Eleições americanas: uma declaração pessoal de princípios éticos

Os Estados Unidos estão a viver um momento particularmente tenso e difícil da sua história. Dentro de dias teremos uma das mais determinantes eleições em dois séculos e meio de existência como nação independente. Nesta altura da campanha eleitoral, já praticamente todas as pessoas tomaram a sua decisão e cada qual votará segundo a sua consciência (aliás, muitos de nós até já votaram). Por isso, com esta minha crónica não espero convencer ninguém a alterar o seu ponto de vista. E, todavia, sinto-me impelido a vir fazer publicamente algo que nunca antes ousei na minha vida: uma declaração de voto.

Tenho o maior respeito pelos valores que levaram à criação do regime pioneiro da democracia moderna, ainda antes da Revolução Francesa - os Estados Unidos da América. Nenhuma democracia é perfeita, mas, como Winston Churchill afirmou, "é o pior de todos os sistemas políticos, exceptuados todos os outros". Foram estabelecidas e institucionalizadas regras de conduta, leis, normas - com uma característica básica: o facto de serem aplicáveis a todos os cidadãos, qualquer que seja o lugar que ocupem na pirâmide social. Há, porém, um conjunto de valores que nunca foi legislado por se tomar como implícito em tudo o resto, sendo parte de um código de convivialidade humana: o respeito pelo outro, pelo direito de cada pessoa à sua dignidade e bom nome, o direito a ser tratado com a devida consideração.

Mas há mais: hoje, a ciência tem os seus altamente rigorosos processos de estabelecer consensos entre os especialistas sobre o que parece ser o conhecimento mais seguro, porque demonstrado empiricamente e por ter produzido visíveis resultados ao longo dos séculos. Os poderes políticos não têm o direito de manipular a seu bel-prazer a verdade consensual entre os especialistas e profissionais das respectivas áreas. O respeitabilíssimo especialista Dr. Anthony Fauci, que serviu impecavelmente presidentes de ambos os partidos, agora é repetidamente insultado - "he is a disaster!" - por não se deixar vergar às pressões de Trump, que quer que ele distorça os factos para servir os seus interesses eleitorais.

Todos estes valores têm sido pervertidos nos últimos quatro anos. A figura que neste momento ocupa o mais elevado cargo do país, e que deveria constituir um exemplo de cidadania, mente sistematicamente (há equipas bipartidárias, especializadas em confrontar as afirmações do presidente com a realidade, e têm publicado as suas conclusões: o número de falsas declarações suas já ultrapassa 20 mil!), ele amesquinha e insulta sistemática e grosseiramente todos os que se lhe opõem, faz denúncias infundadas sobre a vida de pessoas, não estuda os dossiês que especialistas lhe apresentam, está convencido de que sabe tudo e diz abertamente que só ele - e ele sozinho - é capaz de resolver os problemas da América. Passa horas infindas dos seus dias a ver televisão e a enviar mensagens no Twitter, numa linguagem de adolescente, apresentando a realidade a seu modo, preocupado apenas com a defesa dos seus próprios interesses, e distorcendo os factos conforme as suas conveniências, sem se preocupar minimamente com a verdade. Nem os veteranos feridos, prisioneiros de guerra, ou nela falecidos escapam aos insultos - eles são meros losers, isto é, simples perdedores. Mais: em vez de procurar unir o país como qualquer presidente anterior sentiu ser a sua missão, instiga o divisionismo.

Para justificar estas minhas afirmações, não preciso de ir além daquilo que me é dado ver e ouvir da própria boca do actual presidente dos EUA - e de observar como ele se comporta. Mas temos informações de dentro, porque elas foram tornadas públicas: os testemunhos de colaboradores que acreditaram nele, o defenderam quase fanaticamente e, depois de trabalharem com o presidente durante meses ou mesmo anos na Casa Branca, desistiram e escreveram livros a contar a sua desilusão, narrando em pormenor e demonstrando como tudo aquilo que conseguimos depreender através da televisão, lendo os tweets e ouvindo as entrevistas do presidente, nem de longe se aproxima da realidade testemunhada por quem lida com ele de perto.

