11 crimes. CPI da Covid chega ao fim com Bolsonaro acusado

O presidente do Brasil será um dos 30 a 40 indiciados no relatório final, cuja leitura, nesta semana, vai parar o país. Em seis meses, a comissão investigou um ministério da Saúde paralelo, corrupção na compra de vacinas e até experiências com humanos

No país onde, em 1992, uma CPI ajudou a derrubar um presidente, Collor de Mello, e outra, em 2005, abalou a reputação de Lula da Silva, uma nova Comissão Parlamentar de Inquérito, a propósito da ação e omissão do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19, ameaça estremecer Brasília. Após seis meses de trabalho, o relatório final, cuja leitura está marcada para esta semana vai acusar o presidente da República de, pelo menos, 11 crimes.

"Há um consenso de que o Bolsonaro é um mercador da morte", disse o senador Renan Calheiros, relator da CPI, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo a propósito do teor do documento. "A sua trajetória é autoexplicativa: defendeu matar 30 mil brasileiros, inclusivamente o presidente Fernando Henrique Cardoso, idolatra ditadores e carniceiros, como Pinochet, Ustra, Stroessner, Médici, tem vínculos inegáveis com a face mais assustadora da morte, as milícias, e continua a falar em armar a população, em fuzilar adversários". "E, finalmente, foi decisivo, agora, para a morte de milhares de brasileiros", concluiu.

Num momento em que os mortos por covid no país passam os 600 mil, o relatório vai concentrar-se em três momentos: a constituição de um "gabinete paralelo", ou "ministério da doença", que aconselhava o presidente à revelia dos ministros da Saúde, promovendo tratamentos ineficazes e desdenhando da vacinação; o esquema de corrupção na aquisição de vacinas por meio de intermediários inusitados, meses depois de o governo recusar ofertas diretas de grandes laboratórios; e as experiências com seres humanos numa rede hospitalar elogiada pelo presidente. Além de Bolsonaro, mais 30 ou 40 nomes serão indiciados.

Eis, de A a Z, um resumo da CPI.

AMAZONAS

O colapso sanitário no estado do norte do Brasil, com a abertura de valas comuns, em 2020, e a morte em massa de amazonenses por falta de cilindros de oxigénio, já em 2021, foi o mote para o senador Randolfe Rodrigues [ver R] protocolar pedido de instauração de CPI no dia 4 de fevereiro.

BARROS

"É um rolo [esquema] do Ricardo Barros", disse Jair Bolsonaro ao deputado Luís Miranda [ver L], quando este, até então bolsonarista, denunciou desvio milionário na aquisição de 20 milhões de doses da vacina indiana Covaxin. E, de facto, a CPI apurou que todos os funcionários do ministério da Saúde, todas as empresas, de fachada ou não, e todos os lobistas envolvidos no negócio tinham ligação a Barros, o líder parlamentar do governo na Câmara dos Deputados e ministro da Saúde de Michel Temer. Ele será. Com certeza, um dos alvos do relatório.

CALHEIROS

Senador há 26 anos, assessor de Collor de Mello, ministro de Fernando Henrique Cardoso, apoiante dos governos do PT e com largo histórico de suspeitas de corrupção, Renan Calheiros é o típico "político à brasileira". Voltou à ribalta agora, no papel de relator da CPI. Segundo ele, Bolsonaro cometeu 11 crimes.

"DESCONTROLADA"

Como nenhuma senadora foi escolhida pelos seus partidos para integrar a CPI, a bancada feminina conseguiu que cinco delas participassem nas sessões, uma de cada vez, como convidadas. Ao longo da CPI, houve esporádicas acusações de machismo mas o caso mais relevante foi protagonizado pelo ministro bolsonarista Wagner Rosário, que na condição de depoente chamou a (até bastante serena) senadora Simone Tebet de "descontrolada". Horas mais tarde, desculpou-se.

ELEIÇÃO 2022

Aliás, os senadores Simone Tebet, do MDB, e Alessandro Vieira, do Cidadania, catapultados pela exposição mediática da CPI, tornaram -se pré-candidatos à presidência da República em 2022 pelos seus partidos. Outros senadores, pró e contra o governo, foram acusados pelos pares de estarem a fazer da CPI "um palanque eleitoral".

FORÇAS ARMADAS

Não bastasse Eduardo Pazuello, o general paraquedista que se ocupou do ministério da Saúde na fase mais mortal da pandemia, a CPI trouxe à luz a participação no esquema de corrupção na aquisição da vacina Covaxin de uma coleção de coronéis - pelo menos cinco - para desmoralização das Forças Armadas [ver U].

