Passaram 45 dias. Afinal, o que é que se sabe sobre a vida e a morte de Luís Grilo?

Depois da estupefação, o medo. Em Cachoeiras, Vila Fanca de Xira, familiares e amigos já não avançam razões, nem para o desaparecimento, nem para a morte. O atleta foi hoje sepultado, e ainda não há luz sobre o homicídio

Luís Grilo, 50 anos, homem de família, apaixonado pela mulher e pelo filho, alegre, praticante de triatlo, lutador e otimista. Engenheiro informático, "pessoa simples", sem problemas de dinheiro ou familiares. Encontrado morto a 140 quilómetros de casa - aldeia de Cachoeiras, em Vila Franca de Xira - com um saco preto do lixo na cabeça, nu, braços abertos, vítima de "crime violento", como descreveu a Polícia Judiciária.

Tinham passado 39 dias do desaparecimento até que Luís Martins, por acaso, deu com o corpo do atleta no meio de um eucaliptal, em Covões, a apenas vinte quilómetros da casa dos sogros de Luís Grilo, Benavila, em Avis, no Alentejo. Seis dias depois de o cadáver ter sido descoberto a morte do engenheiro permanece um mistério. Luís Grilo foi sepultado esta quinta-feira, num ambiente de consternação, mas sobretudo de medo. Quem matou Luís Grilo? E porquê?

Trabalho: Alverca

Tirou o curso superior à noite, durante o dia trabalhava numa oficina, disse ao DN a sogra de Luís Grilo, Já licenciado, montou a pequena empresa de informática Gsystem, em Alverca, onde a mulher, Rosa Grilo, trabalha como administrativa: é ela quem processa os pagamentos, por exemplo, como descreveu um dos fornecedores da empresa de Luís Grilo. "Posso dizer que éramos amigos. Não lhe conhecia nenhum problema, mas sei isto: nas terras pequenas por uns centímetros de terreno as pessoas são capazes de tudo", diz Jorge Alarcão, proprietário da Dot.net, a tentar compreender o que, para ele, "não tem qualquer explicação".

Recebeu um sms de Rosa Grilo, esta quarta-feira, a informar da data do funeral: dia 30, pelas 15:30, na igreja de Cachoeiras, a poucos metros da urbanização onde o atleta vivia com a mulher e o filho, um menino de 12 anos.

Família: Cachoeiras, Vila Franca de Xira

Os pais de Luís Grilo moravam em Cachoeiras, uma aldeia de poucas casas, em Vila Franca de Xira. Foi ali que Luís e a mulher, Rosa, compraram uma casa "há 13 anos", confirma a sogra do atleta, para quem Luís Grilo "era como um filho".

O casal conheceu-se em Alverca, onde Rosa cresceu - os pais são de Benavila, a terra onde foi encontrado o corpo de Luís Grilo. A descoberta mudou o rumo da investigação. Quando o atleta desapareceu, a 16 de julho, depois de ter saído para um treino de bicicleta, pelas 16:00 - segundo a mulher - e após não ter regressado para levar o filho à natação, como estava combinado, Rosa Grilo contactou a GNR de Castanheira do Ribatejo.

Dois dias depois as autoridades receberam o contacto de alguém que encontrara o telemóvel do atleta. Estava caído numa ribanceira, numa estrada próxima aos Casais da Marmeleira, a apenas 6 quilómetros de casa de Luís Grilo, mas num percurso que não era nada habitual para o engenheiro, diz quem lhe conhecia os hábitos. Foi um "rapaz da terra" que, ao fazer marcha atrás com o trator, descobriu o aparelho. Lembrou-se de Luís Grilo e entregou o achado à GNR. O telemóvel estava desligado, fora da bolsa de plástico onde Luís Grilo o transportava, junto com uma cópia do cartão do cidadão. A Polícia Judiciária já interrogou duas vezes o homem que encontrou o telemóvel.

Morte: Benavila, Avis

Luís Martins, habitante em Santo António de Alcórrego, Avis, lembrou-se de ir ver "onde dava uma estrada de terra batida" no lugar de Covões, a vinte quilómetros de Benavila, a terra dos sogros de Luís Grilo. A Avis, a família ia nas férias. O corpo de Luís Grilo foi descoberto em cima de um monte de areia: nu, de braços abertos e barriga para cima, com um saco preto do lixo na cabeça. Chamada, a GNR de Avis, ao perceber que o cenário encontrado configurava um crime, contactou a Polícia Judiciária. Nesse mesmo dia, 24 de agosto, uma sexta-feira, o tio de Luís Grilo, irmão do pai de Rosa Grilo, foi ouvido pela Judiciária. Não sabia de nada. Não encontrava justificação para o corpo do sobrinho aparecer a 140 quilómetros do local de onde tinha desaparecido.