A lista dessas figuras é considerável. Li muitos dos seus testemunhos em livros e escritos diversos, entrevistas, artigos de toda a ordem, assinados por quem foi incondicional apoiante do presidente e que hoje vem avisar-nos de estarmos em presença de um ser extremamente perigoso, sem princípios, sem o menor escrúpulo em mentir e capaz até de usar as convicções religiosas dos cidadãos americanos, fingindo-se aliado de crentes mas escarnecendo-os à porta fechada. Um dos mais devastadores documentos a desmascarar o actual presidente foi subscrito recentemente por um grupo de generais (um dos quais, honra lhe seja feita, o filho de um emigrante de Rabo de Peixe, Paul J. Selva, ex-vice-presidente do Joint Chiefs of Staff. "Como americanos, [diz o documento] deveríamos estar assustados e profundamente receosos pelo futuro do nosso país. [...] Trump está a intervir activamente para destruir cada uma das maiores instituições deste país." Cito apenas.

Se as instituições americanas não tivessem acumulado mais de dois séculos de experiência democrática, o actual ocupante da Casa Branca já teria transformado este país numa ditadura, já que não lhe assiste o mínimo respeito pelo processo democrático. Apenas um exemplo: até William Barr, seu actual attorney general (o equivalente em português a ministro da Justiça), que por sinal foi escolhido para substituir quem não estava a tomar as decisões que o presidente pretendia (portanto, selecionado sobretudo para o proteger), até este tem sido criticado publicamente porque o presidente exige que ele tome atitudes contra opositores seus que o attorney general considera impróprias. Idêntica situação é a de Mike Pompeo, secretário de Estado, seu fidelíssimo colaborador e contra quem se volta agora a ira do líder.

Para o presidente que hoje governa este país, não há leis; há apenas os seus interesses e os da sua família. E nem vou falar dos 750 dólares de impostos que ele tem pago anualmente. Qualquer pessoa decente teria vergonha. Não ele. Aliás, prometeu, ainda antes da eleição de 2016, tornar públicas as suas declarações de impostos, todavia nunca o fez, alegando razões que têm sido abertamente desautorizadas pelo próprio IRS. Tendo feito a promessa eleitoral de ir para Washington "to clean the swamp" - limpar o pântano -, acabou criando o seu pântano, muito mais corrupto do que os anteriores. Está tudo publicado por aí, em livros que merecem ser lidos. E basta ver quantos dos seus colaboradores, por ele mesmo nomeados, estão hoje na prisão, ou a contas com os tribunais. Uma lista nunca antes igualada.

Mesmo que o presidente apregoe ter operado um milagre económico (um perfeito exagero porque a economia não é o mercado de acções, que favorece sobretudo a camada mais rica da sociedade), há valores que não podem ser desprezados nem adulterados. E há coisas na vida de uma sociedade muito mais importantes do que o mercado de acções.

Os EUA merecem um presidente que honre dignamente as tradições democráticas e os valores civilizacionais que este país sempre defendeu. As mais respeitadas nações do mundo (claro que nesse grupo não estão incluídos os regimes ditatoriais) hoje olham com tristeza e desilusão para nós, pois viram os EUA como um farol do futuro e presentemente têm pena - e até desdém -, se bem que muitas vezes esquecendo-se, é claro, de que o mesmo lhes poderá acontecer se não tomarem as devidas precauções. Na verdade, as democracias modernas terão de se preparar para perigosos descalabros como este que ameaça a vida nos EUA e em todo o globo. Acredito, contudo, que está ainda nas nossas mãos agir e pôr cobro a tanta devastação.

Escrevo como cidadão convicto dos valores da verdade, da justiça, da liberdade, da paz e da dignidade humana. E como americano, que também sou, não como membro de qualquer partido.

Basta! Dump Trump! Urge regressarmos a uma vida cívica civilizada.

Escreve de acordo com a antiga ortografia

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