GABINETE PARALELO

Enquanto dois ministros da Saúde, os médicos Luís Henrique Mandetta e Nelson Teich, buscavam, à luz do sol, conduzir o combate à pandemia de acordo com a ciência, nas sombras, outros médicos, adeptos da imunidade de rebanho por infeção, convenciam Bolsonaro das suas teses [ver M]. Mandetta e Teich demitiram-se. E as teorias do "gabinete paralelo", também chamado de "ministério da doença", prevaleceram.

HOMOFOBIA

Num dos momentos mais dramáticos da CPI, o senador Fabiano Contarato, homossexual, casado e pai de dois filhos, ocupou o lugar do presidente da comissão para confrontar o depoente, o disseminador de fake news bolsonarista Otávio Fakhoury, com um comentário homofóbico nas redes sociais. "A sua família não é melhor do que a minha", sentenciou o senador perante o constrangimento do depoente.

INCISO 63

Como base no inciso LXIII (63) do artigo 5 da constituição brasileira, que garante aos depoentes o direito a permanecerem em silêncio, parte das sessões transformou-se em monólogo. Lobistas que tentaram desviar dinheiro das vacinas e milionários que patrocinaram campanhas de desinformação foram alguns dos que usaram e abusaram do direito [ver W].

JAIR BOLSONARO

O presidente da República deve responder por 11 crimes, entre os quais, charlatanismo, curandeirismo e divulgação de propaganda enganosa, por defender remédios ineficazes e atacar a vacina, crimes de infração sanitária, pelo desrespeito ao distanciamento e o estímulo à aglomeração, e de epidemia, que prevê pena de reclusão de 10 a 15 anos a quem "propague germes patogénicos". Além de prevaricação, por ter sabido de esquema de corrupção e não o ter denunciado, e falsificação de documentos, por ter divulgado relatório falso sobre suposta sobrenotificação do número de casos de covid-19. Uma ala da CPI quer ainda levá-lo a Haia por crimes contra a humanidade.

KHALIFA

O senador Luís Carlos Heinze, defensor intransigente de Bolsonaro e da cloroquina, atacou estudo da revista Lancet contra o remédio por ter sido "encomendado por uma atriz pornográfica". Heinze não citou Mia Khalifa mas a essa hora os memes já corriam soltos na internet. Dos EUA, a hoje influenciadora digital publicou até uma fotomontagem a depor à CPI.

LUÍS MIRANDA E LUÍS MIRANDA

Dois irmãos, o deputado Luís Miranda e o ex-funcionário do ministério da Saúde Luís Miranda (sim, têm o mesmo nome), denunciaram irregularidades na aquisição da vacina indiana Covaxin. Causou estranheza o governo querer comprá-la em tempo recorde, através de intermediários com passado pouco recomendável, depois de meses antes se ter recusado a responder a 34 e-mails do prestigiado laboratório Pfizer para negociação direta. O deputado denunciou o esquema a Bolsonaro, que encolheu os ombros e atribuiu o desvio "a um rolo do Barros".

"MACABRA"

Tadeu Andrade, um eleitor de Bolsonaro, realizou uma teleconsulta na rede hospitalar Prevent Senior queixando-se de sintomas de covid-19. Minutos depois, recebeu em casa um "kit-covid" com os remédios ineficazes contra a doença avalizados pelo "gabinete paralelo". Como piorou, foi internado nas urgências da Prevent. Um mês depois, uma médica disse à família que iriam desligar os aparelhos e que o paciente seria submetido a uma dose de morfina para morrer confortável. A família desconfiou que o objetivo da rede era liberar um leito nas urgências, contratou um médico particular e ameaçou contar à imprensa. Nessa altura, a Prevent recuou e manteve-o em tratamento. E Tadeu, hoje de boa saúde e ex-bolsonarista, pôde contar, emocionado, a sua história na CPI. "Uma história macabra", classificou o relator.

NARRATIVAS

"Isso são narrativas", disse por sua vez Marcos Rogério, o senador mais apaixonado na defesa do governo, usando uma das palavras prediletas do bolsonarismo de rede social - "narrativas". Combativo, chegou a chamar a CPI de "circo". "E você é o maior palhaço", retorquiu Omar Aziz, presidente da comissão.

