Em junho, os Centros de Orientação de Doentes Urgentes (CODU) receberam 141.017 chamadas, face a 133.013 registadas no mesmo mês de 2025, representando mais 8004 chamadas (+6,0%), cerca de mais 267 chamadas por dia. Os dados foram disponibilizados ao DN pelo Instituto Nacional de Emergência Médica (INEM) com a explicação de que esta atividade “demonstra que uma parte relevante das ocorrências está associada ao agravamento de doenças crónicas e a situações de doença aguda potenciadas pelas temperaturas elevadas”. Uma justificação que confirma o que foi dito pelo Ministério da Saúde (MS) e pela Direção-Geral da Saúde (DGS), em conferência de imprensa, na semana passada, sobre as implicações do calor, sobretudo nos grupos vulneráveis (crianças, idosos, doentes crónicos e sem abrigo), assumindo a possibilidade de um aumento na mortalidade. A Secretária de Estado da Saúde, Ana Povo, garantiu haver plano de resposta nas unidades do Serviço Nacional de Saúde (SNS) e a DGS publicou um guia de medidas para os municípios apoiarem no combate ao calor, mas, quando se trata da resposta em socorro de emergência, o Sindicato dos Técnicos de Emergência Pré-Hospitalar (STEPH)e o Sindicato dos Médicos do Norte (SMN), que integra a Federação Nacional dos Médicos, lembram que “cada segundo conta para salvar uma vida”. Ao DN, os líderes de ambas as estruturas confessaram estar “preocupados com a realidade no terreno” e com o facto de não ter “havido sequer reforço nas zonas balneares, como aconteceu sempre em anos anteriores”, como afirma Rui Lázaro, presidente do STEPH. A presidente do SMN, e vice-presidente da Fnam, Joana Bordalo e Sá, alerta para o facto de a falta de médicos ser um problema no socorro de emergência, durante todo o ano e não apenas no verão. “O INEM só tem atualmente 22 médicos no quadro. Perdeu profissionais nos últimos dois anos e para manter a sua atividade está dependente de 164 médicos em prestação de serviços. Um serviço que é essencial para salvar vidas não pode funcionar assente numa dependência tão grande de prestadores de serviço. Isto, sim, é dramático”.O DN confrontou o INEM com a falta de reforços de recursos humanos, inclusive nas zonas balneares durante o verão, como Lisboa e Vale do Tejo e Algarve, pedindo números para se perceber em quanto tinham sido reforçadas estas áreas e em que classes profissionais. A resposta enviada é genérica, referindo que “o aumento da atividade é um desafio” e que “o INEM acompanha permanentemente a evolução da atividade operacional e adapta a resposta às necessidades identificadas”, dando como exemplo o Algarve, onde “foi implementado um Plano de Reforço Operacional para o verão de 2026, em vigor até ao final de setembro, que contempla o reforço dos meios de emergência médica em Aljezur, Vila Nova de Cacela/Vila Real de Santo António, Lagoa, Lagos e Albufeira/Loulé”.O presidente do STEPH garante ao DN que “não houve reforço em nada, o que deve ter sido feito foi a contratação com parceiros de postos de emergência médica, na prática ambulâncias de reserva que passam a ter a designação de posto de emergência médica, associado a um sistema de financiamento mais atrativo e com subsídio fixo mensal”. A questão, sublinha Rui Lázaro, “é que não houve reforço de recursos humanos e isso está nas próprias escalas de serviço”. Alerta que, nos últimos meses, até na região norte, aquela em que os quadros de pessoal estão completos, “se têm registado cada vez mais problemas a nível da triagem e de georeferenciação, que dificultam o envio de meios”. Isto porque, sustenta, “a alteração do sistema informático nas centrais de emergência no último mês trouxe constrangimentos que já não existiam”, como “o aumento de chamadas em linha de espera para atendimento, durante muitos minutos, e maior dificuldade em encontrar ambulâncias disponíveis para enviar para as ocorrências, sobretudo nas áreas de Lisboa e Algarve”. Rui Lázaro dá ainda conta de que “recentemente, aconteceu isto com um doente em Vila Real, e o esteve muito tempo à espera de socorro”. O representante dos técnicos garante que, nas últimas semanas, tem recebido “muitas denúncias de colegas em relação ao facto de haver dias em que, em determinados momentos, há cerca de 40 a 50 chamadas em espera para atendimento, o que já não acontecia desde o ano passado, quando o INEM contratou cerca de 200 técnicos. “Salvo erro, foram 192 técnicos que iniciaram funções em julho de 2025 e, desde aí, os tempos de resposta nas centrais estavam ótimos, não havia registo de chamadas em linha de espera. Agora, há. E isso deixa-nos muito preocupados”. Para o dirigente sindical, esta situação também tem a ver com o facto de terem sido aprovadas medidas para o funcionamento do INEM sem estas terem sido discutidas com quem está no terreno. “Não houve processo de negociação com quem está no terreno sobre a reforma no INEM”, critica, destacando até que, “nas medidas anunciadas, não há sequer uma única que permita a redução das assimetrias existentes no país”. Isto apesar de ter estado “previsto um