Lukashenko entre o medo de Putin e o precisar dele

É tentador ver Alexander Lukashenko como uma marioneta de Vladimir Putin, com o Presidente bielorrusso a servir sobretudo de manobra de diversão, poupando o Kremlin a críticas que, por razões várias, costumam ser prioritariamente feitas antes ao governante de Minsk. Um exemplo seria a reação da União Europeia ao desvio de um avião com um opositor a bordo, ato de tal forma extremo que de imediato fez renascer a ideia da Bielorrússia como a última ditadura da Europa. Por comparação, perante aquilo que fez agora Lukashenko, mesmo falando de tratamento aos opositores, a Rússia ficaria a ganhar.

Na verdade, Lukashenko tem pensamento próprio e teme tanto Putin como precisa dele. Teme porque acredita numa Bielorrússia independente e sobretudo às suas ordens, e precisa porque a capacidade que tem para contrariar a oposição interna e lidar com as sanções externas não é comparável à de Putin.

Nos seus longos anos no poder, Lukashenko já assistiu à Rússia a tomar o controlo de territórios da Geórgia e da Ucrânia, quando estas antigas repúblicas soviéticas se tornaram insolentes com Moscovo. Aliás, em 2014, a seguir à anexação da Crimeia, o Presidente bielorrusso considerou tratar-se de um mau precedente, mesmo admitindo que nem a sua opinião nem a de ninguém mais alteraria o facto de a Rússia controlar agora a península que formalmente é da Ucrânia, mas cuja população, na grande maioria, é russa e se sente bem na Rússia.

Senhor de um regime mais próximo do soviético do que aquele que existe na Rússia, pois o poder é mais monolítico e as referências ao passado comunista tantas que até os serviços secretos bielorrussos ainda se chamam KGB, Lukashenko precisa do apoio político e económico do grande vizinho. E tem consciência de que, se der sinais de fragilidade, o Kremlin terá meios para o tentar substituir, aí, sim, talvez por uma verdadeira marioneta.

Portanto, são duas as prioridades para o líder bielorrusso: manter o apoio de Moscovo, até porque não tem margem para tentar outros, e não dar argumentos a Putin para considerar uma integração pura e simples da Bielorrússia na Rússia, tanta é a proximidade cultural e linguística. Se não passar nenhuma linha vermelha, ou seja, tentar de alguma forma um acordo hoje totalmente improvável com a União Europeia, Lukashenko poderá ir-se mantendo no poder. A menos que, mesmo sem pretexto óbvio, Putin se canse desta figura meio imprevisível, até porque também não lhe será agradável serem vistos como uma espécie de gémeos pós-soviéticos. Certamente Putin não é Lukashenko, certamente a Rússia não é a Bielorrússia. Mas certamente a Bielorrússia só poderá ser, com ou sem Lukashenko, aquilo que a Rússia permitir.

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