Sente-se cansado há muito tempo? Tem oscilações de humor? Está mais deprimido? Começou a aumentar de peso e a ter obstipação ou intolerância ao frio? Ou, por outro lado, está com o cabelo muito fino e quebradiço, os olhos mais esbugalhados, a transpirar mais e com tremores ou diarreias, sentindo o pescoço mais dilatado? Sabe que estes sintomas, tantas vezes desvalorizados pela própria pessoa e até por técnicos de saúde, podem significar que a sua tiroide, conhecida como a glândula da vida, não está a funcionar corretamente? É isto mesmo. Dados oficiais, citados pelas sociedades científicas, indicam que um milhão de portugueses vive com estas doenças, mas que 60% (600 mil) não sabem sequer que têm a doença. Por isso, neste Dia Mundial da Tiroide, a Associação das Doenças da Tiroide (ADTI), lança uma carta aberta, que já enviou à ministra da Saúde, Ana Paula Martins, e aos deputados da Comissão Parlamentar da Saúde a pedir que estas sejam declaradas “doenças crónicas”. A presidente da ADTI, Celeste Campinho diz mesmo que “o hipotiroidismo, por exemplo, que é a forma mais prevalecente das doenças da tiroide, é uma doença para a vida, e não está sequer contemplada nas políticas públicas de saúde”, alertando para o facto de esta ser “uma realidade silenciosa”. “Para muitas pessoas é uma doença crónica permanente, com impacto significativo na qualidade de vida, que exige tratamento, vigilância clínica e acompanhamento ao longo da vida”, afirma ao DN. O problema é que para muitos “o hipotiroidismo continua reduzido a uma ideia simplista de ‘problema hormonal’ ou de condição menor, sem reconhecimento proporcional ao peso clínico, social e económico que efetivamente representa.”A representante dos doentes recorda que há doentes que ficam “dependentes de medicação para a vida toda”, já que, em algumas situações, “é difícil manter o doente equilibrado, por vezes o doente mantém um certo desequilíbrio hormonal, permanecendo com uma forma de estar mais depressiva”. Para Celeste Campinho esta é mais uma das razões que justificam a necessidade de as doenças da tiroide serem declaradas como doenças crónicas. “Um doente destes tem necessidade de medicação para o resto da vida ou que esta seja revista de seis em seis meses, de um acompanhamento clínico e vigilância permanentes. Se as doenças fossem consideradas crónicas, a medicação poderia ser requisitada de forma mais célere e haver mais comparticipação. Tudo isto teria um impacto positivo na vida dos doentes”. . A presidente da Sociedade Portuguesa de Endrocrinologia Diabetes e Metabolismo (SPEDM), Paula Freitas, acompanha a ideia de que o dia mundial serve, precisamente, para alertar e sensibilizar a população para estas doenças, aumentando a sua literacia em saúde, e também os profissionais de saúde, embora, salvaguarde: “Se existem diagnósticos é porque são feitos por profissionais diferenciados”. Diagnósticos feitos quando órgãos já estão afetadosMas, a verdade, reconhece, é que em Portugal os diagnósticos continuam a ser feitos “tardiamente, quando a pessoa já está mais doente, praticamente com todos os órgãos afetados”. Uma situação que é explicada, muitas vezes, pelo facto de “os sintomas, pelo menos na fase inicial, serem muito semelhantes aos de outras patologias - e até serem sintomas que a população considera normais para o ritmo de vida que tem (cansaço, stress, etc) ou para a fase em que se encontra (menopausa ou envelhecimento) - o que faz com que as pessoas não procurem logo um médico”. Contudo, alerta a especialista, “devem procurar, porque se o diagnóstico não for feito atempadamente a situação pode evoluir para um caso mais grave”, sublinhando: “O impacto destas doenças vai muito além do metabolismo. Quando não diagnosticadas ou inadequadamente controladas, as doenças da tiroide podem comprometer a qualidade de vida, a saúde mental, a fertilidade, a gravidez e até aumentar o risco cardiovascular.”Confrontada com a questão se deveria existir um rastreio nacional, Paula Freitas diz que tal “ainda não é unânime”, lembrando que “os clínicos também devem estar atentos e pensar que as patologias da tiroide podem ser a causa de todos estes sintomas”. A médica esclarece que quando se fala em doenças da tiroide se deve pensar em “vários tipos”. Por um lado, as que resultam de “alterações da disfunção da tiroide, como a tiroide a funcionar menos, hipotiroidismo, ou a tiroide a funcionar demais, hipertiroidismo” ou as que resultam de “patologia nodular, nódulos na tiróide, que podem ser benignos ou malignos”. Ou seja, “há que perceber que quando se fala de patologia da tiróide há um universo muito grande de doenças que têm de ser equacionadas”. Para Celeste Campinho, um rastreio nacional faz todo o sentido, justificando que, por isso mesmo, “no Dia Mundial da Tiroide tentamos sempre fazer rastreios num ponto do país. Este ano, será no centro comercial Ubo, na Amadora, esta segunda-feira, dia 15, a partir das 9h00. No ano passado, foi no Norte Shopping, no Porto, mas um rastreio com cobertura nacional seria completamente diferente, embora a associação não tenha estrutura para isso”. No entanto, um diagnóstico atempado só