Luís estava longe de casa, mas não foi encontrado num lugar desconhecido: costumava passar ali temporadas. Família e populares são unânimes ao dizer que o crime não fora cometido em Covões, o corpo terá sido ali depositado. Esta parece ser também a convicção da PJ, que está a investigar duas possibilidades: crime passional ou ajuste de contas.

O hobbie

Luís Barradas, treinador de Luís Grilo na Wikaboo, uma empresa de treinos, contou que Luís Grilo estava bem e muito feliz com a prestação de 30 de junho numa prova Ironman, uma das mais difíceis no triatlo, em Frankfurt, na Alemanha. O atleta tinha conseguido bons resultados na competição. O treinador considerou "estranho" o percurso alegadamente feito por Luís Grilo nessa segunda-feira, dia 16 de julho: afinal era suposto estar a descansar e o engenheiro nem gostava de pedalar em estrada, uma vez que considerava perigoso esse tipo de treino.

A bicicleta

Luís Grilo terá saído de casa pelas 16h00, de acordo com a mulher. Mas mais ninguém o viu sair. Imagens das câmaras de videovigilância de uma empresa em Casais de Marmeleira mostram um vulto impercetível a passar de bicicleta às 17:40 de 16 de julho, mas não ficou claro que fosse Luís Grilo. A bicicleta - preta e vermelha e de valor elevado - também não foi encontrada. Nos primeiros dias após o desaparecimento do atleta, uma mulher garantia que tinha visto Luís Grilo a discutir com um homem em Arruda, uma terra a poucos quilómetros de Cachoeiras. A testemunha voltou atrás na sua versão: só vira um ciclista, não sabia se era Luís Grilo.

Dinheiro

Familiares, amigos, clientes e fornecedores garantem que Luís Grilo não vivia nenhum drama financeiro. "Houve uns problemas com a Segurança Social, mas o habitual nas pequenas empresas", disse ao DN um amigo e cliente da empresa do atleta, Paulo Tomás, proprietário de uma oficina em Alenquer. Falou com Luís Grilo quinze dias antes do desaparecimento. "Falámos sobre problemas no trabalho, nada de mais, coisas que só quem tem empresas percebe", acrescenta.

Uma semana depois, ligou a Rosa Grilo. "Tenho um carro do Luís há muito tempo lá na oficina. Ele não o tinha mandado arranjar - tem o motor gripado - então houve um cliente que o quis comprar. O Luís concordou, mas a Rosa acabaria por me dizer que o carro era para vender só dali a dois meses", conta Paulo Tomás, que considera "inconcebível" o que aconteceu ao amigo. Descreve a relação de Luís e Rosa Grilo como "muito carinhosa" e sublinha a "adoração" do atleta pelo filho. "Como é que logo o Luís pode ter sido vítima de um crime?", pergunta, reconhecendo o medo. "Vivemos num tempo em que não há qualquer respeito pela vida humana", resume.

Ler mais

Exclusivos

Premium

João Gobern

Tirar a nódoa

São poucas as "fugas", poucos os desvios à honestidade intelectual que irritem mais do que a apropriação do alheio em conluio com a apresentação do mesmo com outra "assinatura". É vulgarmente referido como plágio e, em muitos casos, serve para disfarçar a preguiça, para fintar a falta de inspiração (ou "bloqueio", se preferirem), para funcionar como via rápida para um destino em que parece não importar o património alheio. No meio jornalístico, tive a sorte de me deparar com poucos casos dessa prática repulsiva - e alguns deles até apresentavam atenuantes profundas. Mas também tive o azar de me cruzar, por alguns meses, tempo ainda assim demasiado, com um diretor que tinha amealhado créditos ao publicar como sua uma tese universitária, revertido para (longo) artigo de jornal. A tese e a história "passaram", o diretor foi ficando. Até hoje, porque muitos desconhecem essa nódoa e outros preferiram olhar para o lado enquanto o promoviam.

Premium

Rogério Casanova

Três mil anos de pesca e praia

Parecem cagalhões... Tudo podre, caralho... A minha sanita depois de eu cagar é mais limpa do que isto!" Foi com esta retórica inspiradora - uma montagem de excertos poéticos da primeira edição - que começou a nova temporada de Pesadelo na Cozinha (TVI), versão nacional da franchise Kitchen Nightmares, um dos pontos altos dessa heroica vaga de programas televisivos do início do século, baseados na criativa destruição psicológica de pessoas sem qualquer jeito para fazer aquilo que desejavam fazer - um riquíssimo filão que nos legou relíquias culturais como Gordon Ramsay, Simon Cowell, Moura dos Santos e o futuro Presidente dos Estados Unidos. O formato em apreço é de uma elegante simplicidade: um restaurante em dificuldades pede ajuda a um reputado chefe de cozinha, que aparece no estabelecimento, renova o equipamento e insulta filantropicamente todo o pessoal, num esforço generoso para protelar a inevitável falência durante seis meses, enquanto várias câmaras trémulas o filmam a arremessar frigideiras pela janela ou a pronunciar aos gritos o nome de vários legumes.