Cazaquistão, a Ucrânia e a Bielorrússia cederam as suas armas em troca de garantias de segurança. O Memorando de Budapeste assegurava a soberania e independência dos três países por parte dos restantes signatários (EUA, Reino Unido e Rússia).

Minsk entretanto acordou receber armas nucleares táticas no seu território. A guerra na Ucrânia potenciou a tensão nuclear. O líder russo Vladimir Putin, que promulgou no ano passado a mudança da doutrina nuclear de forma a ter uma maior amplitude de uso do seu arsenal, afirma não estar a ameaçar, mas a seguir a política de dissuasão. A Voice of America, antes de ser desmantelada pela administração Trump, contou em dezembro passado 135 ameaças nucleares de Moscovo desde o início da invasão à Ucrânia.

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