O complexo remonta ao século XVIII, embora o culto e a ermida sejam anteriores (século XV ou mais remotos)
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Cabo Espichel, cabo dos trabalhos: uma novela que se arrasta há 50 anos

O Santuário do Cabo Espichel precisa de obras urgentes. A última intervenção foi nos anos 1960. É possível que vá a concurso no programa Revive, já em outubro. Será desta?

Não, esta não é uma história que se conte em três penadas. Começa assim: no fim da estrada, está património classificado a desabar, fruto de décadas de abandono. Chega-se ao Santuário de Nossa Senhora do Cabo, estaciona-se no parque de terra batida, e segue-se pelo pátio que nos abraça, belíssimo, embora já sem forças. Percorre-se o terreiro, arcada após arcada, inebriados pela simetria e por duas línguas de portas e janelas emparedadas. Parece um monumento mudo. Ao fundo, na igreja, as pinturas dos tetos têm cor (foram restauradas em 2001), mas as regras atuais não deixam fotografar. Passamos depois para a parte de trás do conjunto, junto à beira da falésia onde tudo começou, junto à Ermida da Memória. É um suspiro branco com dois painéis de azulejos parcialmente destruídos no exterior. Lá dentro, dez painéis de azulejos forram as paredes e contam a história das origens daquele promontório a que os antigos chamaram Barbárico. Mas a porta está fechada e cá fora o painel de informação há muito foi arrancado da base de betão.

Este é o cenário que há décadas se repete no Santuário do Cabo Espichel, em Sesimbra. O complexo remonta ao século XVIII, embora o culto e a ermida sejam anteriores (século XV ou mais remotos). O conjunto da Igreja de Nossa Senhora do Cabo, a casa dos círios (hospedarias) e terreiro está classificado como imóvel de interesse público desde 1950, mas os visitantes que chegam ao local tiram fotografias e seguem viagem. Não fora a paisagem e pouco os prendia ali. Nesta tarde de agosto, não há muita gente. Famílias com o fato de banho ainda húmido e areia nos pés assomam ao precipício, espreitando a vista e esperando o pôr-do-sol. "Vimos cá todos os anos e é sempre a mesma coisa. Mas gostamos sempre de vir", reconhece Ana Maria Matos, que, com o filho e o marido, cumpre o ritual de férias. Diz que "claro" que gostava de ver o local mais cuidado, com informação, mas, apesar de ainda não ter perdido a esperança de que isso aconteça, sugere que hoje "há o Google" e qualquer pessoa com curiosidade se pode informar. Duas amigas ucranianas têm outra opinião: "Fomos visitar o farol, que tem umas visitas muito giras para fazer com as crianças, depois viemos aqui e não temos muito para ver, tirando a igreja", diz Natália. Não deixam de sorrir enquanto as abordamos à porta da casa de banho unissexo que a Câmara Municipal de Sesimbra (CMS) ali instalou - há uns anos, diz o senhor João, que há 30 anos ali vende búzios e conchas aos turistas e já se habituou a não ter água canalizada nem eletricidade. Também tem a concessão da rulote que vende bifanas, farturas e churros, que só se anima verdadeiramente aos domingos com a chegada dos grupos de motards, "malta da bifanazinha, da cervejinha".

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