A campanha já começou e Corbyn quer debater com Boris

O líder do Labour, Jeremy Corbyn, desafiou o primeiro-ministro e líder do Partido Conservador, Boris Johnson, a participar em debates televisivos com vista às eleições antecipadas de 12 de dezembro.

O Parlamento ainda não foi dissolvido, os partidos ainda não publicaram os seus programas e a campanha para as eleições antecipadas de 12 de dezembro no Reino Unido ainda não arrancou oficialmente. Mas é como se tivesse arrancado. Não é difícil de adivinhar qual será o tema principal, embora alguns partidos não o admitam: o Brexit.

Nesta quarta-feira, Jeremy Corbyn, que tem permanecido ambivalente em relação a tudo o que tem sido dito, votado, negociado, aprovado e rejeitado no que respeita à saída do Reino Unido da União Europeia, desafiou Boris Johnson para debates televisivos durante a campanha.

"Tal como solicitámos a Theresa May, mas ela recusou, vamos desafiar Boris Johnson a concordar com um debate televisivo durante esta campanha", disse um porta-voz do líder da oposição trabalhista, citado pela Press Association e o The Guardian. Questionado sobre se Corbyn aceitaria também debates com a líder dos liberais-democratas, Jo Swinson, o porta-voz disse: "Estamos em conversações com as estações de televisão. Mas só duas pessoas podem chegar a primeiro-ministro no final da campanha. Penso que os britânicos têm o direito de os ver num frente-a-frente televisivo a dizer o que defendem."

Os liberais-democratas, que têm vindo a subir nas sondagens, poderiam disputar o segundo lugar com o Labour de Corbyn. Na última sondagem disponível realizada antes de a Câmara dos Comuns aprovar, na terça-feira, eleições antecipadas, o Partido Conservador de Boris Johnson surge com 40% das intenções de voto e o Labour com 24%. Os liberais-democratas de Swinson surgem com 15% e o Partido do Brexit de Nigel Farage com 10%. O Partido Nacionalista Escocês (SNP) de Nicola Sturgeon recolhe 5% das intenções de voto e os Verdes ficam-se pelos 3%.

Os liberais-democratas poderão aliar-se a outros partidos pró-Remain, como o SNP escocês, o Plaid Cymru galês ou os Verdes, apresentando nas circunscrições o candidato do partido mais bem posicionado, abstendo-se os outros de apresentar candidatos rivais nessa mesma circunscrição.

Isso mesmo admitiu já nesta quarta-feira o líder do Plaid Cymru, Adam Price. "A crise do Brexit mostrou que Westminster não conseguiu estar à altura. Os conservadores e o Labour estão divididos e não estão a oferecer as soluções que precisamos. O Plaid Cymru é um partido de princípios e nós dissemos de forma consistente que o País de Gales está melhor dentro da União Europeia. É por isso que, como o principal partido pró-Remain do País de Gales, estamos abertos a trabalhar com outros para assegurar o futuro da Europa", declarou Price, citado pelo The Guardian.

Em agosto, uma aliança entre estes partidos nas eleições intercalares de Brecon e Radnorshire deu a vitória à candidata liberal- democrata e pró-UE Jane Dodds contra o conservador Chris Davies. "Pode ser uma eleição, a nível local, cheia de coligações. Se o favorito for alguém do SNP, será ele o candidato, os outros retiram-se... Já fizeram isso numas eleições intercalares", recordou nesta quarta-feira de manhã Bernardo Ivo Cruz, editor da The London Brexit Monthly Digest e ex-presidente da Câmara de Comércio e Indústria Portuguesa no Reino Unido, na tertúlia Brexit, que Brexit?, organizada pelo DN e pela TSF na Universidade Católica em Lisboa.

Talvez numa tentativa de charme, não se sabe com que efeitos possíveis, Corbyn tirou da cartola nesta quarta-feira a promessa de que aceitaria, a longo prazo, um novo referendo sobre a independência da Escócia. "Numa fase muito posterior, obviamente dentro dos limites da devolução, se o Parlamento escocês o solicitar, poderia haver um referendo. Deixo-o muito claro: sou contra a independência da Escócia e não sou a favor de um novo referendo em breve."

Em 2014, os escoceses votaram contra a independência, por 55,3% contra 44,7%. Este referendo, que tem de ser autorizado pelo governo e pelo Parlamento britânicos, teve luz verde do então primeiro-ministro do Reino Unido, o conservador David Cameron. O mesmo que autorizou o referendo do Brexit, realizado a 23 de junho de 2016, com o resultado de 52% para o Leave (sair) e 48% para o Remain (ficar).

