Dada Masilo: uma Giselle africana e feminista no CCB

A bailarina e coreógrafa sul-africana traz ao CCB, em Lisboa, a sua versão de Giselle: dança de fusão e uma protagonista que representa as mulheres do século XXI.

Na versão original, o bailado Giselle, estreado em Paris em 1840, conta a história de uma camponesa que morre de desgosto amoroso ao descobrir que Albrecht, o seu amor, a traiu e está noivo de outra. As Willis, um grupo de mulheres sobrenaturais que obrigam os homens a dançar até à morte, convocam Giselle do seu túmulo e querem congeminar a vingança contra Albrecht. Mas Giselle perdoa-o e salva-o da morte.

Na versão da coreógrafa sul-africana Dada Masilo, Myrtha, a rainha das Willis, é interpretada por um bailarino que é um sangoma, ou curandeiro, que convoca os espíritos ancestrais para ajudar Giselle. E aqui as Willis não dançam em pontas nem têm a doçura das bailarinas clássicas mas são, antes, homens e mulheres de coração partido e ávidos de vingança. Talvez Giselle concorde com eles e Albrecht não mereça ser perdoado. Afinal, estamos no século XXI e há coisas que as mulheres já não aturam. É essa Giselle, pouco convencional mas algo feminista, que podemos ver sexta e sábado no Grande Auditório do Centro Cultural de Belém, em Lisboa.

Aos 34 anos, Dada Masilo é uma bailarina e coreógrafa oriunda da África que tem vindo a ganhar visibilidade nos principais palcos europeus. Cresceu no Soweto, onde começou a dançar no grupo comunitário The Peacemakers. Foi através desse grupo que, aos 11 anos, Dada começou a ter aulas na The Dance Factory, uma escola para crianças e jovens em Joanesburgo que leciona vários estilos de dança e que recebe jovens dos bairros mais pobres, selecionados através de audição. "Ninguém na minha família dança, eu sou a ovelha negra da família. No Soweto não tínhamos ballet. Para mim era algo completamente estranho, quando comecei a ter aulas e tinha de usar meias e sapatos cor-de-rosa, tive de me adaptar. Mas eu adorava dançar, adorava o movimento, por isso queria aprender tudo e pesquisar para perceber como o corpo funciona", contou a coreógrafa numa entrevista à BBC.

"Quando eu tinha 14 anos, a companhia de dança Rosas, da coreógrafa Anne Teresa De Keersmaeker, apresentou-se em Joanesburgo. Nunca tinha visto ninguém dançar daquela maneira e apaixonei-me completamente. Então decidi que queria ir para a escola que ela tinha fundado, a PARTS", contou Dada Masilo à publicação The Stage. "O objetivo implicava uma enorme preparação. Primeiro, tive de ir para a Cidade do Cabo e morar lá durante um ano para ter aulas na Jazzart Dance Theatre. Isso também me permitiu aprender a viver longe de casa. Foi difícil mas valeu a pena. Quando finalmente fui à Bélgica fazer audições estava muito nervosa, o que piorou quando vi que estavam lá 250 bailarinos para fazer audições. Só me apetecia fugir. Mas, em vez disso, tentei aproveitar o momento e dar o meu melhor."

Ter entrado para aquela escola, em Bruxelas, aos 19 anos é, até hoje, uma das maiores conquistas da sua carreira, diz Dada Masilo. "O que eu aprendi lá é que, pela vida fora, nunca paramos de aprender coisas novas. Aprendemos algo novo todos os dias e é importante continuar a trabalhar, para manter a paixão e a disciplina e continuar o mais questionador possível. O meu conselho aos bailarinos é que, quer estejam ainda em formação quer estejam já a trabalhar, façam da aprendizagem contínua uma prioridade. Não interessa quão longa é a vossa carreira, devem-se manter eternamente alunos."

Depois, Dada Masilo regressou à África do Sul, onde criou a sua própria companhia e é artista residente da The Dance Factory. Logo no início da sua carreira propôs-se fazer versões de bailados clássicos como Romeu e Julieta (2008), Carmen (2009) e O Lago dos Cisnes (2010), de maneira a que eles falem de problemas contemporâneos e muitas vezes colocando a sua ação em África.

"O que eu gosto no meu trabalho é que me permite contar histórias, gosto de uma boa narrativa, sobretudo se nos colocar questões. E assim posso falar de diferentes temas sociais, como a homossexualidade, a homofobia, violação, violência doméstica, justiça, lutas de poder", contou à BBC. "Por exemplo, em Lago dos Cisnes posso falar do facto de para mim Siegfried ser gay. Há esta ideia, errada, de que os homens que dançam são gays. Então eu perguntei-me como seria se Siegfried fosse gay e se apaixonasse por um homem, Odile, e essa fosse a história de amor do bailado." Noutras obras fala da sida ou dos "casamentos arranjados" a que muitas raparigas africanas ainda têm de se sujeitar.

A sua linguagem coreográfica junta os movimentos do ballet clássico e da dança contemporânea com a dança tradicional. Dada Masilo chama-lhe fusão. "Gosto de misturar diferentes técnicas, não gosto de me repetir. Desde que comecei a coreografar, decidi que não ia ter uma 'assinatura', porque se não iria estar sempre a fazer a mesma coisa, uma e outra vez, só que com outra música e outro guarda-roupa."

Em Giselle, o espetáculo que estreou em 2017 com música de Philip Miller e desenhos de William Kentridge, Dada Masilo interpreta também a protagonista. A coreógrafa queria usar em palco um fly-whisk (um enxota-moscas tradicional utilizado pelo sangoma, curandeiro sul-africano, nos seus rituais) e, para isso, teve de consultar os anciãos sul-africanos, explicando a sua intenção e pedindo autorização para usar o objeto sagrado. A tradição e a inovação, o antigo e o contemporâneo juntam-se no palco.

Giselle
De Dada Masilo
Sexta e sábado, 21.00
Centro Cultural de Belém, Lisboa
Bilhetes: 14 a 33 euros

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