plano para reduzir as assimetrias existentes nesta área”, já que “as populações do interior, que estão mais isoladas, deveriam ter a mesma resposta que a restante população, mas todos os dias têm de lidar com o facto de todos os hospitais de fim de linha estarem no litoral, a muitos quilómetros de distância, e de estarem dependentes de hospitais distritais que não têm todas as valências e com menos meios de emergência”.Assimetrias permanecem e frota avariada segue à espera de ordem de reparaçãoO dirigente chama também a atenção para “as implicações negativas” que podem ter algumas medidas constantes no decreto-lei da nova Lei Orgânica do INEM, aprovada pelo governo a 7 de maio, em Conselho de Ministros. “Na semana passada, demos conta de várias situações ao Presidente da República, durante uma reunião, para que esteja ciente do que pode acontecer ao INEM e ao socorro em emergência pré-hospitalar se esta lei for para a frente e se alguns serviços forem privatizados, como a própria formação aos técnicos”.Por agora, a preocupação imediata do STEPH e do SMN, sobretudo com o calor a aumentar, “é a morosidade do novo sistema informático que aumenta a morosidade da triagem”. Rui Lázaro explica que o modelo de triagem, agora a funcionar em pleno, “está assente na Triagem de Manchester, em vigor nas urgências hospitalares, mas também na emergência nos Açores, de onde veio o atual diretor do INEM [Luís Mendes Cabral]. “Só que as características dos Açores são muito diferentes das do Continente”, defende o técnico. Aliás, recorde-se, que a entrada em vigor da triagem de Manchester na emergência em Portugal continental recebeu críticas de vários especialistas, incluindo médicos, até por se tratar de uma triagem presencial, quando a da emergência é telefónica. E, para Rui Lázaro, o novo sistema informático ainda “traz mais morosidade, mais complexidade e menos assertividade na localização das ocorrências e no envio de meios”, sublinhando: “Os nossos sócios têm dito que este sistema aumenta o risco de errar, porque um procedimento que antigamente era feito com um ou dois passos, passa a ser feito por sete, oito ou nove passos. Portanto, aumenta risco de erro e perde-se mais tempo”.O dirigente sindical volta à questão da frota de ambulâncias e de outros meios parados por avaria. Segundo explica, “o conselho diretivo está a atrasar ordens de reparação das viaturas de reserva, que deviam estar prontas para substituírem as que deixam de funcionar. Na prática, cada vez que uma ambulância ou uma viatura médica avariam, quem está no terreno espera muitas horas até conseguir uma viatura de substituição”. Questionado sobre se isto não acontecia antes, Rui Lázaro diz que, “apesar da frota do INEM estar envelhecida, muitos dos meios circulavam e tinham reparação, mas, neste momento, é do nosso conhecimento que há, no país, dezenas de ambulâncias paradas por falta de reparação”. Números concretos não tem, mas garante que “só numa oficina no Porto há 40 viaturas à espera de reparação. Em Lisboa, há outra com 30 viaturas. O INEM diz ter cerca de 500 viaturas, mas só cerca de 100 ambulâncias e mais 44 viaturas médicas estão operacionais, sendo que deveria haver 250 de reserva para substituição. Só que não há. Estão em oficinas à espera de reparação”.Para a presidente do SMN a preocupação imediata “é os utentes ficarem sem resposta ou que essa resposta tenha consequências fatais, não se conseguindo salvar vidas porque o socorro chegou tarde demais. Ou melhor, a nossa preocupação é que haja cada vez mais casos destes, que se traduzem-se em duas coisas: uma é a impossibilidade de sobrevivência, a outra, mesmo sobrevivendo, as sequelas que deixam a um doente com enfarte ou AVC”. Joana Bordalo e Sá explica que na reunião com o STEPH, na semana passada, “entendemos que são precisas equipas completas e estáveis e carreiras atrativas para os profissionais, senão a emergência está em risco”.Por outro lado, argumenta, no caso da formação, “o caminho que está a ser seguido é o da privatização, retirando-a aos docentes médicos das faculdades públicas, o que deveria ser importante para manter padrões de qualidade técnica e científica”. A sindicalista reforça que “a preocupação conjunta com o STEPH é a situação que o INEM atravessa: negociações arrastadas com o MS, quando [a ministra] Ana Paula Martins disse que iria dedicar 70% do seu tempo aos problemas do instituto; ausência de uma estratégia consistente e desinvestimento nos meios. Situações que este governo já teve tempo suficiente para resolver”. O DN questionou o INEM sobre as críticas feitas, mas não obteve qualquer comentário a estas. No caso da triagem, apenas foi referido que “todas as chamadas são sujeitas a triagem clínica, sendo assegurada a priorização das situações de maior gravidade, garantindo que os recursos disponíveis são mobilizados”. .INEM está a "apurar as circunstâncias" da morte de uma jovem de 20 anos em Vila Real.Técnicos do INEM avisam ministra que socorro de emergência “não pertence a governos” ou a “interesses económicos”