Mais indianos do que chineses

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Se as previsões das Nações Unidas baterem certo, este 2022 que hoje termina foi o último ano em que a China pôde reclamar ser o mais populoso país do mundo, com quase 1500 milhões de pessoas, um em cada sete habitantes do planeta. O que esperam os demógrafos é que as diferentes dinâmicas populacionais da China e da Índia levem esta última, algures durante 2023, a ultrapassar a primeira, um facto histórico de primeira importância. Em causa está não só o simbolismo do estatuto de país com mais habitantes, mas também o que isso significa em termos de potencial de cada um dos países.

Historicamente, o número de habitantes, desde que associado a recursos adequados e a uma boa governação, garantia o poder de um Estado. Foi assim que a China Imperial se destacou durante milénios, sendo a potência mais rica em termos absolutos até ao final do século XVIII. Foi assim também que a Índia do Império Mogol, antes da colonização britânica, se mostrou capaz de rivalizar com o outro gigante asiático durante algum tempo. E na Europa, fosse com Luís XIV ou já com Napoleão, o poderio francês em certas épocas só se explica pela grande população perante os outros países do continente, com exceção da Rússia. Mesmo nos tempos mais próximos de nós, e isso é mais notório desde o fim da Guerra Fria, uma das vantagens competitivas dos Estados Unidos para manter a supremacia mundial é a sua população crescente, por via sobretudo da imigração, o que contrasta com a evidente debilidade demográfica da Rússia.

Esta ultrapassagem da China pela Índia em termos de habitantes, que acontece uns anos antes da prevista ultrapassagem dos Estados Unidos pela China em termos de PIB, impede que se concretize uma dupla liderança dos chineses. Mas, mais importante do que falhar a acumulação dos estatutos de país com mais gente e de país com maior economia, a China deverá no entanto preocupar-se com o envelhecimento da população, a incapacidade de promover mais natalidade, mesmo abandonando a política do filho único, e a reduzida capacidade para atrair imigração em número substancial, dado os obstáculos linguísticos, culturais e até políticos. As suas ambições de ser a superpotência dominante (ainda que para já continue muito mais pobre por habitante do que os Estados Unidos) podem estar em risco se não recuperar alguma dinâmica demográfica.

Já do ponto de vista da Índia, país muito mais pobre do que a China em termos de per capita e muitíssimo mais pobre do que os Estados Unidos segundo o mesmo critério, a ascensão ao estatuto de potência mais populosa traz sobretudo a esperança de competitividade acrescida, pois tem uma população mais jovem, potencialmente geradora de mais riqueza, e isso significa que na hierarquia das economias pode subir, a médio prazo, bem acima da atual quinta posição. Tudo depende, recordemos, de a massa humana ser bem governada, o que significa no século XXI sobretudo receber educação de qualidade e condições de a usar.

Diretor adjunto do Diário de Notícias

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