Na década de 1990, houve um Clio que arrebatou os corações dos entusiastas da condução desportiva, num modelo que homenageava a parceria então vigente entre a Renault e a Williams e que resultou num binómio dominante nos tempos de Nigel Mansell, Alain Prost, Damon Hill e Jacques Villeneuve..A introdução deste ensaio com tanta evocação dos tempos de Fórmula 1 tem uma lógica: mostrar que a divisão desportiva da Renault, a Renault Sport (R.S., para abreviar) sabe bem como recolher informação da competição e transferi-la para os seus modelos de produção em série..Com a renovação de meio de ciclo da gama Clio em meados do ano passado, a Renault aproveitou também para melhorar de forma ligeira a sua variante mais desportiva, uma vez mais contado com a experiência e sabedoria da divisão Renault Sport. E, como já se percebeu, eles sabem o que fazem. Será este Clio R.S. capaz de fazer reviver as emoções do tão idolatrado Clio Williams?.O que tem de novo?.O renovado Clio R.S. surge com opção única do chassis Trophy, que é como quem diz o mais extremo e pensado para uma utilização em circuito nos track-days. A suspensão com afinação específica (rebaixamento de 20 mm à frente e de 10 mm atrás), as jantes de 18 polegadas e o sistema de escape Akrapovic (opcional), desenvolvido em especial para este modelo, contribuem para uma experiência dinâmica e auditiva muito melhorada..Ao nível da condução, o diferencial e os pneus Michelin Pilot Sport Cup 2 são alicerces que se traduzem num modelo com uma aura dinâmica muito competente, com uma direção precisa que leva o Clio R.S. pela trajetória imaginada com o máximo de simplicidade. A facilidade com que o eixo traseiro segue, de forma eficaz e com rapidez imediata o eixo dianteiro remete para um universo kart que agradará a todos os que procuram uma experiência desportiva. O Clio R.S. é mais exigente e mais recompensador na forma como enfrenta as estradas sinuosas, mesmo que, sob aceleração a fundo e em segunda, por exemplo, se sinta ainda algum do denominado ‘torque steer’ – o efeito no volante da transmissão da potência às rodas dianteiras..Mas isso apenas acontece porque o motor 1.6 Turbo de 220 CV e 280 Nm de binário que equipa este Clio R.S. é uma unidade que impressiona pela forma como responde à maior pressão no acelerador, sobretudo em regimes mais elevados a partir das 2.000 rpm. Sobrealimentado, este motor desenvolvido pela Renault Sport é incisivo na entrega da potência, com uma curva de binário muito forte que lhe oferece uma rapidez que é capaz de colar ao banco. Junte-se a isto uma eficaz caixa automática de seis velocidades EDC de dupla embraiagem (fica a curiosidade de imaginar como seria este modelo com caixa manual) e o Clio R.S. tem uma dimensão próxima à de um pequeno carro de competição. Com comando sequencial através de patilhas atrás do volante, de grande dimensão e fixas, consegue-se obter uma maior ligação com o veículo em termos dinâmicos. Quanto à travagem, o sistema desempenha as suas funções de forma exemplar, com elevada resistência à fadiga..Se em modo Normal, este Renault tem já as suas características vincadas, é no modo R.S. que se obtém ainda mais ‘alma’. Se procurar no sistema RS Monitor, uma preciosidade para os maníacos dos dados e da telemetria (afinal, nunca se sabe quando é que poderá querer cronometrar a aceleração dos 0 aos 100 km/h…), poderá até afinar a resposta do acelerador e personalizar a direção. Coloque o acelerador em ‘Extremo’ e uma ‘patada’ no acelerador é acompanhado de uma colagemao banco. Se gosta de ir para a pista com regularidade pode incluir dados de circuitos para o sistema de forma a que este possa gerir os dados dos mesmos nas aventuras à ‘Alain Prost’ pelos