OMAR AZIZ

O presidente da CPI vem do Amazonas, o estado cuja tragédia na pandemia foi o mote de tudo. Experiente, divide-se entre o papel de senador bonacheirão, capaz de dar um sermão simpático ao depoente de ocasião, e o de parlamentar implacável, como quando deu voz de prisão, ao vivo e a cores, a Roberto Dias, diretor de logística do ministério da Saúde e homem de confiança do incontornável Ricardo Barros, por perjúrio.

PERJÚRIO E PRISÃO

O que tirou Aziz do sério foi Dias afirmar que encontrou Luís Paulo Dominghetti, polícia de profissão cujo hobby é vender vacinas contra a covid-19, num restaurante [ver letra V] "por mero acaso". Alegando ter provas de que Dias convidara o polícia-vendedor de vacinas para o jantar, o presidente pediu à polícia do Senado para o prender.

QUEIROGA

O quarto ministro da Saúde na pandemia vive entre duas realidades contraditórias - a ciência e Bolsonaro. Foi duas vezes à CPI, sem assumir frontalmente o que pensa sobre a cloroquina, o remédio fetiche do presidente que é ineficaz para a covid. Com isso, irritou tanto os senadores da oposição, como os alinhados ao governo.

RANDOLFE RODRIGUES

Foi o criador e vice-presidente da CPI. Assertivo e bem informado de cada detalhe das investigações, o senador tornou-se, por isso, um dos alvos preferenciais das redes sociais bolsonaristas. E pela voz aguda e por um certo ar de eterno adolescente, apesar de ter 48 anos e até já ser avô.

SEISCENTOS MIL

O número de mortes na pandemia no Brasil. Segundo o epidemiologista Pedro Hallal, convidado da CPI, 400 mil poderiam ter sido evitadas.

TRIBUNAL DE NUREMBERGA

No dia do depoimento de Mayra Pinheiro, a secretária do ministério da Saúde conhecida como Capitã Cloroquina que tentou vender a droga a Portugal na qualidade de luso-brasileira, o relator Renan Calheiros comparou a CPI ao Tribunal de Nuremberga, que julgou os criminosos nazis. Os senadores governistas irritaram-se e a Confederação Israelita do Brasil repudiou.

"USADO"

Se a CPI desmoralizou a instituição Forças Armadas, com um general e uma mão cheia de coronéis envolvidos em desvios nas vacinas, outro grupo muito próximo do Planalto, os evangélicos, também teve um representante no esquema corrupto. O líder da Igreja Batista Ministério da Nova Vista, reverendo Amilton Gomes, chorou na CPI: "Antes de vir para cá, eu dobrei meus joelhos, orei, e pedi desculpa ao Brasil, porque o erro que eu cometi não agradou a Deus... mas eu fui usado de maneira ardilosa".

VASTO

Se um dia se fizer um "tour da CPI", o restaurante Vasto, em Brasília, será pouso inevitável - foi lá, a 25 de fevereiro, que o ex-assessor do ministério da Saúde, coronel Marcelo Blanco, levou o polícia-vendedor de vacinas Luís Paulo Dominghetti, a um encontro com o diretor de logística do ministério, Roberto Dias, sobre venda de vacinas. Entre um chope e outro, negociaram quanto desviariam para o próprio bolso. Entre um chope e outro, centenas de brasileiros morriam.

WIZARD

Carlos Wizard, suposto financiador do "gabinete paralelo", deixou os senadores furiosos por não responder a uma única questão na CPI graças ao inciso LXIII (63).

XINGAMENTOS

Um dos motivos do sucesso mediático da CPI não foi dos mais edificantes: os insultos constantes. Luciano Hang, um empresário bizarro que aceitou mudar a causa de óbito da mãe, falecida por covid-19, a pedido da Prevent Senior, que a tratara com cloroquina, foi chamado de "bobo da corte" por Renan Calheiros e o senador Marcos Rogério de "palhaço" por Omar Aziz. Mas a maior briga foi entre Calheiros e o senador governista Jorginho Mello - "vagabundo, ladrão, picareta [vigarista]!"

YAMAGUCHI

A oncologista Nise Yamaguchi, membro do "gabinete paralelo", foi acusada de tentar incluir a expressão "recomendada para covid 19" na bula da cloroquina. Ela nega.

ZENAIDE MAIA

Na verdade, a CPI não acaba nesta semana. Uma das senadoras convidadas, Zenaide Maia, instituiu a Frente Parlamentar Observatório da Pandemia. "A intenção é seguir o trabalho da CPI, recebendo documentos e cobrando respostas".

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