Ao longo dos infindáveis debates parlamentares sobre o Brexit que têm ocorrido na Câmara dos Comuns, o líder parlamentar do SNP, Ian Blackford, sempre afirmou que, se houver saída do Reino Unido da UE, a Escócia realizará um segundo referendo sobre a sua independência para, dessa forma, poder continuar na UE. Isto porque na consulta popular de 2016 o Brexit não ganhou em todo o Reino Unido: Escócia e Irlanda do Norte votaram pelo Remain.

"Isto não vai terminar a 31 de janeiro", sublinhou Bernardo Pires de Lima, investigador do Instituto Português de Relações Internacionais da Universidade Nova de Lisboa, na tertúlia DN-TSF. "Isto já nem é Brexit, é mais um englexit. A Irlanda do Norte é o dano colateral deste processo todo. A Escócia é uma das próximas etapas do dano colateral de tudo isto. A Escócia não vai aceitar sair da UE e poderá caminhar para um choque constitucional do género Catalunha, embora sem tanta violência, se o Parlamento central [em Londres] recusar um novo referendo sobre a independência. O Partido Conservador é um partido essencialmente inglês", notou o especialista em assuntos europeus e cronista do DN.

"Independentemente de Boris Johnson ganhar ou não [as eleições antecipadas de 12 de dezembro], independentemente do que Bruxelas pode fazer ou não, há aqui outros aspetos a ter em conta: os catalães olharam para a Escócia como um modelo inspirador, mas as coisas vão reverter-se. Na Irlanda do Norte, apesar de o DUP [Partido Unionista Democrático que apoia Boris Johnson em Westminster] ser dominado por elites, o eleitorado protestante rural da Irlanda do Norte está a favor deste acordo [renegociado por Boris Johnson e pela UE27 e anunciado a 17 de outubro]. O Parlamento escocês vai pedir um segundo referendo [sobre a independência escocesa], o Parlamento de Westminster poderá dizer que não [tem de dar autorização como aconteceu em 2014]. Mas esse não é complicado, uma vez que as coisas não vão manter-se iguais depois de o Reino Unido sair da UE. Há o perigo de uma parte do eleitorado do SNP [Partido Nacionalista Escocês] enveredar por uma lógica de desafio como existe na Catalunha", alerta Leonídio Paulo Ferreira, jornalista e subdiretor do DN, na tertúlia que decorreu nesta quarta-feira de manhã na Universidade Católica.

Nesta quarta-feira, Michelle O'Neill, do Sinn Féin (partido republicano da Irlanda do Norte que elege mas não assume os seus lugares de deputado em Westminster), disse a Nigel Dodds, líder parlamentar do Partido Unionista da Irlanda do Norte, que espera ver o seu partido roubar-lhe o lugar de deputado. E classificou-o como um dos arquitetos do Brexit. "Vamos apresentar-nos nas sete circunscrições onde já temos deputados e também em Belfast Norte, para ganhar também esse lugar. É uma oportunidade para as pessoas de Belfast Norte expulsarem uma pessoa que foi um arquiteto do Brexit, que trabalhou contra os interesses das pessoas que vivem na ilha", disse O'Neill.

O DUP foi, durante muito tempo, o partido que garantiu a maioria absoluta aos conservadores depois de estes a perderam nas eleições antecipadas convocadas por Theresa May, em 2017. Sempre se opôs ao acordo do Brexit por causa do backstop, mas continuou a opor-se ao acordo renegociado por Boris Johnson e a UE27 e anunciado no dia 17. O Sinn Féin, por seu lado, como defende a união com a República da Irlanda, apoiou o acordo de Boris, que prevê que a Irlanda do Norte possa continuar na União Aduaneira depois de o Reino Unido sair. Na prática, serão precisos controlos de bens entre a Irlanda do Norte e o resto do Reino Unido, que passarão a feitos em território britânico e não entre a República da Irlanda (Estado da UE) e a Irlanda do Norte (província autónoma do Reino Unido). O Parlamento da Irlanda do Norte fica com a hipótese de prorrogar essa situação ou acabar com ela, por maioria simples. Ou seja, o DUP não conseguiu o direito de veto que queria ter.