depende de um doente perceber que tem sintomas que se enquadram nestas doenças ou de o técnico de saúde estar mais alerta para estas, porque “basta a prescrição de análises para se perceber como é que a tiroide está a funcionar”, diz Celeste Campinho. . A presidente da SPEDM, Paula Freitas, insiste: “É muito importante que as pessoas estejam atentas aos sintomas e percebam se são persistentes ou não, porque uma coisa é alguém que tem um sintoma que pode ser comum a várias doenças, outra é a persistência da sintomatologia. E se esta existe deve-se procurar um clínico. E não falo só do médico de família. Por exemplo, quando um doente vai ao cardiologista queixar-se da sua frequência cardíaca, que pode estar baixa e a provocar fadiga, ou uma mulher vai ao ginecologista porque tem irregularidades menstruais ou dificuldade em engravidar ou até porque já teve abortos de repetição, estes especialistas também têm de estar atentos e equacionar que a causa de tudo isto pode estar numa alteração do funcionamento da tiroide”. As doenças da tiroide e a nutrição Para esta médica uma das mensagens a deixar neste dia é às mulheres, já que são estas que mais frequentemente são afetadas por doenças da tiroide, e uma outra, já para todos os doentes, é sobre a importância da nutrição, que foi o tema escolhido para debater este ano, neste dia. “É muito importante que a sociedade se foque nesta relação entre doenças da tiróide e nutrição. É uma relação poderosa, porque quem tem doenças da tiroide deve ter um padrão de vida equilibrado, com uma dieta mediterrânea, e sem tabaco, porque o fumo é muito mau para a tiroide”. Paula Freitas explica que o mote deste ano “As Doenças da Tiroide e a Nutrição” foi a opção para que a população tenha consciência do que deve fazer, sem seguir “aquilo que erradamente é dito em fóruns da internet sem base científica, destacando que “uma das coisas que é muito recomendada nestes fóruns são os suplementos, quando se tem todos os micro nutrientes de que a tiroide precisa para funcionar bem numa alimentação correta”. Por exemplo, especifica, “o iodo é essencial para a formação das principais hormonas tiroideias - que são a tiroxina (T4) e a triiodotironina (T3), mas para isto só é preciso que as pessoas ingiram alimentos com iodo, como peixe, marisco ou sal, na quantidade certa. Não é preciso que façam suplementação de iodo, porque este em excesso também faz mal. Outro elemento muito importante para as tiroideias é o selénio. As pessoas devem comer alimentos como castanha do pará, peixe, carne, ovo, mas não fazer suplementos. Em relação ao ferro e ao zinco é a mesma coisa”. Aliás, sustenta, a “suplementação só deve ser feita quando o médico considerar que é necessária depois de ver os resultados das análises”. Paula Freitas reforça que “se muitos destes suplementos são tomados de forma desregulada, sem monitorização ou vigilância médica, é prejudicial para a saúde”. Por isso mesmo, refere que outra mensagem a reter no dia de hoje é: “Tenha uma nutrição adequada para ter boa saúde.” Para Celeste Campinho, “o importante é as pessoas estarem atentas aos sintomas, há uma grande percentagem de doentes por diagnosticar, e quando sentem que não estão bem peçam ao médico análises de rotina, porque se olharem pela vossa tiroide estão a cuidar da vossa vida”. E volta a reforçar que o reconhecimento do “hipotiroidismo como doença crónica não é apenas uma questão simbólica ou conceptual. É uma decisão necessária para garantir maior coerência nas políticas de saúde, melhor enquadramento assistencial, maior literacia, valorização adequada dos sintomas persistentes e acompanhamento clínico mais estruturado”.Como sublinha, esta situação não é nova para outros sistemas de saúde europeus, onde “estas doenças já têm enquadramentos específicos associados à sua natureza prolongada e à necessidade de terapêutica contínua”. Em Inglaterra, por exemplo, refere, “as pessoas com hipotiroidismo que necessitam de tratamento podem requerer um certificado de isenção que lhes permite aceder gratuitamente às prescrições médicas no NHS (National Health System). Não se trata de um modelo diretamente transponível para Portugal, mas demonstra que a natureza crónica e continuada da doença já é reconhecida, noutros contextos, para efeitos de proteção concreta dos doentes”.A ADTI “considera fundamental que o Governo e a Assembleia da República promovam uma reflexão concreta sobre o reconhecimento do hipotiroidismo como doença crónica, com impacto nas políticas públicas de saúde e na organização da resposta assistencial”..Conheça dos sintomas Hipotiroidismo: Queda de cabelo ou muito fino; depressão, obstipação, colesterol alto, edema, fadiga, sensação de ter uma nuvem na cabeça, visão deficiente, aumento de peso, má circulação e dormência nas mãos e pés, problemas digestivos crónicos, ple e cabelos secos/quebradiços, dores de cabeça matinais.Hipertiroidismo:Queda de cabelo ou cabelos finos, olhos esbugalhados, aumento da transpiração, arritmia cardíaca, tremores, diarreia, tiroide aumentada. .Curry Cabral realiza primeira cirurgia à tiroide com recurso a robô.Os distúrbios da tiroide dominam o corpo todo