circuitos..Nesse mesmo sistema pode monitorizar temperaturas, valores de binário e de potência em tempo real, pressão do turbo, pressão da travagem, ângulo do volante, regime do motor, binário à roda, acelerações, forças “g” e cronómetro de voltas. Todos os dados podem ser gravados numa pen,para posterior análise no computador de casa – uma hora de condução, por exemplo, ocupa um ficheiro com apenas 3 MB..O seu acerto muito firme tem como compensação algum desconforto para os ocupantes, sobretudo ao nível do eixo traseiro, que é ‘rijinho, rijinho’ e que tem alguma dificuldade em lidar com lombas e desníveis na estrada. O trabalho da suspensão, ainda que muito eficaz nas suas funções dinâmicas, pesa no conforto mais parco, mesmo que seja perfeitamente possível de viver diariamente com o Clio R.S.. Quanto aos consumos, este é um modelo com um ‘apetite’ algo elevado: levando apenas Sem Chumbo 98, os consumos tendem a ser elevados em caso de entusiasmo excessivo do condutor. No nosso ensaio, obtivemos 8,9 l/100 km, o que se distancia dos anunciados 5,9 l/100 km..Exuberância contida.Ainda que seja um desportivo, o Clio R.S. não é espampanante, acabando por ser a cor tradicional da Renault – o amarelo Sirius (extra por 1.600€) a chamar a atenção deste ‘rebelde’, além, claro, das jantes de 18 polegadas. Na frente, um pormenor digno de realce é a composição das luzes diurnas em LED situadas na zona inferior do para-choques, replicando o axadrezado de uma bandeira. O sistema tem a denominação R.S. Vision, inspirado naquele que se viu no ‘exuberante’ R.S.16 criado em meados do ano passado, e integra as funções de faróis de nevoeiro e de iluminação em curva, bem como médios e máximos. Atrás, o aileron superior, o difusor traseiro e as duas saídas de escape Akrapovic mostram revelam que o R.S. não é um Clio qualquer. É um ‘pocket rocket’..No interior, o ambiente é sublinhado pelo volante desportivo (com linha central no topo), bancos desportivos de estilo bacquet(ainda que a posição de conduçao seja elevada) e pedais em alumínio, numa demonstração de que a renovação foi positiva, até porque o modelo foi lançado em 2012. O espaço a bordo está apenas na média do segmento, ficando abaixo daquilo que alguns dos seus rivais oferecem na amplitude nos bancos de trás. O custo de 32.205€ apontado pela Renault faz jus ao seu pendor dinâmico, tratando também de justificar o equipamento adicional, como o R.S. Monitor, cruise control e patilhas no volante, que surgem de série..Veredicto.Aqui tudo gira em torno da expressão eficácia. A Renault renovou os elementos chave do Clio R.S. e com a versão Trophy do chassis oferece um modelo altamente competente e ‘sensitivo’, que graças aos 220 CV de potência do motor se torna numa das escolhas referenciais do seu segmento (no qual rivaliza com propostas como o Peugeot 208 GTi, Opel Corsa OPC, DS 3 Racing e Volkswagen Polo GTI, este último prestes a ser renovado, e um outro, o Toyota Yaris GRMN na calha para chegar). O preço é ligeiramente superior ao de alguns dos seus concorrentes atrás mencionados, mas é também mais potente e algo mais extremo na forma como permite explorar o seu potencial..“Devo comprar?”O segmento dos utilitários desportivos tem visto o seu leque de opções alargar-se com propostas cada vez mais diversas por parte de diferentes construtores. O Renault Clio R.S. insere-se numa área mais vocacionada para os que preferem filosofias mais extremas, mas também muito recompensadoras em condução dinâmica (sobretudo em modo sequencial). Se é isso que procura, sentir-se-á ’em casa’. Essa é uma das suas mais-valias, sem que seja inclemente na utilização do dia-a-dia. O preço, contudo, pode ser dissuasor face a alguns concorrentes.