"12 de dezembro vai ser uma eleição extraordinária. Vai ser uma campanha muito dura, muito populista, no sentido de dizer que ainda não saíram por culpa do Parlamento, dos tribunais, etc... Há três partidos que sabem o que querem: o Partido do Brexit [de Nigel Farage], os liberais-democratas [de Jo Swinson] e o SNP [de Nicola Sturgeon]. Estes partidos já disseram o que querem. Os conservadores dividem-se entre os que querem um Brexit com acordo e que não se importam com um Brexit sem acordo. O que o Partido Conservador vai dizer na campanha é o que está no discurso da rainha, ou seja, questões internas pós-Brexit: questões ligadas à segurança, à educação e à saída. O Labour é que está aqui um pouco sem saber o que fazer. Vai ser um cerco aos trabalhistas feito pelos conservadores e um cerco aos conservadores feito pelos liberais democratas e pelo SNP", antecipa Bernardo Ivo Cruz na tertúlia DN-TSF Brexit, que Brexit?.

"As eleições de dezembro serão um segundo referendo. Os partidos irão focar-se neste acordo [do Brexit], a favor ou contra ele. Boris Johnson vai escudar-se no acordo dizendo que queria o Brexit a 31 de outubro e que foi o Parlamento que não deixou e o obrigou a enviar cartasa Bruxelas um pouco dúbias [a pedir um novo adiamento ao abrigo da chamada Lei Benn]. Boris Johnson vai focar-se no Reino Unido pós-Brexit durante a campanha. Os outros partidos vão capitalizar agendas locais e nacionalistas ou antiacordo. Será expectável a desinformação sobre o acordo de Boris Johnson e será expectável grande abstenção por causa da fadiga que os cidadãos apresentam por causa do Brexit. Não é por acaso que Jeremy Corbyn [líder do Labour] queria alargar o voto a eleitores com 16 anos e a cidadãos europeus a viver no Reino Unido [mais favoráveis à permanência do país na UE]. Isso obrigaria a atualizar os cadernos eleitorais e atiraria as eleições para 2020. A 12 de dezembro tudo estará em aberto", admitiu na mesma tertúlia Ana Isabel Xavier, especialista em assuntos europeus e investigadora do ISCTE.

"Será interessante ver como vai ser discutido o acordo nesta campanha. O voto no Brexit [52% a favor e 48% contra no referendo de 23 de junho de 2026] parece-me que foi motivado por temas que pouco tinham que ver com o projeto europeu. Será muito difícil discutir os termos do acordo, que é um documento com 400 páginas e de uma complexidade jurídica enorme. Tenho dúvidas de que a questão política possa ser escrutinada de modo que o eleitorado perceba", referiu na tertúlia transmitida pela TSF Patrícia Fragoso Martins, professora de Direito da Universidade Católica. E apontou os holofotes para o líder da oposição trabalhista: "O Partido Trabalhista é o partido mais dividido, é onde há desencontros entre eleitores e membros do Parlamento, com uma liderança em dificuldade para abrir caminhos. Como é que Jeremy Corbyn vai implementar o que diz ser a campanha eleitoral mais ambiciosa de sempre no Reino Unido?"

"O problema deste processo já não é o Partido Conservador, mas sim o Partido Trabalhista. Jeremy Corbyn é um brexiteer por natureza, que tem de fazer sínteses internas. Corbyn não é um líder que abre caminhos. E esse é também um dos efeitos colaterais de todo este processo", notou Bernardo Pires de Lima. E acrescenta: "Ninguém na esquerda europeia tem esperança em Jeremy Corbyn. O Partido Conservador tem uma enorme fatia de culpa no processo, mas também a tem o Partido Trabalhista, que tem uma liderança datada e que é falhada. Tenho dúvidas se as eleições são um segundo referendo ou não, porque os conservadores continuam na ordem dos 40% no que respeita a intenções de voto. Boris Johnson vai fazer o que os britânicos querem: encerrar a página, debater o que vai acontecer daqui em diante noutras áreas."

"A saída, não amanhã mas a 31 de janeiro, só é possível porque existe Boris Johnson. Ele, ao contrário de David Cameron, sempre acreditou no Brexit. Apesar de ser um político nada coerente, Boris Johnson chega a estas eleições como o favorito. Desde que o Brexit ganhou, Boris Johnson foi o político mais coerente, isto dentro da incoerência a que temos assistido. Na política, a personalidade dos políticos é muito importante, porque há uma franja do eleitorado que não vai ler os tratados e que, na hora decisiva, vai votar naquele político que lhe transmite mais confiança. Boris Johnson não vai ser penalizado pelas aldrabices que andou a dizer e pelas fake news que pôs a circular [na campanha do referendo de 2016], porque isso é a vontade das pessoas", alertou Leonídio Paulo Ferreira, avisando, porém: "Corbyn é um patinho feio, mas eu não o descartaria totalmente disto."

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